Política

O candidato que chegou numa noite de nevoeiro

Na estrada. Habituado a corridas de fundo na política, Rui Rio, que foi velocista, continua a correr no Porto para se manter em forma. Em plena maratona de campanha, pouco conduz o seu velho Sinca. As fotografias com apoiantes fazem parte do ritual de qualquer sessão de campanha, onde não faltam formulários de adesão ao PSD, que o próprio Rio assina como proponente, e lembretes para que os militantes atualizem as quotas

josé carlos carvalho

O Expresso acompanhou durante dois dias a campanha de Rui Rio à liderança do PSD. Que pode ser a sua última corrida política. “E, se for, não há problema”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Há um nevoeiro que se adensa conforme Rui Rio se aproxima do seu destino. É dia da Imaculada Conceição e o candidato à liderança do PSD está atrasado para um almoço com apoiantes. O nevoeiro a caminho de Barcelos não contribui para a pontualidade, mas até compõe o ambiente, estando em causa o homem por cuja candidatura algum PSD esperou durante anos. Nesse dia, já noite cerrada, em Braga, com idênticas condições climáticas, um dirigente da JSD local não resiste a fazer a piada óbvia: “Veio numa noite de nevoeiro, portanto também pode ser o nosso D. Sebastião...”. A julgar pelo sorriso amarelo do visado, não terá sido o elogio que Rio mais gostou de ouvir neste dia. E ouviu muitos, tanto nessa sessão com jovens, como num café de Fafe onde conversou com militantes, ou no tal almoço de Barcelos — os três eventos que o Expresso testemunhou enquanto seguiu o candidato, na sexta-feira, 8, e no dia seguinte.

Em Barcelos, conforme Rio atravessava a sala por entre mais de 250 apoiantes, um homem travou-lhe a marcha e exibiu um velho cartão do PSD. João Silva e Rui Rio entraram no partido pela mesma razão: Sá Carneiro. “Chorei muito quando ele morreu. Achei que ele era o salvador de Portugal”, conta João Silva ao Expresso. No partido onde Sá Carneiro é pai fundador e santo padroeiro, Rio não deixa para Santana Lopes o exclusivo da herança ou do culto. Perante as gentes de Barcelos, repetiu que Sá Carneiro foi “a razão principal” para aderir ao “PPD”. João Silva não foi ao ponto de rotular Rio como “salvador de Portugal”, mas não escondeu que é o que encontra de mais parecido.

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Não foi o único. Nesta jornada, houve quem elevasse Rio às alturas de Sá Carneiro e quem o comparasse com Cavaco Silva. Louvaram-lhe a seriedade, a credibilidade, a honestidade. Engrandeceram-lhe o rigor e a transparência. Elogiaram-no por ter contra si o aparelho partidário e por “ter a máquina [partidária] do seu lado”. Foi bendito por ser “um candidato de peito aberto à sociedade”. Exaltaram-lhe “os valores”. Declararam-no “um exemplo para todos nós”. Rio anuiu sempre. Estas campanhas costumam ter fartura de encómios aos candidatos. Também foi assim com Santana, quando o Expresso o acompanhou. Mas é mais surpreendente constatar esta ego trip à volta de Rio. E o próprio alimenta a mitologia. De homem decidido, que pode quebrar mas não torce, que não é compreendido pelos media, que não cede a modas.

“Eu nem sequer 
vivo lá em baixo”

As sessões da campanha de Rio costumam ter duas partes, primeiro o candidato a explicar ao que vem, durante 45 a 60 minutos, depois a responder a perguntas, coisa para mais uma ou duas horas. Em Barcelos, sendo um almoço, não houve perguntas e o discurso encolheu para meia hora. Resumida ao essencial, a mensagem de Rio centrou-se em “cinco linhas de força”: 1) competitividade da economia (“A base de tudo começa na economia”); 2) as “reformas estruturais que não tem havido por parte dos partidos políticos, coragem, vontade e capacidade de fazer”; 3) coesão social; 4) reforma do regime e da democracia; 5) a “mudança no PSD”.

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Rio nunca referiu o adversário. Não atacou o Governo. Focou-se no seu guião e em si próprio — a sua biografia, experiência e maneira de ser. Quando fala do posicionamento do PSD, invoca a sua adesão a um projeto “verdadeiramente social-democrata, que não é de esquerda nem de direita”. Quando propõe mudanças no PSD, acrescenta que “se eu ganhar, só a minha maneira de ser vai mudar muita coisa”. Ao falar da necessidade de acordos para reformas estruturais, garante que essa é “uma questão que me divide da maioria das pessoas que têm andado na política nos últimos anos”. Quando discorre sobre coesão territorial e defende que “o Interior seja chocantemente discriminado pela positiva”, pergunta à audiência se está preparada para isso, porque “na conversa está tudo de acordo, mas na hora de fazer, eu aperto e tudo chia. Já assisti a muita chiadeira dessa”. Como um seu antecessor, diz-se pronto a combater as “forças de bloqueio”.

Rio vê-se como um político diferente e puxa por essa singularidade. Num café de Fafe, um militante confessa-se indeciso entre Rio e Santana e aponta-lhe como handicaps não ser de Lisboa e ter uma relação conflituosa com os media. Ele concorda que ambas “são verdade”, mas não handicaps. “O facto de eu não ter qualquer compromisso com os corredores do poder, que emana de fora, é uma vantagem ou uma desvantagem para o PSD e para o país?” Para Rio a resposta é óbvia. “Eu nem sequer vivo lá em baixo. Esta é uma candidatura sem amarras ao poder.”

