Cristina Figueiredo Editora de Política da SIC

“Pintou um clima”. Mas esta “novela” não promete um final feliz

10 de Agosto de 2018




Às duas da manhã, o vento soprava tanto entre as frinchas das portadas das minhas janelas que me dificultava a concentração para continuar a escrever. Não fosse a casa ainda estar tão quente das temperaturas infernais de há uma semana e julgar-se-ia que era inverno. Pouco antes, a SIC passara imagens tão espectaculares quanto assustadoras de um tornado de fogo em Inglaterra - um fenómeno que já não é assim tão raro. Há notícia de cheias em França e na India (causaram 20 mortos e milhares de desalojados). Na Califórnia continua a lavrar um incêndio de proporções bíblicas (considerado já o mais grave na história daquele Estado norte-americado) e na Nova Gales do Sul, "celeiro" da Austrália, há registo de uma seca nunca vista: sem água, o país está à beira de ficar também sem pão. Por cá, uma semana depois, o fogo em Monchique (que consumiu mais de 26 mil hectares e já foi classificado como o maior fogo europeu do ano) está finalmente dominado.

A responsabilidade última de tudo isto é do clima, ou melhor, das "condições meteorológicas excepcionais", como diria o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que ontem deu uma entrevista à TVI. Tem razão. Sim, eu sei, somos tentados a interpretar a afirmação do ministro como alijar de responsabilidades num processo onde, apesar de tudo (e este apesar não é pouco: apesar da imensa área ardida e da perda de muitas habitações, não houve vítimas mortais), continuou a haver falhas na prevenção, falhas no combate e... falhas na comunicação. E a propósito destas últimas, o gabinete do primeiro-ministro veio assegurar, em comunicado enviado às redações ontem ao final da tarde que, quando disse que "Monchique foi a excepção que confirmou o sucesso da operação de combate aos incêndios", António Costa não estava a desdramatizar o que se estava a passar na serra algarvia. As suas palavras terão sido, lê-se, "descontextualizadas e deturpadas".Eu diria que foram, apenas, mal-escolhidas.

Mas volto propositadamente ao clima (e à "sua" culpa). Domingos Xavier Viegas, que coordenou a equipa de investigadores que elaborou o relatório sobre os incêndios de Pedrogão Grande, escreveu ontem um artigo no Expresso Diário sobre as lições (algumas melhor aprendidas que outras) que 2017 nos deu. E concorda com Cabrita: "No processo de gestão dos incêndios florestais existem várias condicionantes que não dependem de nós, ou que, pelo menos, não se podem alterar por uma ação direta por parte das pessoas, como por exemplo as condições do clima e da meteorologia. O aquecimento global da atmosfera produz uma maior variabilidade nas condições meteorológicas. Em consequência disso temos maior probabilidade de registar temperaturas muito altas, como já estamos a verificar". Por sua vez, Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, dá hoje uma entrevista ao "i" (link não disponível) onde alerta : "Se não se respeitar o acordo de Paris passaremos a ser parecidos com o norte de África".

Isto leva-me ao artigo da revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA", de que o Expresso já deu notícia e que a minha homónima Cristina Peres aqui citou na quarta-feira. Nele se dá conta de um estudo segundo o qual, se não se trava rapidamente o aquecimento global, o planeta vai tornar-se numa estufa, com consequências devastadoras (de que o fim da Humanidade não é de excluir). Todos (a começar pelos responsáveis políticos) o devíamos ler, e com aquela atenção que o ritmo acelerado do scroll nem sempre proporciona. Acrescento este do The Guardian, já com algumas semanas, onde James Hansen, antigo cientista da NASA que há 30 anos alerta para o aquecimento global, critica o facto de o poder político estar a falhar "miseravelmente" no combate ao problema.

E pergunto ao primeiro-ministro e ao ministro da Administração Interna, e ao do Ambiente e ao da Economia e ao secretário de Estado da Energia: estamos mesmos a fazer tudo o que podemos? Por exemplo: numa altura em que a necessidade de arrepiar caminho já é inquestionável e em que se sabe que é preciso alterar comportamentos, faz sentido que Portugal continue a apostar nos combustíveis fósseis e autorize a prospeção para uma eventual exploração de petróleo?



