Valdemar Cruz Jornalista

As lágrimas amargas de Olajumoke Ajayi

13 de Junho de 2018

(A DOR DA GENTE NÃO SAI NO JORNAL) - Chico Buarque)

Começo a escrever quando está o dia a nascer no Mediterrâneo. O meu relógio marca uma hora menos do que registará, caso o tenha, o de Olajumake Adeniran Ajayi, a mulher de 30 anos que, acompanhada do marido e dois filhos está agora a bordo de um dos barcos que nos próximos dias transportará para Valência, em Espanha, 629 refugiados e migrantes. Uma centena destes homens, mulheres, adolescentes e crianças estão no “Aquarius”, a embarcação que os salvou na madrugada de sábado e manhã de domingo. Os restantes seguem em duas embarcações italianas. Começaram por ser rejeitados pela extrema-direita italiana no poder, depois por Malta e de novo por Itália.


Enredada nas suas contradições e na incapacidade de assumir uma política séria e consistente, de modo a dar resposta a estas vagas migratórias, a EU foi salva no último momento da exposição crua da tragédia da sua própria insignificância. Respirou de alívio com a decisão corajosa, arrojada, solidária, e de uma grande dignidade do novo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ao evitar o que poderia ser uma catástrofe humanitária.


A congratulação pela lição dada por Sánchez não pode esconder, como escreve o El Mundo, que “as consequências desta decisão são imprevisíveis e seria negligente ignorá-lo. O seu impacto sobre as rotas, as expectativas dos emigrantes, os interesses das máfias e a reação nos países vizinhos é impossível de calcular”.


No Expresso Diário, Ricardo Costa escreve que “A cegueira de Bruxelas deu a maior borla de sempre aos movimentos xenófobos europeus, sobretudo aos que enfrentam rotas migratórias”.


Espanha não pode ficar sozinha no seu altruísmo. Tudo será inútil, caso a EU continue prisioneira dos seus fantasmas e não defina uma estratégia e um acordo a médio e longo prazo entre os países. A pressão migratória vai continuar e aumentar nos próximos anos e décadas, e essa é a “maldição dos ricos”, como escreve no El País o economista Branko Milanovic. África é o continente com a maior expectativa de crescimento demográfico, por isso, não adianta construir muros, como pretende a Hungria, a Eslováquia ou a Itália. Ou fechar os olhos á realidade, como disse Marcelo Rebelo de Sousa em Boston.


Para já ainda há países a aceitarem acolher refugiados e migrantes por questões humanitárias. Mas a tendência é para a introdução de um sistema de pagamento por cabeça. Não é já o que a EU está a fazer com as milionárias transferências de dinheiro para a Turquia? Se agora são um negócio controlado por máfias, os refugiados podem transformar-se num negócio à escala dos países, e com pouca diferença dos sistemas de escravatura. Quais são os limites morais do mercado? Quanto custa um refugiado?


Num mundo em que tudo se liberaliza, em particular o movimento de capitais, é revelador perceber que o único tabu, aquilo que continua a defrontar uma total resistência, é a livre circulação de pessoas.


Assim, e como não é sério passar dias inteiros das semanas todas a debater os delírios do presidente de um clube de futebol e pensar que daí não advêm consequências para a definição da sociedade que somos; como não é possível ficar indiferente ao drama de milhões de pessoas a viverem na pobreza extrema, mas sentem ter à distância de um braço de mar a hipótese de uma vida nova; como a odisseia dos refugiados e migrantes raramente consegue mais que os 15 minutos de fama enunciados por um pintor pop; como a dor da gente nunca vem no jornal, de uma forma consistente e continuada; e quando os holofotes mediáticos estão centrados no campeonato do mundo de egos de dois presidentes perdidos nos seus próprios labirintos, o Curto de hoje só podia ter como tema principal a dor da gente. A dor que conta.


OUTRAS NOTÍCIAS


Prosseguem as ondas opinativas, as ondas de choque, as ondas eufóricas, as ondas céticas, sobre a cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un. Há comentários para todos os gostos, desde os que recuperam anteriores negociações entre as partes para mostrar como depois tudo ruiu por incumprimento mútuo, até as tentativas de situar a cimeira nos seus estreitos limites. Como o faz o New York Times ao assegurar ter sido uma reunião sem precedentes, “mas sem garantias”. Num exercício de grande utilidade, o jornal apresenta um excelente artigo que, em dez pontos, tenta descodificar o que aconteceu e porque é importante.


