Política

Quando Santana fez 170 km para ganhar um voto

Na estrada. A foto de Santana com Dina Seno, para mais tarde recordar. O voto da única militante de Mértola é garantido, como será o dos militantes que o têm ouvido nas muitas sessões de esclarecimento que tem feito pelo país

tiago miranda

Em campanha entre o Algarve e Lisboa, Santana fez um desvio para falar com a única militante do PSD em Mértola. O Expresso fez-se à estrada com o candidato a líder dos sociais-democratas

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

De Loulé a Mértola são mais de 120 quilómetros. De Mértola até à A2, por Castro Verde, são outros 50. Por junto, foi um desvio de mais de 170 quilómetros o que Pedro Santana Lopes fez no sábado, 25 de novembro, para ir falar com Miraldina Seno (“Dina”, como se apresenta). Só não foi campanha ao domicílio porque o encontro aconteceu na Pastelaria Ninho Doce. Mas foi tão personalizado quanto é possível. Dina não domina um sindicato de voto, nem arrasta outros sociais-democratas, pelo simples facto de que em Mértola, onde vive, é a única militante do PSD. Mas Santana fez questão de lá ir. Para a conhecer, para sinalizar a atenção ao partido profundo e para frisar que esta eleição, por muito que dependa de caciques e do aparelho, se decide voto a voto.

Aos 61 anos, com quatro décadas de militância no “PPD-PSD”, que já liderou e pelo qual foi deputado, eurodeputado, secretário de Estado, presidente de Câmara e primeiro-ministro, Santana está a dar “tudo por tudo” numa campanha diferente. “A grande diferença é que tenho muito mais apoio. Sinto uma onda que nunca senti. O resultado vai ser diferente”, diz ao Expresso, enquanto serpenteamos pelo IC27, com o Alentejo a escurecer. O ex-primeiro-ministro vai sempre no banco da frente do Mercedes, ao lado do motorista. Conforme passam quilómetros (já são mais de 24 mil à conta desta disputa) e se desenrola a conversa, Santana aponta outra diferença desta campanha. “Está a dar muito mais trabalho. Porque eu quero. Quero ir a todo o lado. Acho que dou sempre tudo, mas desta vez, ainda estou a dar mais... Quero mesmo garantir...” — interrompe o discurso e o raciocínio para espreitar outra vez o telemóvel, que lhe ilumina o rosto na escuridão que já se abateu. “Tenho de telefonar a um presidente de Câmara que é uma figura importante...”, murmura.

O seu telemóvel é um dos dínamos desta campanha, apesar da máquina que o rodeia. Nos dois dias em que o Expresso o acompanhou, entre a tarde de sexta-feira e a noite de sábado, a sua comitiva juntava quatro viaturas: a do candidato, mais três automóveis onde seguiam o diretor de campanha e gente para o assessorar, fotografar, filmar, pôr essas fotos e filmes e textos nas redes sociais, recolher assinaturas, distribuir folhetos, montar o palanque e preparar o cenário, com telas onde se lê “Unir o partido, ganhar o país”. No jantar de sexta-feira, no hotel de Évora onde houve a seguir uma sessão de esclarecimento, a mesa do staff do candidato reunia 12 pessoas — a maioria, explicam, militantes, voluntários, muitos da JSD.

A reunião realizada em Évora

A reunião realizada em Évora

tiago miranda

O mesmo acontece na sede de candidatura, num edifício Prémio Valmor na Avenida da República. No call center e na gestão das redes sociais há muitos jovens. Mas também há santanistas de sempre e aparelho que acompanhava Passos. E há a sombra de outro antigo líder — Sá Carneiro está presente, em busto, no hall. O apartamento transformado em sede tem uma dúzia de assoalhadas ligadas por um longo corredor com fotos gigantes do candidato. Este passa, com ar atarefado. De telemóvel em punho.

“Fala Pedro Santana Lopes”

“É uma loucura, não imagina”, conta Santana, conforme nos aproximamos de Mértola. “Faço as chamadas mais inacreditáveis. Dão-me números e eu ligo, ‘É a Dona Felismina? Fala Pedro Santana Lopes’. Acho imensa graça a essas conversas.” É tiro e queda? “Noventa por cento das vezes sim, as pessoas dizem que vão votar em mim. No outro dia liguei a uma senhora que nem queria acreditar que era eu, passou à irmã, corri a família toda. Gosto mais disso do que chamadas a pedir apoio a tipos com cargos... ‘Venho pedir o seu apoio...’ Eu nunca digo isso. Não é por orgulho, mas porque nunca quis que nenhum líder que eu apoiasse me pedisse apoio. Alguma vez Francisco Sá Carneiro?!... Mas, pronto, hoje é assim...”

Entre as curvas, voltamos ao ponto em que a resposta de Santana se havia dispersado: desta é que é. “Hoje em dia faço tudo o que tenho de fazer, segundo os cânones em vigor. O que é que isso diz sobre mim? Talvez que estou mais disciplinado, mas sobretudo que quero mesmo mesmo ganhar.”

