Política

A relação com Costa, Montepio, diferenças pessoais, passado e... passado: 5 polémicas para o que sobra da campanha no PSD

ilustração marco grieco e tiago pereira santos

A poucos dias das eleições no PSD, a luta aquece. O fim de semana foi de alta tensão, com trocas de acusações que prometem animar a reta final da campanha interna. Da herança de Santana na Santa Casa à hipótese de Rio dar a mão a um governo PS, eis os cinco temas que escaldam no PSD

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Marco Grieco

Marco Grieco

Diretor de Arte

Foi um fim de semana da alta tensão no PSD, talvez pela proximidade das diretas de dia 13. Rui Rio carregou nas críticas a Santana Lopes por causa da eventual entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do Montepio; Santana não deixou passar em claro a entrevista em que Rio admite vir a dar a mão a António Costa depois das legislativas de 2019.

Com dois debates e algumas entrevistas agendados para os últimos dias de campanha (a SIC entrevista esta segunda-feira Rio e Santana terça-feira), estes são os temas que vão animando a troca de acusações entre os candidatos na contagem decrescente para a sucessão de Pedro Passos Coelho. Porém, escusa de procurar: nenhum dos assuntos tem a ver com ideias para o país.

Relação com o PS

Foto Mário Cruz / Lusa

“Combinaste com o António Costa?”, disparou Santana Lopes no debate da semana passada, insistindo na ideia de que o seu adversário e o atual primeiro-ministro são “Dupont e Dupond”. Se no frente a frente da RTP a maior ou menor proximidade de cada candidato em relação a António Costa foi um dos motivos de maior fricção, Rui Rio veio esta segunda-feira deitar lenha para essa fogueira.

Em entrevista ao Público e à Rádio Renascença, o ex-autarca do Porto admitiu que, se for líder do PSD e se o PS vencer as legislativas do ano que vem com maioria relativa, poderá fazer um acordo com os socialistas no Parlamento. “Aquilo que me parece mais razoável é nós estarmos dispostos para, a nível parlamentar, suportar um Governo minoritário, seja ele qual for, neste caso o do PS. Que é aquilo que o PS deveria ter feito, suportar de forma crítica naturalmente, mas deixar passar e governar o partido mais votado.”

Santana já veio criticar a ideia do “PPD-PSD substituir o BE ou o PCP no apoio ao governo do PS”. Falando em Braga, onde tinha a seu lado o presidente da câmara local (Ricardo Rio, um dos principais autarcas do PSD), Santana lembrou que “o PS fez a sua opção” por uma maioria de esquerda, e considerou que ao disponibilizar-se já para fazer uma maioria com Costa, Rio faz “uma confissão antecipada de falta de confiança nas capacidades do partido”.

Nem de propósito, mesmo antes da entrevista do Público chegar às bancas, Santana fez questão de vincar a posição contrária à de Rio, caso volte a dirigir o PSD. “Eu não farei acordos de Governo com o Partido Socialista. Nem antes nem depois das eleições", jurou durante um jantar em Viana do Castelo, perante mais de 400 militantes. “Eu quero que saibam que no sábado, dia 13 de Janeiro, quando formos votar, todos temos de estar bem cientes desta diferença”, enfatizou, explicando que a sua posição não se deve a qualquer “embirração pessoal”: “Se os dois partidos principais vão para o Governo, quem é que fica de fora? Os extremos do sistema”.
Não é preciso ser bruxo para adivinhar que a predisposição de Rio para dar a mão a um segundo governo Costa irá ser explorada até à exaustão por Santana até sábado.

Santa Casa no Montepio

Foto Mário Cruz / Lusa

Com a polémica a crescer sobre a eventual entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) no capital do Montepio Geral, Rui Rio veio este fim de semana exigir a Santana Lopes que explique essa história “tintim por tintim”. Porquê Santana, se este não fez acordo nenhum quando dirigia a Santa Casa? Porque o ministro da Segurança Social, José Vieira da Silva, deu uma entrevista contando que foi do ex-provedor a ideia da SCML poder tomar uma posição no sector financeiro.

“A ideia de que a Santa Casa podia ter um papel [no sector financeiro] é uma ideia avançada pelo dr. Santana Lopes”, disse o governante, em entrevista à Antena 1. Uma iniciativa tomada “há quase dois anos, numa altura que se vivia o momento mais difícil” na banca, precisou Vieira da Silva. Porém, o ministro acrescentou que não foi de Santana a ideia de considerar, para esse eventual investimento, o Montepio Geral. “A colocação do Montepio nesse leque de hipóteses foi colocada pelo Governo, não pelo dr. Santana Lopes.” Conforme o Expresso já noticiou, foi o próprio Vieira da Silva quem sugeriu ao então provedor que considerasse a compra de uma participação no capital do Montepio Geral.

