Política

SIS. Secretas admitem regresso a Portugal de mais de 20 mulheres e filhos de jiadistas

Luso-holandesa Ângela Barreto viajou para a Síria em 2014

d.r.

Familiares podem voltar já este ano e até pedir nacionalidade. Autoridades não os querem prender mas antecipam problemas sociais e de segurança

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Os serviços de informações portugueses garantem que os 5300 jiadistas ocidentais que nos últimos anos se juntaram ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) estão identificados e são conhecidos. E não preveem um êxodo “em massa” da Síria para a Europa por parte destes terroristas durante 2018, mesmo após a perda de mais de 85% do ‘califado’. Ainda assim, acreditam que nos próximos meses cheguem a Portugal mais de 20 mulheres e filhos de jiadistas portugueses ou lusodescendentes que vivem nas terras ainda dominadas pela organização terrorista.

“Prevê-se para 2018 um aumento do regresso das mulheres e menores”, entre os “quais mais de duas dezenas de descendentes de cidadãos nacionais”, afirmou Adélio Neiva da Cruz, diretor do Serviço de Informações de Segurança (SIS), num seminário sobre vítimas de terrorismo organizado a 15 de março na sede das secretas, na Ameixoeira.

Estas mulheres e crianças deverão ser recebidas em Lisboa, ou noutros países da Europa onde têm raízes familiares, sem qualquer tipo de hostilidade. Ou seja, em vez de serem detidas — como acontecerá a cada um dos jiadistas portugueses que é alvo de um mandado de captura internacional —, a aposta será na reinserção. “São suscetíveis de inclusão”, precisou Neiva da Cruz, que defendeu que a luta contra o terrorismo “não pode ser baseada apenas em medidas securitárias e repressivas”.

Segundo soube o Expresso, estas mulheres e crianças podem até pedir a nacionalidade portuguesa quando chegarem a Lisboa, uma vez que muitas são estrangeiras.

Ainda assim, o nº 1 do SIS antevê alguns problemas sociais e judiciais relacionados com o fenómeno. “Este regresso coloca um sério problema às forças e serviços de segurança, e ao aparelho de justiça, e levanta enormes questões sociais que urge enfrentar e resolver.”
Na Europa tem sido necessário perceber o grau de envolvimento das companheiras dos combatentes nos palcos da Jihad. Mesmo que não tenham pegado em armas ao lado dos maridos nos campos de batalha, existe sempre a suspeita de que possam ter contribuído para o financiamento, o recrutamento ou a apologia do grupo terrorista.

Ângela Barreto, a luso-holandesa que fugiu para o ‘califado’ para se casar com o português Fábio Poças, no verão de 2014, é disso exemplo. Em 2015 anos terá convencido através da internet três menores holandesas a rumar ao ‘califado’. Esta jiadista, que foi mãe de duas crianças já quando se encontrava na Síria, é alvo de um mandado de captura das autoridades holandesas desde dezembro de 2016.

O caso dos menores que se encontram na zona de conflito é ainda mais complexo. Várias fontes contactadas apontam para a existência de 10 a 20 crianças filhas de jiadistas com raiz portuguesa. Algumas delas podem ter sido feridas com gravidade devido aos conflitos armados.

O último relatório de segurança interna alerta para a possibilidade de regresso de “jovens sem antecedentes” mas já “enformados pela ideologia jiadista” e “expostos durante anos” à violência dos soldados do Daesh, considerando as suas práticas como “normais, legítimas e adequadas”. O documento conclui que as “camadas mais jovens desempenham um papel fundamental na perpetuação do ideal do ‘califado’, mesmo após a perda de território”. Uma fonte das forças de segurança resume: “Tem de ser determinado em que ambientes viveram estes menores.”

O número de jiadistas portugueses era próximo dos 20. Hoje, o grupo é mais reduzido, depois de mortes e desaparecimentos em combate.