Internacional

Repórteres sem Fronteiras: Europa atravessa “momento de deterioração” da liberdade de imprensa

CHRISTIAN MANG/REUTERS

“Existe neste momento uma deterioração na Europa que é muito inquietante”, referiu Pauline Adès-Mévèl, responsável do gabinete Europa e Balcãs da ONG, com sede em Paris e vocacionada para a defesa da liberdade de imprensa e da atividade dos jornalistas

A Europa atravessa um “momento de deterioração” da liberdade de imprensa, que alastra à parte ocidental, alertou esta quinta-feira uma responsável dos Repórteres sem Fronteiras (RSF), comentando os assassinatos de três jornalistas em países da UE nos últimos 12 meses.

“Existe neste momento uma deterioração na Europa que é muito inquietante”, referiu em declarações por telefone à Lusa Pauline Adès-Mévèl, responsável do gabinete Europa e Balcãs desta ONG, com sede em Paris e vocacionada para a defesa da liberdade de imprensa e da atividade dos jornalistas.

Em meados deste ano, os RSF publicaram um relatório sobre a classificação mundial da liberdade de imprensa, e onde se assinalam fortes recuos em países europeus. O documento já denunciava os assassinatos da jornalista de investigação de Malta Daphne Caruana Galizia, morta num atentado à bomba em 16 de outubro de 2017, e do jornalista de investigação eslovaco Jan Kuciak e de sua namorada, em fevereiro.

O relatório referia frequentes “ataques físicos e ameaças de morte de grupos mafiosos” contra jornalistas na Bulgária, mas sem prever o assassinato, na semana passada, de Viktoria Marinova, apresentadora no canal televisivo privado regional TVN em Ruse, norte do país.

“Também na Europa ocidental, infelizmente, estão a ocorrer atentados à liberdade de imprensa”, realçou a responsável da RSF indica.

A Bulgária figura em último lugar da classificação entre os países comunitários, mas a responsável dos RSF também alerta para a situação em Malta, “que denunciamos sistematicamente”, na República Checa “com um Presidente [Milos Zeman] que ataca regularmente os jornalistas, que os insulta” e “compareceu numa conferência de imprensa com uma ‘kalashnikov’”, ou na Eslováquia “com um antigo primeiro-ministro [Robert Fico], que ainda na noite de terça-feira atacou verbalmente os jornalistas”.

O fenómeno, adiantou, está a “alastrar”, ao referir-se a uma “situação extremamente inquietante na Polónia e Hungria, onde existe a impressão que o modelo europeu já não é aquele que prevalece em termos de liberdade de imprensa, e que sobretudo não respeitam os compromissos que assumiram perante a União Europeia”.

E também já chegou à Europa ocidental, sublinhou Pauline Adès-Mévèl. “Vimos o vice-primeiro-italiano [e ministro do Interior] Matteo Salvini criticar os jornalistas, a questionar a proteção policial dos jornalistas antimáfia, o que também é muito inquietante”, exemplificou.

A situação em Espanha no decurso do referendo de 2017 sobre a independência foi também sublinhada pela responsável da ONG, devido ao “descontrolo” mediático que motivou.

“Foi impressionante, para os catalães, para os espanhóis, para toda a Europa, assistir até que ponto a palavra estava liberta, e os ataques contra os jornalistas sem tabus”, assinalou.

“Os atentados contra a liberdade de imprensa, os ataques nas redes sociais, é algo que existia antes, mas julgo que os líderes políticos que promovem este tipo de ataques, fornecem uma espécie de permissão, de certa forma um cheque em branco, à população para atacarem os jornalistas”.

Neste contexto, as redes sociais assumem um papel muito particular, devido à condição de anonimato que possibilitam, considera.

“O problema das redes sociais é que alguém que pretende criticar, e porque é anónimo, sente-se galvanizado e investido de poderes que antes não tinha. É o que designamos por ciberviolência”, sustenta.

No final de julho os RSF publicaram um relatório sobre esta questão para denunciar diversos casos, “mesmo em países onde parece que tudo vai muito bem” como na Holanda, que ocupa o terceiro lugar na classificação da liberdade de imprensa (logo após a Noruega e Suécia), mas onde “o fenómeno está em crescimento e é extremamente inquietante”.

Perante um “modelo em erosão”, os RSF consideram que uma das suas funções consiste em “erguer barreiras” e pressionar os governos para a aplicação de punições de sanções.

“Se as instituições europeias não funcionarem, ou não meterem em ordem países com a Bulgária, Hungria ou Polónia, será muito incómodo porque significa que esse clima se irá instalar”, defende a ativista.

Assim, os RSF já solicitaram que os jornalistas de investigação na Bulgária que trabalham sobre questões de suspeitas de fraude dos fundos europeus estejam sob proteção, quando a solicitarem. Ou que se registem progressos visíveis no inquérito sobre a jornalista de Malta assassinada, que permanece bloqueado. Até agora, estas insistências não produziram resultados, adiantou a mesma fonte.

“Assim, são as instituições europeias que devem ocupar-se deste problema, e que devem chamar à ordem os países. Infelizmente, apenas poderá ser resolvido com sanções. Se existirem sanções, ameaças de sanções financeiras, de retirada do direito de voto como a aplicação do artigo 7.º em relação à Hungria, talvez cheguemos a algum resultado. Mas é necessária mais firmeza por parte das instituições europeias”, conclui Pauline Adès-Mévèl.