“Não faço ataques pessoais, mas peço explicações ‘tintim por tintim’ daquilo que aconteceu”, reagiu Rui Rio, durante um discurso numa sessão com militantes em Viseu. “Em plena crise bancária, o então provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa [Santana Lopes] escreveu ao Governo disponibilizando-se para pôr dinheiro da Santa Casa da Misericórdia nos bancos para ajudar a limpar as imparidades”, resumiu Rio, considerando que essa opção “é algo que vos digo com sinceridade que não posso concordar”. E ficou o desafio ao seu oponente: “em vez de procurar denegrir o adversário”, que explique o que fez na Misericórdia.

Santana já respondeu que “a Santa Casa não tomou decisão nenhuma”, pois limitou-se a esperar por “resultados de auditorias” que foram pedidas ainda no tempo em que era ele o provedor. “Várias hipóteses foram colocadas em cima da mesa, a decisão foi ‘não’”, disse Santana aos jornalistas, explicando que foram ponderadas “participações estratégias”, mas nenhuma foi concretizada no seu tempo. Mas o assunto não morrerá assim tão facilmente.

As diferenças pessoais

Foto Mário Cruz / Lusa

Dizem eles que as diferenças de feitio, de caráter e de percurso são aquilo que realmente distingue os dois candidatos à liderança do PSD. Sobre o percurso de ambos falaremos nos pontos seguintes, para já ficam as diferenças pessoais, que têm motivado alguns dos ataques mais duros desta campanha. Tudo indica que a procissão ainda vá no adro.Na entrevista que deu ao Expresso

no sábado passado, Santana Lopes considerou que o seu adversário tem “uma visão limitada e paroquial” do mundo e da política. Rio, que já o considerou “instável” e que está sempre a falar da breve experiência de Santana como primeiro-ministro, tem acusado Santana de, nesta campanha, recorrer a “truques” e “baixar o nível” porque “precisava daquele espetáculo”. “Se eu também baixasse o nível, só prejudicaria o partido”, disse ao Sol.

“Bem prega Frei Tomás, ouve o que ele diz, não faças o que ele faz, a propósito de manter a elevação”, respondeu Santana. “Eu compreendo agora algum desespero de quem sente o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, mas são os militantes que estão a distinguir quem é que tem caminho para o presente e o futuro e quem é que amargo, azedo, que vive mal disposto com toda a gente.”

Com Rio a apontar o dedo ao “instável” Pedro, e Santana a acusar o “mal disposto” Rui, o assunto ainda vai dar pano para mangas.

Sei o que fizeste em 2004…

Foto Manuel de Almeida / Lusa

Foi a polémica que dominou a primeira parte do debate da RTP, na quinta-feira: o meteórico governo de Santana Lopes e suas “trapalhadas”, que Rui Rio veio relembrar. Santana aproveitou o tema para contra-atacar, exigindo ao seu adversário que enumerasse que “trapalhadas” eram essas, o que deixou Rio sem resposta. E, pelos vistos, Santana ainda não esgotou o filão.

Neste sábado, na convenção nacional da sua candidatura, recorreu à ironia e pediu desculpa pelas trapalhadas de há mais de uma década. “Àqueles que dizem que não tirei lições de 2004, eu respondo: peço desculpa por uma careta de um ministro numa tomada de posse. Ou por uma secretária de Estado não ter ficado numa secretaria e ter ficado noutra. Peço desculpa por me ter sentido indisposto na tomada de posse, por ter feito um discurso a falar de uma incubadora, eu peço desculpa. Mas não peço desculpa por erros de política interna e externa, por isso não peço desculpa. Estava a cumprir o meu dever.”

Rio ainda não voltou ao tema, mas é inevitável que o tema volte a Rio.

...e sei o que fizeste durante o passismo

Foto Manuel de Almeida / Lusa

Outro foco de polémica durante o primeiro debate, que Santana Lopes dá sinal de não querer deixar cair do seu discurso: o comportamento de Rui Rio, e de alguns dos seus apoiantes (como Pacheco Pereira), em relação ao governo de Passos Coelho durante os anos da troika.

O ex-autarca de Lisboa voltou a remexer na ferida este fim de semana. “O que querem no próximo dia 13? Querem que regressem à direção do partido ou venham para a direção do partido aqueles que durante estes anos do Governo de Pedro Passos Coelho constantemente, o criticaram, que andaram de braço dado com os nossos adversários?”

Porém, se Santana se apresenta agora como o defensor oficial da herança do passismo, Rio também tem trunfos. Basta lembrar - como fez o ex-autarca do Porto - que já Passos era líder do PSD e Santana falava em criar um movimento que poderia dar origem a um novo partido…

Faltam cinco dias para as eleições e há recortes de jornais que ainda não saíram da gaveta dos candidatos.

  • Rio: “Santana deve um pedido de desculpas a mim e aos militantes”

    Em entrevista à SIC, o candidato à liderança do PSD diz não estar “desesperado” até porque tem “indicações” de que vai “claramente à frente”, e acusa o atual Governo de não ter um plano a longo prazo e uma “política pública amiga do investimento”. Também esclareceu as suas declarações ao “Público” e à Renascença sobre o apoio a um Governo minoritário do PS. “O título da entrevista induz em erro”