“Então não vote em mim”

Há várias mesas juntas no Bar da Praça, no centro de Fafe, para fazer uma grande mesa, com 14 lugares à volta. Rio, num topo, vai dando respostas à plateia restrita, umas 30 pessoas entre sentados e em pé. Quem ali está foi convidado, mas é uma troca de ideias livre. O tal militante indeciso, professor de profissão, prevê que “o nosso partido vai ter muita dificuldade em ganhar as eleições, ou então vai ter de mentir…”

“Então, não vote em mim”, interrompe-o Rio. “O senhor não se pode dar ao luxo de dizer que não vai dar nada a ninguém”, responde o homem, considerando que o próximo líder do PSD vai precisar de fazer “um trapezismo que não é para qualquer um”. “Há especialistas nisso...”, ironiza Rio. O interlocutor não se ri: lembra-se de Manuela Ferreira Leite, que “dizia a verdade”, “tinha razão”, e perdeu por muitos. Rio também não sai da sua. “Ganhe ou perca, eu é de pé. A minha vida tem sido sempre de pé. Isso não tenha dúvida nenhuma. Nenhuma! Mas nenhuma mesmo. Não vergo!”

josé carlos carvalho

Nas ações de campanha de Rio há sempre formulários de filiação no PSD. No almoço de Barcelos foram 26 novos militantes. Mais à noite, na sessão com jovens. No total, Rio já terá angariado mais de cem novos militantes, diz a candidatura. “Somos um rio que não vai parar...”, ouve-se no final de cada iniciativa. Não é qualquer um que tem um hino personalizado (gravado há 30 anos). O hino dos tempos gloriosos de Cavaco, com poema de Dias Loureiro, sobre um rio com minúscula, serve como uma luva ao Rio com letra grande.

No mês que falta até às eleições, este Rio não vai parar. Aos 60 anos, três meses de campanha é o equivalente a uma maratona. “Meia-maratona”, corrige o próprio. “Pode ser que depois seja a maratona completa”, diz ao Expresso, antecipando a candidatura a primeiro-ministro. Na juventude, foi atleta federado. Era velocista, a equipa do CDUP que integrava chegou a deter o recorde regional dos 4x100m juniores. Mudou com a idade — na política, aposta em longas distâncias; nas corridas, já não arrisca arrancadas. Mas, desde que não chova, corre pelo menos meia hora por semana.

Sábado, 9, amanhece a ameaçar chuva no Porto. Nesse dia, Rio só tem uma ação de campanha, à noite, em Setúbal. Vai correr na pista da Universidade do Porto, a uns dois quilómetros de sua casa. É a pista onde corria na juventude. Ao lado são os famosos terrenos da Selminho. A chuva acaba por chegar e Rio volta para casa no Simca bordeaux que comprou há anos em segunda mão, fazendo jus à sua fama de forreta, e que se tornou uma antiguidade.

Durante a campanha, são poucas as oportunidades para Rio correr ou conduzir. É candidato a tempo inteiro. O trabalho de consultor nas empresas de recursos humanos Boyden e Neves de Almeida está praticamente suspenso, embora não tenha precisado de férias ou licença. Se vencer em janeiro, a experiência de head hunter será útil para formar equipa no PSD. Apesar da queda para desportos individuais (atletismo, corridas de minimodelos, bilhar), garante que não tem “dificuldade nenhuma em jogar em equipa”. “Pelo contrário, tenho tendência a delegar muito. Tenho mais o perfil de coordenar a equipa e tomar decisões ao nível da estratégia. É o contrário do que escrevem e falam. Falam sem conhecimento de causa. Mas isso é o normal...”, dispara, enquanto conversa com o Expresso em viagem na A1.

josé carlos carvalho

Conhece de cor a autoestrada que liga o Porto a Lisboa, mas quem conduz é António Malo de Abreu, médico dentista e um dos diretores da rede Malo Clinic. São amigos há quase 40 anos, desde que militavam na JSD e eram dirigentes associativos. Em 1980, Malo foi o primeiro não-comunista a conquistar a Associação Académica de Coimbra depois do 25 de Abril; quase em simultâneo, Rio conseguiu o mesmo feito na Faculdade de Economia do Porto. Chegaram a vice-presidentes da JSD, então dirigida por Pedro Pinto. A amizade ficou. Ao ponto de Malo se voluntariar para conduzir Rui nesta campanha.

A caravana da candidatura tem mais três viaturas e entre oito a quinze pessoas, para fotografia, vídeo, redes sociais, recolha de assinaturas e toda a logística de palanques e cenários que se montam e desmontam quase na hora. A caminho de Setúbal, Rio encontra parte do staff na estação de serviço de Pombal, onde param para tomar café.

josé carlos carvalho

Se vencer, Rio fará muitas vezes a A1, pois não tenciona mudar-se para a capital. “Obviamente que gosto mais de viver no Porto. Quando muito, podia equacionar Viana do Castelo como alternativa.” Planeia “repartir” a vida entre Lisboa e Porto, sendo certo que “é preciso estar em Lisboa para ser líder do PSD”.

Se perder, é provável que não protagonize outra campanha. “Pode, pode ser a última [eleição]”, admite. “E se for não há problema. Porque não me movo por ambição ou vaidade, mas por um conjunto de circunstâncias que neste momento estão reunidas” — disponibilidade, convicção e apoios. Se perder, isto acaba assim? “E qual é o problema? Não tem problema nenhum. Nem vou a esta pensado que pode ser a última [eleição] nem é isso que me motiva, ao contrário do que pensam e escrevem. Não me entendem mesmo. Com certeza que uma pessoa quando se mete numa coisa é para ganhar, mas não fico a pensar que se perder esta é a última oportunidade. Não andei à procura disto e se não acontecesse eu não morria de desgosto.”

Artigo publicado no EXPRESSO na edição de 16 de dezembro de 2017