Política

O “Zandinga”, o show de Marcelo e os elogios inflamados ao PCP: um best of em vídeo dos congressos do PSD

fotomontagem tiago pereira santos

No dia em que arranca o congresso que consagrará Rui Rio como líder do PSD, recordamos alguns momentos marcantes e animados que fazem a história do partido. Este é um best of possível, que inclui o ataque ‘astrológico’ de Durão contra Santana, os elogios improváveis ao PCP ou até a tirada de Luís Filipe Menezes que pôs os militantes em polvorosa e acabou por dar nome a um livro

“Um misto de Zandinga e Gabriel Alves”

O calendário marcava o ano de 2000, o cenário era Viseu e o protagonista era Durão Barroso, então presidente do PSD. Marques Mendes – que se apresentava como uma terceira via em forma de candidato – criticava as disputas “pessoais” entre Durão e Santana e o que estas poderiam significar para o partido. A prova viva chegou com uma intervenção de Durão que deu lugar a fortes reações e até a comentários dentro do partido de quem temia que quem falava assim não pudesse chegar a primeiro-ministro. Sobre Santana, Durão falou assim: “Esse candidato que, além de astrológico, a todos nos entusiasma com os seus comentários desportivos, o que quer com certeza dizer que teríamos um misto de Zandinga e Gabriel Alves”. Durão ganhou a disputa e chegou mesmo a ser primeiro-ministro, mas quem passou a liderar o Governo em sua substituição quando saiu para a Comissão Europeia foi… o ‘candidato astrológico’ Santana Lopes.

Uma sala subitamente em silêncio para ouvir (o inesperado) Marcelo

O momento mais imprevisível do congresso de 2014 – que Santana Lopes chegou a descrever como uma “festa de aniversário surpresa” - foi mesmo a presença de Marcelo, que, no seu estilo habitual, admitiu ter sentido um impulso repentino e decidido aparecer de improviso, sem discurso preparado. No dia seguinte, todas as notícias citavam Marcelo. Primeiro, porque já na altura se falava de uma possível candidatura presidencial (e Marcelo sabia-o: “Diziam-me: não vás, pá, podes ser mal-interpretado, parece que te estás a fazer ao piso a qualquer coisa”); depois, porque falou e comentou tudo um pouco, da história do PSD ao momento que se vivia então, com Passos Coelho a liderar o Governo. Sobre Passos, comentou que era “irritante” porque falava “como se estivesse numa aula, e as pessoas diziam: lá está o arrogante, este homem é muito irritante”; sobre o então vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, disse que estava à espera de que a saída da troika do país fosse uma espécie de nova independência: “O parceiro de coligação tem a ideia de que a saída vai ser como o 1º de dezembro de 1640 mas não vai ser bem assim”. E até comparou os dois: “Assim como o vice-primeiro-ministro adora dar boas notícias, o primeiro-ministro adora dizer que é cedo para dar boas notícias”. Mas foi também um momento intimista com o seu partido, que o ouviu em silêncio e atenção totais, rendido a Marcelo e sem ligar aos avisos de Passos que não quereria apoiar um candidato presidencial “catavento”.

“Sulista, elitista e liberal”

Com três palavras apenas, Luís Filipe Menezes conseguiu eternizar um discurso e entrar diretamente para o top de momentos mais marcantes dos congressos dos partidos. Foi em 1995, ano em que se discutia a sucessão de Cavaco Silva. Menezes tomou a palavra e fez um discurso incendiário em que se dirigia à classe dirigente do PSD e em particular a Durão Barroso com palavras duras: ‘Sulista, elitista e liberal’. A reação foi instantânea e vale a pena vê-la em vídeo: muitos apupos, muitos assobios, o pedido de calma aos militantes que se manifestavam e o impediam de continuar a falar. (Mais tarde, em 2003, Menezes chegou mesmo a aproveitar a sua máxima para escrever um livro que intitulou ‘Sulista, elitista e liberal q.b.’).

“Tenho esperança de que Bernardino deixe de ser comunista”

Se há nome em que se pode confiar para animar um congresso e provocar reações – e risos – nas hostes, esse é seguramente o de Fernando Costa, dinossauro autárquico das Caldas da Rainha que em 2013, já com a norma da limitação de mandatos, se mudou para Loures, onde perdeu para o comunista Bernardino Soares. Em 2014, Costa dedicou boa parte da sua intervenção ao concelho de Loures e à inédita coligação que ali se compôs, a chamada vodka-laranja, que colocou PCP e PSD do mesmo lado da barricada. Alguns anos antes da geringonça, a experiência do confesso “velho das Caldas” a trabalhar com Bernardino Soares não poderia ser melhor, como descreveu, para espanto de todos, ao pormenor: “Há vinte anos, se me dissessem que ia fazer uma coligação com a CDU, eu arrepiava-me todo. Eu penso que eles também andam um bocado arrepiados comigo (….). Bernardino Soares pode ser comunista, tenho esperança que um dia deixe de o ser. O Sá Carneiro está descansado: sabe que é mais fácil o Bernardino vir para a social-democracia do que eu ir para o marxismo”. Por entre outros elogios que puseram Passos Coelho ora a rir ora a olhar para o chão, acabaram por avisar Costa de que já o seu tempo já fora ultrapassado: “Ó Fernando, tens de acabar”. Ele teve resposta pronta: “Olha, se não me dás mais tempo eu vou pedir à CDU!”.

O “golpe de misericórdia” de Passos

Tinha 46 anos e tomava a palavra com garra e energia. Falamos de Pedro Passos Coelho, que hoje está de saída da liderança do PSD mas em março de 2010, no Congresso de Mafra, explicava porque é que seria o melhor sucessor de José Sócrates, que liderava então um Governo “ferido de morte” ao qual era preciso dar um “golpe de misericórdia”. Em Mafra, Passos interveio duas vezes, anunciou que “a sociedade no seu todo” tinha vivido “muito acima das possibilidades” e fez a apologia da poupança. Reconheceu méritos a Ferreira Leite, prevendo já que seria o seu substituto. Viria a ser eleito no Congresso seguinte, em Carcavelos, com vice-presidentes como Paula Teixeira da Cruz, Marco António Costa ou Jorge Moreira da Silva. E tornar-se-ia primeiro-ministro no ano seguinte, em pleno período de crise e com Paulo Portas ao seu lado nos comandos do Governo.

A passagem de testemunho era, à época, de Ferreira Leite, que acabara de liderar o partido durante dois anos – dois anos em que o país fora governado por José Sócrates – e passava então a pasta. Não sem avisos: a então líder cessante queixou-se então dos “ataques inéditos feitos a um partido da oposição”, avisou sobre o “momento particularmente delicado” que o seu sucessor encontraria mas orgulhou-se do legado para que contribuiu: “a credibilidade” do partido.