Política

Rui Rio promete meter o PSD na ordem

Foto Mário Cruz / Lusa

“Deixe-me ganhar que vai ver como as coisas são”, disse Rui Rio no último debate com Santana, falando dos críticos internos. “Este clima tem de acabar”, reclamou o ex-autarca do Porto, comentando uma entrevista de Miguel Relvas. O frente a frente desta manhã na rádio foi o mais esclarecedor, o mais objetivo e o menos quezilento de todos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

No debate menos agressivo entre Rui Rio e Pedro Santana Lopes, esta manhã na TSF e Antena 1, Rio prometeu guerra às vozes críticas que já se perfilam dentro do PSD e garantiu que irá por os insubordinados na ordem.

A gota de água para a irritação do ex-presidente da Câmara do Porto foi a entrevista desta quinta-feira de Miguel Relvas ao “Público” e à Rádio Renascença, na qual o antigo braço-direito de Passos Coelho vaticinou que o próximo líder do PSD poderá sobreviver no cargo apenas dois anos.

“Se o clima dentro [do PSD] é já este, já com as rasteiras e com isto e com aquilo, estamos mal, e se eu ganhar vamos estar mesmo muito mal, porque não vou admitir uma coisa destas", declarou Rio, sublinhando que Relvas é apoiante de Santana Lopes e o "empurrou e incentivou” a candidatar-se (é votante, não apoiante, corrigiu Santana).

Rio exigiu, e prometeu, para o próximo líder do PSD “respeito” e “solidariedade”, em vez desta atitude de “antes das eleições estar já a dizer que o próximo líder é para dois anos, estar a abrir as portas a quem não teve coragem de agora ir”. “Vamos acabar com estas pequeninas coisas partidárias como a entrevista do Miguel Relvas e de outros que nem têm coragem” para assumir as suas posições, repetiu o ex-presidente da Invicta.

Rui Rio não esclareceu o que fará para calar vozes críticas dentro do partido, mas assegurou que saberá bem o que fazer. “Sei fazer isto, ando nisto há muito anos. Deixe-me ganhar e vai ver como as coisas são”, avisou.

“Se o Pedro quiser acabar com este clima, tem o meu apoio. Eu vou tentar acabar com esse clima”, asseverou Rio, insistindo que “este clima tem de acabar”. Santana, com alguma bonomia, ouviu Rio mas não alinhou no mesmo tom, tendo desvalorizado as palavras de Relvas. “Eu não tenho receio dessas opiniões, que acho que os militantes em geral vão pôr de lado.”

À saída do debate, de novo confrontado com a entrevista de Relvas, Rio atacou a atitude de “terra queimada” de alguns no PSD. “Ainda não estão os resultados apurados e já há gente dentro do partido a destruir um dos dois líderes” - apesar de falar no plural, Rio não referiu ninguém para além de Relvas.

Discordâncias sobre Costa e o passado, mas também sobre Montepio, canábis e prostituição

O debate conduzido por Maria Flor Pedroso e Anselmo Crespo não foi só o menos violento e quezilento dos três frente a frente – foi também aquele em que se perdeu menos tempo com o passado e os dois candidatos assumiram posições mais claras sobre questões estruturais ou pontuais com que poderão ser confrontados caso vençam. Nesse sentido, foi o mais esclaracedor sobre o que se aproxima e os separa.

A divergência sobre o que fazer caso o PS vença em 2019 sem maioria absoluta, que já era um dos grandes pontos de clivagem entre os dois candidatos, voltou à discussão e cada lado vincou posições. Rio repetiu que não fará a Costa o que este fez a Passos, e está disponível para lhe viabilizar um governo minoritário no Parlamento, decidindo depois, caso a caso, como votar as propostas desse executivo. Mas, questionado sobre que condições colocaria para viabilizar esse governo minoritário, Rio deixou claro que não colocaria condições à partida. “Mesmo que [esse governo] tenha coisas inaceitáveis, temos sempre a hipótese, diploma a diploma, de chumbar", explicou.

Para Santana Lopes, o não a um novo governo de António Costa está garantido. “Eu não viabilizo governos minortitários do PS porque António Costa fez a opção que fez”, afirmou, lembrando que “temos [no PSD] uma tradição de generosidade com PS que o PS não tem nunca connosco”.

Foi a clivagem mais importante, mas não foi a única. Os moderadores colocaram algumas questões concretas para conhecer a posição dos candidatos, e ficou a saber-se que Rui Rio discorda do sentido de voto do PSD na questão da legalização da canábis para fins terapêuticos (“para fins medicinais, com receita médica, não vejo por que não”), e Santana concorda com o voto contra já decidido pelo grupo parlamentar.