OUTRAS NOTÍCIAS, CÁ DENTRO...


Nem de propósito, o Movimento Algarve Livre de Petróleo (MALP) organiza uma caminhada contra a exploração de petróleo no Algarve e contra o furo de petróleo de Aljezur. A partida é às 09h00, na praia de Vale de Lobo, e a chegada está prevista para as 11h00, na Praia do Gigi (Quinta do Lago), com a leitura de uma carta aberta ao Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa não estará lá (só deve chegar ao seu habitual toldo de férias durante o fim-de-semana), mas já prometeu uma audiência ao movimento para amanhã, às 17h00, na sede da junta de freguesia de Almancil.

António Costa admite pensões mais favoráveis para as carreiras mais longas. As palavras não estarão certamente deturpadas nem descontextualizadas: é a manchete (neste momento que escrevo) do site do Expresso, a antecipar a entrevista do primeiro-ministro que será publicada este sábado no semanário. Prometem-se declarações do chefe do Governo sobre as próximas legislativas, os incêndios, a situação na Saúde, o caso Robles e a Procuradora-Geral da República.

Diz o Público que o "Estado entregou a americanos a coleção de arte do Novo Banco". Escreve a Cristina Ferreira que "depois de aplicar 3,9 mil milhões de euros no Novo Banco e de abrir a porta a injectar outro tanto, o Estado deixou para o fundo de investimento norte-americano Lone Star 50 milhões de euros em moedas raras, fotografias contemporâneas, pintura, mapas portulanos e livros quinhentistas". Somos um povo generoso.

Se é dos que já lhe estava a sentir a falta (não é o meu caso, confesso), pode respirar fundo: o campeonato nacional de futebol está de volta. Às 20h30 recomeça a 1ª Liga, com um jogo entre o Benfica e o Vitória de Guimarães ou entre um eterno candidato ao título e uma equipa promissora, na antevisão de Tiago Teixeira que pode ler (se for assinante) na edição de ontem do Expresso Diário. O analista conta-lhe tudo sobre "os candidatos crónicos, as equipas a seguir com atenção e os jogadores que vão surpreender na Liga 2018/19". E como uma boa notícia nunca vem só, esteja atento ao sorteio para a primeira eliminatória da Taça de Portugal: é às 15h00.

O futebol a começar, o ciclismo a acabar: é já no domingo que termina a Volta a Portugal em Bicicleta. Hoje corre-se a 8ª etapa, 147,6 km entre Barcelos e Braga.


...E LÁ FORA


No Iémen, um ataque liderado pela coligação militar saudita a um autocarro escolar provocou a morte de 29 crianças e ferimentos em mais 30. O secretário-geral da ONU, António Guterres, já anunciou querer uma investigação ao sucedido.

Nos EUA vai saber-se se o juiz federal de Seattle Robert Lasnik, que a 31 de julho suspendeu a autorização da Administração Trump para a divulgação de manuais de instruções que permitem a qualquer um imprimir armas em 3D, mantém a opinião. O juiz volta a analisar o tema na sequência de uma providência cautelar apresentada por procuradores-gerais de vários Estados norte-americanos e da capital.

No Brasil, realizou-se esta noite o primeiro debate televisivo para as presidenciais de outubro. Oito dos 13 candidatos ao Planalto discutiram ideias. Pode rever o debate aqui.

Teve início às 4h da manhã, e prolonga-se por 24 horas, a greve dos pilotos da Ryanair na Irlanda, na Suécia, na Bélgica e também na Alemanha. Os portugueses que andam em viagem pela Europa por estes dias (não hão-de ser poucos!) levam naturalmente por tabela com as consequências (atrasos, adiamentos e cancelamentos de voos) de mais um protesto dos funcionários desta companhia de aviação low cost, que reivindicam melhoria de salários e condições de trabalho.

Termina hoje o prazo para a oposição zimbabueana apresentar recurso ao Tribunal Constitucional do país a contestar os resultados das eleições presidenciais de 30 de julho.


