Política

Marcelo: “equilíbrio” entre redução do défice e medidas sociais prova “maturidade democrática”

TIAGO PETINGA/ LUSA

Foi em resposta a alunos da Universidad Carlos III, em Madrid, que Marcelo acabou por comentar as políticas seguidas pelo Governo e os objetivos da redução do défice. Costa é um “otimista radical”, mas os resultados são “uma prova de maturidade democrática” a ter em atenção. O presidente ainda deixou avisos duros a quem na Europa quer fechar a porta à inclusão e aos emigrantes

Qual é o segredo da recuperação económica portuguesa? Para Marcelo, não é certamente “um milagre”, mas antes “um equilíbrio entre o que é necessário para a redução do défice e a justiça social”. É assim que Portugal, governado por um Governo com um apoio inédito à esquerda e com um primeiro-ministro “otimista radical”, se tornou “um exemplo de democracia”.

As opiniões do presidente da República sucederam-se numa conferência que se transformou numa sessão de perguntas e respostas com os alunos até ligeiramente mais prolongada do que estava previsto. Tudo porque Marcelo não é fã do procotolo, como explicou, provocando risos na assistência. Por isso, demorou-se a explicar que “não há milagres na economia, há realidade e muito trabalho”. Há também “estabilidade política e social – um Governo minoritário com apoio parlamentar maioritário e duas oposições fortes”. E uma posição do Governo. “Há quem diga que é demasiada redução do défice, há quem diga que é demasiada preocupação social. O equilíbrio é uma prova de maturidade democrática, até hoje com bons resultados”, sentenciou Marcelo.

À chegada a Madrid, Marcelo tinha recusado comentar as notícias sobre o Plano de Estabilidade apresentado pelo Governo, lembrando que não fala de assuntos nacionais em visitas de Estado ao estrangeiro. Mas questionado por uma aluna do mestrado de Assessoria Jurídica de Empresas da Universidade Carlos III sobre a recuperação portuguesa – e se há “austeridade” escondida no país – não resistiu a responder. A receita do sucesso é, para o presidente, um cocktail de fatores, que incluem a situação económica europeia, o trabalho dos Governos e o mérito dos portugueses. Um exemplo de democracia que, até hoje, tem corrido bem: “É possível ter diferentes vias para a reconstrução do equilíbrio, umas à esquerda e outras à direita. Até hoje, há equilíbrio com bons resultados, muito bom para Portugal e os portugueses”.

Como “adora isto”, sendo 'isto' as respostas aos alunos e o regresso, por momentos, à cadeira do professor, Marcelo seguiu por aí fora, respondendo a perguntas sobre Europa, refugiados ou populismo. Até porque há “meses” para debater a Europa antes das próximas eleições europeias. “Há que fazê-lo e não perder esta oportunidade, que é irrepetível. Sem ela, teremos diferentes Europas. Não duas, múltiplas. Uma democrática e uma populista, fechada, musculada”. Disse-o mesmo declarando-se por duas vezes um “otimista realista” – e lembrando que Portugal tem em António Costa outro líder otimista, mas esse é “um otimista radical”.

“Não há europeus puros”. E há uma “esquerda ambiciosa”

E o que preocupa Marcelo na Europa? A migração foi um dos temas e o presidente foi contundente, dizendo não concordar que se apoie apenas por “razões económicas e sociais”, por ser um “continente velho”. “A minha preferência vai para uma posição de princípio. Num país de emigrantes, onde a maior parte da minha família vive na América Latina, a migração é natural e corresponde a um direito, a uma posição de princípio, a um valor europeu essencial”. Não há “europeus puros”, recordou Marcelo. Sobre isto, há uma “unanimidade absoluta” em Portugal. Até porque é um país sem extrema-direita nem extrema-esquerda – apenas uma “esquerda mais ambiciosa”.

Mas neste e noutros aspetos, não basta louvar a posição portuguesa: “a Europa tem de ter uma política comum”. “Não é possível que haja estados que dizem que aceitam [migrantes e refugiados] e depois não aceitam, que não respeitam as quotas. Não é possível a posição de estados nacionalistas, em cujas campanhas internas a discussão é votar contra os migrantes, refugiados”. E concluiu: “Esta é a negação da democracia na Europa. É impossível compreendê-lo em sociedades europeias. Não compreendo como é possível dizer que queremos tudo para os nossos, nada para os outros. Isso não é democracia, é ditadura”.

Marcelo foi ainda mais claro: hoje há “uma Europa de princípio e algumas exeções”, mas a Europa fez-se para “solidariedade, inclusão”. Senão, será “uma aparência de democracia”. “Não é a minha Europa”. Marcelo já tinha explicado várias das suas ideias sobre a Europa, a América Latina e o mundo, recordando que é contra “muros reais e imaginários”, quando a sessão encerrou. Não por sua vontade: é que o presidente “adora isto”, como antigo professor, e por ele até dispunha de mais “trinta minutos”. Mas não houve tempo para mais conversas, até porque o chefe de Estado ainda terá esta noite um jantar com os reis Felipe e Letizia.