Política

Diogo Feio: “Seria bom que houvesse um projeto único da direita”

alberto frias

Diogo Feio, diretor do Gabinete de Estudos do CDS

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

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Editora de Política da SIC

Alberto Frias

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Fotojornalista

O diretor do Gabinete de Estudos do CDS entende que, depois do resultado obtido em Lisboa (e que atribui sobretudo ao trabalho e empenho de Assunção Cristas), o partido tem a responsabilidade de tentar transpor o sucesso autárquico para o plano nacional. E sugere que o CDS se concentre em elaborar um programa político que possa integrar um “projeto de mudança” comum ao espaço de centro-direita. Se estamos a falar ou não de coligação com o PSD nas próximas legislativas... isso agora não interessa nada.

Escreveu no seu Facebook que não vê “melhor companhia” para o CDS do que o Presidente da República (PR). O PR está ‘sintonizado’ com o CDS?
São caminhos completamente distintos, mas não antagónicos. Os acontecimentos dos últimos tempos mostraram uma grande diferença entre um primeiro-ministro muito forte na arte politiqueira mas muito fraco na arte da gestão das políticas públicas e da defesa das pessoas, e um PR que é um homem de Estado. O que eu quis dizer é que entre a companhia de um ou de outro não tenho dúvidas de qual prefiro.

Não viu, como alguns, exorbitância de poderes por parte de Marcelo Rebelo de Sousa?
Se ler a Constituição com atenção verá que o PR tem poderes mais fortes do que tem sido a leitura do atual Presidente. Não concordo de todo com essa ideia, que vejo antes como uma tentativa (um bocadinho tosca) de encostar o PR à parede.

Mas a ministra da Administração Interna só saiu por causa da intervenção do PR.
É provável que tivesse continuado mais alguns dias, se não fosse o discurso do PR. Mas, acima disso, depois da moção de censura do CDS e do discurso do PR nada ficou como antes: é hoje evidente que temos um primeiro-ministro que cortou o seu elo com as pessoas. O primeiro-ministro está isolado e mesmo esta tentativa de postura humilde e de aceitação é algo que não cola com a personalidade política de António Costa. O elo quebrou-se de forma muito acentuada.

O que se nota mais também por contraste com Marcelo, que faz gala em acentuar esse elo.
O PR que é uma personalidade com uma grande legitimidade eleitoral, uma grande ligação às pessoas e tudo isso lhe dá uma enorme força. No primeiro discurso do seu mandato ele disse que seria tão mais forte quanto mais fraco fosse o Governo. É o que sucede neste momento.

Mas até este verão a direita queixava-se de que o PR amparava demasiado este Governo. É mesmo um novo ciclo?
Marcelo continua a ser o que sempre foi: uma figura próxima, mediática, que com grande facilidade expressa opinião sobre os mais diversos assuntos. No mandato presidencial assumiu a relevância da estabilidade governativa e estou convencido de que vai manter essa linha. Isso não leva a que fique inibido, em situações de gravidade extrema, de dar a sua opinião. E é uma opinião com muita força.

Mas é evidente que a direita, nomeadamente o PSD, tem estado mais frágil. Com esta atitude de exigência ao Governo o PR não está a dar força à oposição?
O PR tem dito que quer um Governo que governe e uma oposição que faça oposição. É obrigação de cada uma delas. O CDS tem cumprido essa obrigação e já com resultados palpáveis no plano eleitoral. É essa a linha que teremos de manter.

Com a moção de censura o CDS tomou a dianteira da oposição, tirando partido do vazio de poder no PSD. É estratégia para prosseguir?
O CDS tem de fazer o seu caminho pelo trabalho, pela diferença, pela proximidade às pessoas, independentemente do que os outros partidos estão a fazer. Claro que está inserido num grande espaço de centro-direita em Portugal, e era importante que nesse espaço existisse um projeto de mudança, estrutural e estruturante, alternativo à frente de esquerda entre PS/BE e PCP, que é um projeto conjuntural.

