Internacional

Uma cimeira à espera do Presidente dos EUA

Alex Wong/Getty

Donald Trump não revela intenções sobre o que quer (ou não) da NATO. Portugal escapou às críticas americanas

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

António Costa vai levar à cimeira da NATO, a 11 e 12 de julho, em Bruxelas, o plano oficial e concreto sobre o aumento para 2 por cento do PIB das despesas militares de Portugal até 2014 e, dentro deste objetivo, os 20 por cento que se referem aos investimentos. O tema ainda está a ser trabalhado ao mais alto nível, embora os EUA já tenham sido informados do compromisso português.

O assunto constou, aliás, das conversações do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e do ministro Augusto Santos Silva no decurso das recentes visitas a Washington, nomeadamente no encontro com Donald Trump. O que ajuda a explicar o facto de Portugal não ter sido alvo de uma das cartas que, na semana passada, o Presidente americano despachou, em tom mais ou menos ríspido, para alguns dos aliados europeus, reclamando da insuficiência das suas contribuições para a Aliança Atlântica.

A existência dessa carta foi de imediato negada pelo Governo português e, ontem, também pelo embaixador americano em Lisboa, em entrevista à Lusa. George Glass sublinhou, de resto, que “Portugal assegurou um compromisso de 2 por cento” e, neste momento, “é isso que os EUA querem: o compromisso”.

Também em Lisboa, o Presidente da República desvendou que, em particular, será feito um “investimento acrescido nas Forças Armadas”, o que representa, segundo disse, “uma oportunidade muito importante para Portugal”. Falando no encerramento do seminário “A segurança, a defesa nacional e as Forças Armadas”, Marcelo aludiu a “vários investimentos em várias capacidades nos três ramos”, seja no campo das “aquisições, renovações, manutenção ou introdução de novos tipos de meios de intervenção”.

Ou pagam ou...

Portugal gasta hoje 1,3% do PIB, segundo os dados da NATO, situando-se a meio da tabela dos 28 aliados (em 14º lugar efetivamente). Só quatro países, com os EUA à cabeça, despendem mais do que a meta do compromisso dos 2%, acordada na cimeira de Gales, em 2014. Os EUA lideram a lista (3,5%), seguidos da Grécia (2,3%), Reino Unido (2,1%) e Estónia (2%). Em termos de despesas em equipamentos, porém, Portugal está em 23º lugar (10,3% com referência a uma meta de 20%).
A divergência entre os aliados é de tal ordem que, considerando a despesa global da NATO em 2017 de 957 mil milhões de dólares, sem os EUA seria apenas de 271.

É este facto que tem estado na origem das divergências entre europeus e americanos. Se todos os Presidentes americanos têm reclamado mais e melhor dos aliados, a intransigência e imprevisibilidade de Trump elevaram-nas ao máximo, fazendo temer o pior dos cenários para esta cimeira.

As cartas enviadas a diversos aliados e o tom de algumas das suas declarações. Trump já considerou a NATO “obsoleta e “tão má como o NAFTA”, o acordo que liga os EUA ao México e Canadá e que o Presidente americano quer rever. Quanto à UE, já a declarou tão má quanto a China, “só que mais pequena”. Trump reclama que os europeus tratam mal e injustamente os americanos, “e apesar disso gastamos uma fortuna na NATO para protegê-los”, disse em entrevista à Fox.

Quase acintosamente, a cimeira entre o Presidente americano e o russo está marcada para 16 de julho, em Helsínquia, e os europeus temem mesmo que, comparativamente, Trump trate melhor Putin. Os próprios aliados estão divididos quanto às relações com Moscovo. Tudo isto, somado ao fracasso da recente cimeira do G7 e à retirada dos EUA do acordo com o Irão, são argumentos suficientes que fazem com que esta semana, por exemplo, a capa da revista britânica “The Economist” tenha o título: “A fenda transatlântica”. E declina: “A aliança ocidental está em apuros e isso deve preocupar a Europa, a América e o mundo.”

Artigo publicado na edição do Expresso de 07/07/2018