O jornal inglês The Guardian destaca a circunstância de a imprensa norte-coreana apresentar o encontro entre os dois presidentes como uma vitória diplomática para Kim Jong-un. É curioso constatar como esta análise não anda longe ou é até muito próxima da que tem sido feita por inúmeros analistas ocidentais.


O francês Le Monde faz um resumo em imagens do encontro histórico entre Trump e Jong-un. Na Suíça, o Le Temps revela que o presidente da Coreia do Norte diz ter convidado Trump a visitar o seu país e que já aceitou ele próprio visitar os EUA.


Por cá, no Expresso Diário, Francisco Louçã, num artigo intitulado “Trump ganha sempre”, (Acessível para assinantes) escreve que talvez o momento mais revelador da conferência de imprensa de Trump em Singapura “tenha sido quando falou na “perspetiva do negócio imobiliário” quanto à vontade de construir “condomínios nas lindas praias da Coreia do Norte”, “maravilhosa localização” entre os turistas da China e os da Coreia do Sul, cheios de dinheiro para irem ao exótico”. (…)Isto, prossegue “é puro Trump: um empresário e não um estadista, que luta contra os concorrentes e promove negócios, mas só considera de modo instrumental a ordem política que resulta da sua ação. Ora, há muitos que o desprezam por isso, ele não faz parte da aristocracia da política, tem maus modos, é petulante, gaba-se do “meu instinto, o meu talento” para ler a alma de Kim Jong-un, é volúvel e incapaz – pois ganha precisamente por isso”.


Como isto anda tudo ligado, eis uma notícia aparentada com o tema de abertura deste Curto. Os EUA decidiram fechar as fronteiras às vítimas de violência doméstica e de gangs. O Departamento de Justiça optou por mudar a sua interpretação das leis de asilo e, a partir de agora, as queixas de estrangeiros sobre violência doméstica ou violência de gangs por atores não governamentais deixam de ser avaliadas.


A Macedónia passa a chamar-se República da Macedónia do Norte. O primeiro-ministro macedónio, Zoran Zaev, anunciou que a designação da ex-república jugoslava resulta de um acordo estabelecido entre a Macedónia e a Grécia.


Os escritos de Amílcar Cabral, líder histórico da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, vão ser candidatados ao programa "Memória do Mundo" da Organização das Nações Unidas para a Educação-UNESCO.


Em Espanha, o Supremo Tribunal suavizou a pena a que foi condenado Iñaki Urdangarin, marido da infanta Cristina e cunhado do rei Filipe VI, mas não deixou de lhe aplicar cinco anos e dez meses de prisão por vários delitos de fraude fiscal, tráfico de influências e outros crimes.


Não há muito tempo, Cristina Drios escreveu o romance Adoração. Nele se fala de Caravaggio, que passou uma tem+porrada na Sicilia, em 1609, a aguardar um indulto papal por um crime de sangue cometido em Roma. Nesse período pintou uma tela conhecida por A Adoração e que esteve no Oratório de S. Lourenço, em Palermo, até ser roubada, na noite de 17 para 18 de outubro de 1969. Desde então tem andado nas bocas do mundo e transformou-se num mistério. Admitiu-se, até, que tenha sido retalhada para ser vendida no mercado clandestino. Admitiu-se ter sido destruída. A Revista de arte Apollo vem agora recuperar uma história à qual sempre se associou a Mafia, para dizer que investigações recentes indicam poder estar a tela na Suíça.


POR CÁ


O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou o Estado português a pagar mais de 68 mil euros ao ex-ministro do PS Paulo Pedroso no âmbito do processo Casa Pia. Pedroso diz ter sido “vitima de erros judiciários graves e grosseiros". Em 2003 foi detido, interrogado, constituído arguido e colocado em prisão preventiva. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sustenta que foram violados vários direitos protegidos pela convenção europeia (como o "direito à liberdade e à segurança" e o "direito a indemnização"). Acrescenta que a detenção e prisão preventiva de Pedroso aconteceram sem que as suspeitas de abuso de menores que sobre ele recaíam fossem plausíveis.


A Fenprof e outras organizações sindicais vão apresentar hoje queixa contra a diretora-geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE) na Inspeção-Geral da Educação, no Ministério Público e na Provedoria de Justiça. Em causa está uma nota informativa enviada às escolas na segunda-feira que terá como objetivo mitigar os efeitos das greves de professores às reuniões de avaliação.


