Política

Diz um: “O vento mudou e ele voltou”. Diz o outro: “Contigo temos de pôr tradução simultânea”. Foi isto

Ao segundo debate, Rui Rio e Santana Lopes voltaram a trocar muitas acusações sobre o passado e a divergir sobre o futuro: o primeiro defende que o PSD se aproxime de António Costa para afastar o BE e o PCP do poder, o segundo diz que não há acordo possível com este PS. Rio recusou comentar a polémica sobre a PGR; Santana garantiu que reconduziria Joana Marques Vidal. Rio desta vez levou recortes. “O Rui passou a gostar dos tais truques”, ironizou o adversário

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política


Pedro Santana Lopes e Rui Rio continuam a não se entender sobre o passado - e a trocar acusações violentas sobre o que o outro disse, fez ou pensou -, mas no debate desta quarta-feira, na TVI, ficou ainda mais claro que não se entendem sobre o futuro. Em concreto, sobre o que fazer se o PS vencer as eleições de 2019 com maioria relativa. Têm os dois o mesmo pressuposto - concorrem para ganhar -, mas deixam de falar a mesma língua quando a questão é uma eventual vitória de António Costa.

Para Rui Rio, não há dúvidas: se Costa vencer com maioria relativa o melhor é o PSD dar-lhe a mão, para afastar BE e PCP da “órbita do poder”. “O PSD tem de ser coerente com ataques que faz hoje a António Costa porque não deixa Passos Coelho ser primeiro-ministro, apesar da coligação ter sido a mais votada”, diz Rio, defendendo que o PSD deve fazer ao PS aquilo que gostaria que o PS tivesse feito em 2015 - viabilizar no Parlamento um governo minoritário, tal como quando António Guterres e José Sócrates venceram eleições sem maioria absoluta. “Eu honro este passado porque acho que este passado está correto”, insistiu Rio, acrescentando outra vantagem: “Se o PS estiver em minoria, prefiro deixar passar o PS de modo estar amarrado à Assembleia da República como um todo, e não apenas à esquerda. Eu quero afastar a esquerda do poder.”

Santana Lopes não podia estar mais em desacordo. “Foi rompida a prática constitucional portuguesa, de que o partido que vence eleições governa”, e por isso Costa não pode esperar do PSD aquilo que negou a Passos Coelho. “António Costa não pode enganar o PPD-PSD”, protestou Santana, considerando que “o PPD-PSD não pode sequer conversar sobre essa hipótese” enquanto o PS não “voltar a provar que está de acordo com esta prática constitucional” de que “o partido que ganha as eleições governa”.

Rio respondeu que Santana está a “fulanizar” o problema, passando ao lado do “interesse nacional”, que impõe “evitar que BE e PCP continuem na esfera do poder”. E acusou Santana de, com a sua intransigência, estar a “dizer para votar útil no PS, porque a única forma de afastar PCP e BE da esfera do poder, com essa tua política é dar a maioria absoluta ao PS”.

Santana aproveitou a deixa para voltar a uma acusação recorrente: “Rui, o teu problema é falta de confiança nas possibilidades próprias” do PSD. E espetou mais a faca: “Vinhas para estas diretas para derrotar Pedro Passos Coelho na liderança, eu vim para derrotar António Costa”.

“O Rui passou a gostar dos tais truques”

Foi, como já havia acontecido na RTP, um debate quezilento e com muitas trocas de acusações. E, desta vez, com caras de poucos amigos desde o início. Mas, ao contrário do primeiro frente a frente, neste Rui Rio surgiu municiado de recortes de jornais para atirar a Santana o que este disse ou fez no passado. “O Rui passou a gostar dos tais truques”, ironizou, numa referência à queixa de Rio depois de no primeiro debate ter sido surpreendido pelo serviço de clipping de Santana Lopes.

O dossiê de imprensa de Rio tinha um objetivo bem definido - responder às duas principais acusações que Santana lhe tem atirado: que terá sido desleal em relação a Passos Coelho enquanto este era primeiro-ministro, e que será um “gémeo siamês” de António Costa. Em ambos os casos Rio mostrou recortes de imprensa que lhe permitiram devolver a Santana as mesmas acusações de que tem sido alvo.

“Santana arrasa Passos mas adia saída do PSD”, “Santana em colisão com Passos, PSD desvaloriza”, “Santana defende que Passos deve pedir desculpa”, “Santana revoltado com PSD” - os títulos, publicados entre 2010 e 2015, foram sendo desfiados por Rio para provar que quem foi desleal ao líder cessante foi o seu adversário. “Eu fui sempre leal a todos os líderes do partido”, assegurou Rio.