“Desta vez vai ser diferente”, disse Santana umas horas antes, a mais de uma centena militantes em Loulé. E na véspera, num breve encontro com três dezenas de apoiantes em Vendas Novas, quando ia a caminho de Évora, onde voltou a dar a mesma garantia a centena e meia de almas. Dirá o mesmo daí a três horas, a outra centena e meia que o estará a ouvir em Linda-a-Velha. “Desta vez vai ser diferente”; “desta vez estarei em condições de fazer aquilo em que acredito”; “da outra vez eu não tinha a legitimidade do voto, não tinha a força suficiente”. A garantia repete-se, sempre com referência à “outra vez”, quando foi “voluntário à força” para suceder a Durão Barroso. Em vez de fugir ao fantasma que o persegue, Santana faz-lhe uma pega de caras. Invoca o que correu bem nesse Governo (por exemplo, a descentralização de secretarias de Estado), tal como lembra o que fez “noutras vidas” — Lisboa, Figueira, Cultura, Santa Casa...

Nos quatro discursos que o Expresso testemunhou em pouco mais de 24 horas, Santana fez variações do guião bem decorado: três grandes prioridades (crescimento económico, coesão territorial, políticas sociais), críticas ao Governo conforme o tema do momento (Orçamento, Infarmed, carreiras dos professores, as tensões na “frente de esquerda”), evocação da história do PPD-PSD, tendo Santana como testemunha e protagonista de grandes episódios (ao lado de Sá Carneiro, pois claro, mas também ao lado de Cavaco, ora na oposição a Balsemão ora minando o bloco central).

Na sede, em Lisboa, Santana acompanha a atualidade e prepara intervenções enquanto os jovens do call-center fazem cerca de mil telefonemas por dia

Na sede, em Lisboa, Santana acompanha a atualidade e prepara intervenções enquanto os jovens do call-center fazem cerca de mil telefonemas por dia

E nunca faltam as bicadas a Rui Rio. São os momentos em que a audiência mais vibra. Em Loulé, acusou Rio de “dois e três meses antes das autárquicas” andar a arregimentar gente “contra Passos Coelho”. Em Évora glosou a “obsessão pelo défice zero” do adversário e acusou os apoiantes de Rio que “andaram de braço dado com os nossos adversários” de estarem agora escondidos “atrás dos arbustos”. Os mesmos que “continuam todas as semanas nas televisões a dizer mal [do PSD]”. O povo gosta da tareia. E é visível que gosta de Santana. Só em Mértola não há tareia nem guião. Há afeto.

O apoio e o chilique
“Então, onde é que é? Temos quinze minutos, vinte no máximo”, avisa Santana, conforme chega à vila à hora a que já devia estar a sair. Tem uma pequena comitiva à espera à porta do café. Lá dentro, espero-o Dina, 60 anos, militante desde os anos 80, mas “apoiante de Sá Carneiro desde sempre”. Filiou-se pelo núcleo da RDP, onde trabalhava, militou na secção A, em Lisboa, até que em 2009 se aposentou e foi para Mértola. Terra de esquerda. “Ninguém quer dar a cara, têm medo. Aqui não sabem o que é ser social-democrata, acham que é ser fascista. Eu não tenho medo, acho que não devo ter. Fui sempre do PSD, não vou esconder.”

tiago miranda

“Isto é que é militância em zona difíceis! Bem merece uma visita”, diz-lhe Santana, conforme se sentam à mesa, com meia dúzia de pessoas à volta. Desde 2001, Dina foi sempre a candidata do PSD à Câmara de Mértola. E apresenta resultados: “Há quatro anos fiz campanha praticamente sozinha, este ano éramos cinco. Foi muito agradável! Fizemos um bom trabalho, triplicámos [o número de votos].” Assim foi: em 2013 o PSD teve 53 votos, em outubro saltou para 159. Com 3,5%, ficou em terceiro lugar — o que, no caso, foi o último. Nada que desanime Dina. Ou Santana: “Agora, é continuar!”

À mesa estão três dos quatro independentes que se candidataram com Dina. Um deles, Isabel, é “uma militante histórica, que se afastou do partido”. Interpela Santana, fala-lhe da seca, da desertificação, do gado que não tem o que comer. Está entusiasmada com o interlocutor. “Ah, meu Pedro Santana Lopes!... Eu ainda sou do tempo do PPD-PSD!”, suspira, quando o candidato se levanta. Santana vai fazer as fotos da praxe, mas Isabel não participa — tem uma quebra de tensão. Enquanto Dina faz pose ao lado do ex-primeiro-ministro, Isabel é deitada em cima de várias cadeiras, de pernas para o ar.

O busto de Sá Carneiro não falta

O busto de Sá Carneiro não falta

tiago miranda

“Já é de noite, não vou jantar, já percebi...”, comenta Santana. Tem de seguir viagem. Vale-lhe a sanduíche de chouriço que lanchou, com uma mini, numa tasca à saída de Loulé. “Olha!, é o... o...”, exclamou um homem de rosto demasiado vermelho, enquanto saudava o político com um ‘bacalhau’ viril e cúmplice e alcoolizado. Outro mete conversa. É do PCP, “mas se fosse PPD” votaria Santana. “É o Santana Lopes, porra!”, ouve-se no Café Goncinha.

“Eu disse na apresentação da candidatura: o meu nome é Pedro Santana Lopes e assumo tudo aquilo que fiz”, repete o candidato, já em Linda-a-Velha, Oeiras. “E não disse isso por ter a mania de que sou o 007 ou que os outros são 000, é porque quero deixar bem claro que sou quem sou.” Como se alguém não soubesse.

Artigo publicado no EXPRESSO na edição de 8 de dezembro de 2017