Desacordo também se se colocar em debate a legalização da prostituição. Rio considera que “é um tema que deveríamos debater, em nome da dignidade humana e da saúde pública”; Santana considera o “tema muito complexo” e acha que “nesta fase da sociedade portuguesa" não deve ser levantado – e ainda acrescentou considerações sobre “combate pelos valores e pelos principios da organização da sociedade como a defendo”.

Também sobre a entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) no capital do Montepio Geral, ficou a divergência. Para Rui Rio é inadmissível que a Santa Casa use as suas disponibilidades financeiras para tapar buracos da banca. Santana esclareceu que isso nunca aconteceu enquanto foi provedor – as decisões que tomou nesse aspeto foram no sentido de não tomar posições qualificadas no sector financeiro –, mas defendeu que o caso do Montepio tinha de ser estudado, porque “vários poderes do Estado disseram à Santa Casa que era do mais relevante interesse nacional que isso acontecesse, incluindo o Banco de Portugal, não foi só o Governo”.

E, não podiam faltar, as divergências – com acusações à mistura – sobre o passado. Desta vez, não por causa do que cada um fez ou pensou durante o governo de Santana ou o governo de Passos Coelho, mas pela atitude de Rui Rio quando saiu da câmara do Porto, manifestando-se contra a candidatura do PSD encabeçada por Luís Filipe Menezes.

Rio assumiu que “por uma questão de dignidade” não podia apoiar alguém que sempre tinha combatido e que representava os valores contrários aos seus. Mas negou a acusação de Santana Lopes, de que terá apoiado ativamente o independente Rui Moreira contra o PSD.

Se Rio deu uma lição sobre dignidade, Santana aproveitou para uma lição de boa militância. Lembrou que muitas vezes discordou de escolhas do partido mas nunca foi apoiar alguém contra o PSD. “A atitude deve ser dizermos que discordarmos, [mas não] ir apoiar um candidato independente contra o candidato do partido. Isso não é aceitável.”

De acordo na redução do IRC, nos elogios a Marcelo e na defesa do Interior

Também há matérias em que pouco ou nada separa os dois candidatos à sucessão de Passos Coelho. Questionados sobre que políticas deste governo achariam importante reverter, caso o PSD ganhe as legislativas, ambos deram o exemplo do IRC – o atual Governo tem agravado a carga fiscal sobre as empresas, Rio e Santana concordam que o caminho deve ser inverso. E alinham também na ideia de que é urgente melhorar as condições de capitalização das empresas.

Nenhum puxou para o topo das suas prioridades abrir um processo de revisão constitucional, embora concordem que a Lei fundamental deveria ser “mais curta, mais simples, mais linear” (Rio dixit), “menos marcada do ponto de vista ideológico” e “mais isenta” do “ponto de vista económico e social” (palavras de Santana). Mas nem um nem outro está a contar desencadear um processo de revisão.

A resposta de Rio foi curiosa: acha “quase impossível não mexer na Constituição, se quisermos fazer reforma de fundo no regime”, mas defende um caminho original – “Admito fazer propostas no que quero em diversas áreas, e daí decorrerá onde é que se tem de mexer na Constituição por força dessas ideias”.

Estão os dois “marcelistas” convictos, com Santana a declarar desde já apoio à recandidatura do Presidente da República e Rio, embora mais cauteloso, a admitir que a “probabilidade de o apoiar é muito elevada”.

Nenhum dos candidatos arriscou vaticínios sobre o que fará se perder em 2019, e ambos querem abrir o PSD à sociedade. Um e outro declararam o seu amor de longa data pelo Interior do país, reclamando para si mais e melhores ideias sobre descentralização e desconcentração.

As eleições no PSD são no sábado. Falta um dia e meio de campanha eleitoral.

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    Ao segundo debate, Rui Rio e Santana Lopes voltaram a trocar muitas acusações sobre o passado e a divergir sobre o futuro: o primeiro defende que o PSD se aproxime de António Costa para afastar o BE e o PCP do poder, o segundo diz que não há acordo possível com este PS. Rio recusou comentar a polémica sobre a PGR; Santana garantiu que reconduziria Joana Marques Vidal. Rio desta vez levou recortes. “O Rui passou a gostar dos tais truques”, ironizou o adversário

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    Em entrevista à SIC, o candidato à liderança do PSD diz não estar “desesperado” até porque tem “indicações” de que vai “claramente à frente”, e acusa o atual Governo de não ter um plano a longo prazo e uma “política pública amiga do investimento”. Também esclareceu as suas declarações ao “Público” e à Renascença sobre o apoio a um Governo minoritário do PS. “O título da entrevista induz em erro”