“Durante estes 4 anos eu estive de facto do lado dele [Passos]”, retorquiu Santana. Que não perdeu a oportunidade de desmentir o seu oponente questionando, outra vez, a sua atitude em relação ao curto governo liderado por Santana Lopes em 2004/5. Foi mais ou menos uma reprise da discussão da semana passada, para Santana frisar que Rio muda de discurso conforme a conveniência.

“O vento mudou e ele voltou, é ao contrário da canção”

Rio tinha para a troca. Aproveitou o vídeo de 2014 (ressuscitado esta semana) em que Santana reconhecia que não conseguirá voltar a ser eleito primeiro-ministro “nem que o vento mude dez vezes” para apontar a contradição com o discurso que tem agora. “O vento mudou e ele voltou, é ao contrário da canção”. Conclusão de Rio: “Entre nós os dois, face ao passado do Pedro e ao meu passado, ele terá muita dificuldade em convencer o povo português de que uma segunda oportunidade [no governo] será muito diferente da primeira oportunidade”.

Santana, que também levou recortes, leu uma longa citação de Rio em 2005, em que este frisava a “injustiça” de avaliar alguém após apenas cinco meses de governo. “Portanto, tu passas a vida a dizer o contrário daquilo que pensas. É uma maçada isso”, disparou o ex-primeiro-ministro. “Isso passa-se relativamente a ti”, devolveu Rio... A cena repetiu-se várias vezes.

Foi mais ou menos isto durante boa parte do tempo. Ataques e contra-ataques, uns de caras, outros de cernelha. “Eu não estou a atacar, não sejas sensível”; “nós não podemos ser vidrinhos”...

Rio deu a deixa para a queda da PGR?

Rio também levou jornais antigos para provar que quem está próximo de Costa não é ele, mas Santana. “Não há nenhum sítio onde eu diga que ‘António Costa é o político mais hábil a manejar o poder desde o 25 de abril’”, frisou, passando depois a outro título: “Santana elogia o Governo e Costa elogia Santa Casa da Misericórdia”. Estava vincado o ponto do ex-autarca do Porto: “As ligações que tu tens relativamente a António Costa são, para o bem ou para o mal, mais estreitas do que aquilo que possam ser as minhas.”

Nada que demovesse Santana da acusação de excessiva proximidade entre Rio e Costa. Deixou cair várias frases sobre bloco central, encostando o adversário a esse projeto, mas a grande aposta de Santana, neste tema, era a nova polémica sobre a recondução ou não de Joana Marques Vidal como procuradora-geral da República (PGR). Para o ex-provedor da Misericórdia, há uma ligação entre a decisão pré-anunciada pelo governo de afastar a PGR e as críticas que Rio fez, no primeiro debate, ao desempenho de Joana Marques Vidal. “Veja como na semana seguinte [isso] é imediatamente aproveitado para por em causa o trabalho da PGR”, realçou Santana Lopes, voltando a usar para Rio e Costa a metáfora de Dupont e Dupond.

Questionados diretamente sobre a recondução da atual procuradora-geral, Rio recusou pronunciar-se sobre a questão (“Eu não devo alimentar isto dizendo que sim nem dizendo que não”) e Santana, pelo contrário, foi claro na defesa da sua continuidade. “Se hoje tivesse de tomar uma decisão como líder da oposição, diria que é adequado renovar o mandato da PGR”. E ambos concordaram com Marcelo Rebelo de Sousa de que este não é o momento de levantar a questão.

“Até sou maçador”

E foi isto. Houve mais, mas no mais que houve, estiveram ambos genericamente de acordo, em traços gerais, sobre generalidades. Santana e Rio concordam que o PS pode perder as eleições em 2019, que a governação está a passar ao lado que questões estruturais e não está a “acautelar o que é importante”, e que é preciso crescimento da economia. Mas mesmo quando estavam de acordo, apareciam pedrinhas na engrenagem, como saber qual dos dois há mais tempo defende que o crescimento da economia é uma coisa importante, ou quem falou primeiro sobre isso durante esta campanha...

Santana, que parecia apostado em encontrar incoerências ou contradições ao virar de cada esquina do discurso de Rio, ia pontuando as frases do adversário com coimentários como “Outra coisa que disseste e não é bem isto”, “este governo é como tu, tem sempre um plano B, é sempre a segunda versão”, “passamos a vida contigo a ter de por tradução simultânea - ele disse isto mas não era isso que queria dizer”. Rio, tentando manter-se na mensagem, garantiu, em sua defesa, que anda “sempre a dizer a mesma coisa”. “Até sou maçador.”

Esta quinta-feira de manhã há outro debate. será o último. Desta vez, na rádio. É provável que os dois candidatos digam outra vez as mesmas coisas. É até possível que sejam maçadores.