O CDS ambiciona ter no país os 21% que obteve em Lisboa?
Não vale a pena, a mais de um ano de eleições, estar a falar de números concretos. O que sabemos é que, na sequência das últimas legislativas e da solução de Governo que delas surgiu, o efeito do voto útil mitigou-se muito. E o resultado de Lisboa demonstrou que é possível ao CDS ter resultados com os quais nem os seus dirigentes mais otimistas/realistas (como eu) sonhavam.

Esse “projeto de mudança” à direita... estamos a falar de uma coligação pré-eleitoral?
A fórmula não é de todo o mais relevante neste momento. O CDS já esteve no Governo com o PSD com coligação e sem coligação. Falo de um programa virado para as pessoas que se sentem muito inseguras e desconfortáveis, um programa cujo ponto central seja o funcionamento do Estado, quer no plano da segurança e da soberania — onde tem havido falhas muito graves — quer dos serviços sociais.

Ou seja?
Proteção civil, educação, saúde. Não é possível que o IPO de Lisboa esteja com a sua atuação limitada pelo Ministério das Finanças — devido às cativações. A esquerda está a pôr em causa os serviços sociais mínimos e está a cair num discurso que é pura e simplesmente financeiro. As pessoas não precisam de matemática e estatística, precisam de esperança.

A ouvi-lo parece que o CDS não fez parte de um Governo que fez cortes imensos nos serviços públicos.
Assumo a discussão sobre o passado. Mas imagine o que teria sido fazer os cortes que nos eram impostos pela troika mas totalmente sobre os serviços, mantendo na íntegra a componente salarial da função pública? Foi não ter assumido essa opção que salvou os serviços públicos. Não ganhamos nada em ter na função pública pessoas competentes e muito bem pagas se não têm condições para exercer o seu trabalho.

Como se faz isso sem assumir a tal reforma do Estado que continua por fazer — e de que o CDS foi responsável direto no anterior Governo?
Esta situação está aquém da reforma do Estado, no sentido em que temos de ter uma ação de urgência sobre os nossos serviços sociais. Infelizmente é neste estado que um governo de esquerda nos deixa. E se o centro-direita não compreende isso está a cometer um erro grave. É este o tal projeto de mudança que o nosso país vai necessitar: o discurso político tem de ser centrado totalmente nos que têm estas necessidades e têm dificuldade em fazer chegar a sua voz a algum lado.

O Governo tem estado a governar sobretudo para a função pública?
O Governo tem estado a governar muito para a função pública, muito pouco para a generalidade das pessoas, muito a pensar na necessidade de se ir mantendo à tona de água. Pede-se-lhe muito mais do que isso.

E as preocupações do PSD poderão ir ao encontro das do CDS?
Aguardemos. Seria bom que houvesse um projeto único, ou o mais único possível, em Portugal. Quanto mais comuns forem as ideias, mais forte será a alternativa.

Qual dos dois candidatos, Rio ou Santana, seria o melhor para o CDS?
É um debate que acompanho mas não comento. Também não gostaria de ouvir um dirigente do PSD a dizer qual seria o melhor líder para o CDS.

A PENSAR EM 2019

Perguntado se acha que a legislatura chegará 
ao seu termo ordinário, o antigo eurodeputado e atual diretor 
do Gabinete de Estudos diz não encontrar razões para que assim não aconteça. Para o CDS — Diogo Feio não o afirma, mas subentende-se —, até é melhor assim: dá-lhe tempo para se preparar para replicar em legislativas o sucesso obtido nas últimas autárquicas. Afinal, 
se o CDS conseguiu, num feito inédito, 
ter mais votos do que 
o PSD em Lisboa e retirar a maioria absoluta ao PS, isso deve-se sobretudo 
ao facto de “estar há mais de um ano a trabalhar nestas autárquicas, ainda que com pouco acompanhamento mediático”. Essa é, defende, a fórmula 
a seguir para 2019. 
Uma “campanha diferente do que estamos habituados 
na política, com grande ligação às pessoas” 
e da qual resulte 
um programa político com “ideias distintas das que vemos hoje na governação e que possam contribuir 
para o tal projeto 
de mudança à direita, independentemente 
da forma eleitoral 
que este projeto 
venha a ter”.