AS MANCHETES DOS JORNAIS E REVISTAS


"Mulheres do Norte puxam pela subida do emprego" (Jornal de Notícias)
"Estado entregou a americanos coleção de arte do Novo Banco" (Público)
"Guerra ao plástico" (i)
"Novas pistolas: Exército bate com a porta à NATO e pede novo concurso" (Diário de Notícias)
"CP paga táxis para levar passageiros" (Correio da Manhã)
"Portagens descem sem acordo com concessionárias" (Jornal de Negócios)
"Lista negra de devedores ao fisco representa 2% do PIB" (Jornal Económico)
"Sobe o pano" (A Bola)
"Sturaro é leão" (Record)
"Maresa tem de dar provas" (O Jogo)


O QUE ANDO A LER


Chegou-me às mãos na terça-feira. Ainda só li meia dúzia de páginas mas já deu para perceber que não descansarei antes de chegar ao fim, apesar de que "a história" é tudo menos fácil, ligeira ou "de verão". Chama-se "Le lambeau" (ainda não tem edição em português), palavra francesa com pelo menos três significados (como a editora faz questão de informar na contracapa, recorrendo ao Trésor de La Langue Française), o mais "poético" dos quais (para efeitos de título de um livro) será... "farrapo". O autor é Philippe Lançon, escritor e jornalista do Libération e do Charlie Hebdo, o semanário humorístico parisiense onde, a 7 de janeiro de 2015, os irmãos Kouachi entraram com espingardas, gritando "Alá é grande" e matando 12 pessoas. Lançon estava lá. Foi atingido no rosto (ficou sem mandíbula), esteve internado nove meses, sofreu 18 intervenções cirúrgicas. Deixou Paris, mudou-se para Roma e publicou em junho estas 500 páginas, que resultam numa espécie de relato, catarse ou mesmo exorcismo de alguém que, com legitimidade ímpar, foi verdadeiramente Charlie. Eu soube da obra (que já é um fenómeno editorial em França) ao ler, há algumas semanas, este artigo na revista semanal do El Pais. Como se retoma a vida de todos os dias depois de um acontecimento brutal assim? Não se retoma. Na entrevista ao diário madrileno (uma das poucas que deu desde o atentado), o jornalista francês explica(-se): "Regresso pouco a pouco, com distanciamento, a uma vida que já não é a mesma porque eu já não sou o mesmo".

A chegada do "Le lambeau" à minha mesa de cabeceira deixou em breve stand by as últimas páginas das memórias de Carmen Dolores, "Vozes dentro de mim". A atriz foi condecorada por Marcelo Rebelo de Sousa a 12 de julho com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, por ocasião do seu 94º aniversário, no mesmo dia em que estreava no Teatro da Trindade, em Lisboa, a peça "Carmen", baseada precisamente neste livro (publicado em maio de 2017). Voltar a ver Carmen Dolores (afastou-se dos palcos em 2005) recordou-me o belo texto de Tiago Rodrigues, "Três dedos abaixo do joelho", uma peça engenhosamente construída a partir de excertos de relatórios da Censura (entre 1933 e 1974) e dos pedidos em vão de diretores de companhias (e Carmen, à época diretora do Teatro Moderno de Lisboa, foi dos mais insistentes) para levarem a cena determinados autores mal-quistos do regime. Daí à vontade de mergulhar nestas memórias demorou apenas o tempo de adquirir o livro, que se lê num instante. São recordações avulsas de uma outra época (de um outro mundo), escritas "ao correr da pena", por alguém que se confessa apaixonada pela "sonoridade das palavras", paixão com que qualquer jornalista se identifica.

E o Curto, que para não variar já vai longo, fica por aqui. Neste 10 de agosto, há 73 anos, depois dos ataques nucleares dos EUA às cidades de Hiroshima (a 6 de agosto) e Nagasáqui (a 9), o Japão rendia-se incondicionalmente, pondo fim à II Guerra Mundial. Hoje também, se fosse vivo, Jorge Amado faria 106 anos. No seu livro "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, uma história de amor", há uma frase que lhe sugiro para o acompanhar na navegação pelos sítios que o mantêm bem informado: leve em linha de conta que todos "temos olhos de ver e olhos de não ver. Depende do estado do coração de cada um". Amanhã há Expresso nas bancas. Tenha um bom fim-de-semana.

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