Um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), no qual participou o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), mostra que o estireno, um solvente orgânico utilizado no fabrico de plásticos reforçados, pode causar cancro, noticia a Agência Lusa. Segundo um comunicado do ISPUP, os resultados deste trabalho demonstram que o estireno - usado no fabrico de polímeros e de plásticos reforçados -, a quinolina (solvente) e o 7,8 óxido de estireno são "provavelmente carcinogénicos para os humanos".


Continua a novela do Sporting. Há quem diga já não haver paciência. Há quem se indigne com os critérios editoriais vigentes nas televisões. Há quem tente ir um pouco mais longe. Como o fizeram Hugo Franco e Rui Gustavo, que elaboraram no Expresso Diário (ACESSO RESERVADO A ASSINANTES) um guia para perceber o caso das rescisões no Sporting, e porque é que os tribunais têm decidido a favor dos jogadores.


As manhãs da Antena 1 estão mais pobres. António Macedo, um dos grandes nomes da rádio portuguesa, o homem que, com a sua cultura, conhecimento e humor preenchia há longos anos as melhores manhãs da rádio pública, desapareceu dos microfones. A voz do ‘Programa da Manhã’ da estação pública, do qual era também autor e realizador, desvinculou-se segunda-feira de todas as suas funções. António Macedo, uma referência absoluta da rádio tinha um conflito em tribunal com a RTP. Motivo? Tem 67 anos e estava há 15 anos a trabalhar a recibos verdes. Isto é, na condição de precário. Precária está uma empresa ou o mundo onde estas precariedades são o novo normal.

PRIMEIRAS PÁGINAS


PS quer legalizar imigrantes a trabalhar há um ano em Portugal – Público


Mulheres denunciam jogo ilegal para acabar com vício dos maridos – JN


Novas freguesias anularam isenção de IMI – DN


BE, PCP e PEV pretendem que armas ilegais sejam entregues ao Estado – I


Bruno agarrado a um milhão de euros – Correio da Manhã


O negócio louco dos cães e gatos – Visão


FRASES


“Só hoje voltei a ser verdadeiramente livre”, Paulo Pedroso, ex-ministro de um governo do PS


“No Douro, era bom que se esclarecesse o que é que se passa junto á escarpa. Do dinheiro já sabemos”. Álvaro Domingues, geógrafo, no Público


“Salazar não gostava de futebol”, António Simões, ex-jogador do Benfica e da Seleção Nacional em entrevista ao jornal I


O QUE ANDO A LER


Sabe quem terá sido o mais divertido, o mais anárquico, o mais irreverente, o mais desenrascado dos espiões portugueses? Conhece o homem que em plena I Guerra Mundial trabalhou por junto ou em separado, que se saiba, para russos, prussianos e ingleses, além de outros que o segredo da espionagem terá reservado? Vou, então, apresentar-lhe o Espião Acácio. Deu-se a conhecer há umas três décadas pela mão de Fernando Relvas, porventura o mais importante nome da história da Banda Desenhada portuguesa, falecido em novembro do ano passado.


De início divulgadas na revista “Tintin”, a uma cadência de duas páginas por semana, as histórias do “Espião Acácio” regressam agora numa imperdível edição em álbum, papel de boa qualidade e capa dura, graças ao esforço desenvolvido pela Turbina Associação Cultural, com o carimbo editorial da Mundo Fantasma.


São histórias fantásticas, cujo feito maior nem será a circunstância de terem resistido à passagem do tempo. Relvas, irreverente, homem de um humor corrosivo, criador de outras personagens memoráveis, como a do “jornalista de ponta” Karlos Starkiller, Violeta, Capitão Latino-América ou o homem aranha Mao Tse-tung, já para não falar da osga chamada Heidegger, morreu com 63 anos e deixou marcas profundas na banda desenhada portuguesa contemporânea.


Num dos textos que acompanham esta edição, assinado por Júlio Eme e Margarida Mesquita, escreve-se “do policial negro à ficção científica; do humor desenfreado à candura dum traço destinado ao olhar infantil; da sua imensa paixão pela história (que ocasionou algumas das suas obras mais planeadas e mais sofridas) à caricatura do momento; da sátira politicamente incorrecta ao nonsense mais nonsense que qualquer outro nonsense, o autor a tudo nos sujeitou, a tudo se sujeitou, a tudo se entregou e tudo nos entregou”.


O percurso por estas 117 páginas é uma viagem delirante a um mundo feito de inocentes perversidades, acompanhado de um confronto permanente com os limites da irreverência.


Tenha um bom dia, que o Stº António já se foi o S. João está para chegar.

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