Política

“Não vamos sacrificar a boa governação com eleitoralismos”: o aviso de António Costa para a esquerda

NUNO VEIGA / Lusa

O líder socialista faz juras de amor à ‘geringonça’, diz estar confiante com a aprovação do Orçamento, admite um futuro em conjunto, mas deixa uma ameaça à esquerda: a tentação de ganhar votos não pode sacrificar tudo o que foi alcançado. Quanto a um eventual Bloco Central, Costa pensa assim: “Governações de Bloco Central não são boas para a democracia. Não porque o PSD tenha lepra, mas porque a democracia é feita de escolhas”

Começa a ser difícil acompanhar a sucessão de avisos, recados, alertas e sugestões que vão sendo trocados entre socialistas, de um lado, e bloquistas e comunistas, do outro. Catarina Martins reclama, Jerónimo de Sousa insurge-se, Heloísa Apolónia exige e Carlos César ameaça. Desta vez, foi António Costa. O líder socialista discursou no encerramento das jornadas parlamentares do PS, em Beja, e passou largos minutos a elogiar a solução parlamentar à esquerda. Até que deixou um aviso derradeiro: ninguém compreenderia que os resultados alcançados fossem sacrificados em nome de “eleitoralismo” que condenasse o Orçamento do Estado para 2019.

“Não será seguramente por ser ano de eleições que vamos sacrificar a boa governação com eleitoralismos, que vamos pôr em causa tudo aquilo que conquistámos duramente ao longo de toda a legislatura.” Mais: “Não acredito que o PEV, PCP e BE queiram pôr em causa aquilo que tem sido o sucesso desta solução governativa. Porque é que vamos pôr em causa agora aquilo que já provámos ser possível?”. António Costa dixit, assim mesmo, sem espaço para segundas leituras.

O ónus está, portanto, do lado da esquerda, sublinhou o primeiro-ministro. Até porque, como foi fazendo questão de repetir ao longo de toda a intervenção, no PS nada mudou. “Não estamos nem arrependidos, nem com vontade de mudar”, insistiu Costa, antes de recordar as suas palavras no início do ano, nas jornadas parlamentares do PS em Coimbra: “Quando se está no bom caminho, só há uma coisa a fazer - é prosseguir no bom caminho. E quando se está bem acompanhado, não se deseja mudar de companhia. Ora, passados estes meses, posso repetir: queremos continuar este caminho com a companhia que temos porque nos sentimos bem acompanhados”.

Antes e depois, Costa foi fazendo juras de amor à ‘geringonça’, uma solução que ganhou um lugar no “coração dos portugueses” e que é hoje um “garante de confiança dos portugueses”, sem deixar de lembrar o papel fundamental do PS nesta solução. “Todos os parceiros parlamentares têm sido muito importantes. Mas há uma coisa que os portugueses sabem: o PS é essencial para que a ‘geringonça’ exista.” Com o aproximar das eleições, é altura de recolher os louros da governação e António Costa sabe-o.

Assim como sabe que, se a solução cair, o PS e os parceiros à esquerda vão sofrer consequências. Daí que tenha voltado a avisar: “É preciso que todos provemos bem nesta legislatura para merecermos a continuidade desta solução de governo na próxima legislatura.”

E para descansar os temores sentidos à esquerda (e numa parte do partido), Costa ainda fez questão de enterrar o fantasma do Bloco Central. “Governações de Bloco Central não são boas para a democracia. Não porque o PSD tenha lepra, mas porque a democracia é feita de escolhas”, rematou o líder socialista.

O sermão de António Costa aos deputados socialistas

O secretário-geral do PS não esqueceu, ainda assim, o seu próprio grupo parlamentar. Depois de vários deputados socialistas (à cabeça, Carlos César) terem feito saber do seu descontentamento por não terem sido tidos nem achados no acordo de revisão da lei laboral que saiu da concertação social, António Costa começou a sua intervenção por “agradecer o extraordinário apoio” que os deputados “têm dado, permitindo ao Governo cumprir o seu programa, os compromissos com os parceiros parlamentares e os compromissos internacionais”.

Este gesto era muito mais do que os normais cumprimentos de circunstância. Costa ensaiava, aparentemente, as pazes com seus deputados depois das críticas à concertação laboral. Só aparentemente, porque o líder socialista veio preparado para explicar aos mais céticos qual é o “património histórico do PS”. “Vamos defender sempre a concertação social. O que não quer dizer que a legitimidade democrática do Parlamento esteja condicionada, limitada ou asfixiada”, salvaguardou.

Ao mesmo tempo, Costa fez questão de defender, um por um, os pontos mais contestados no PS à proposta de lei do Governo: os fundamentos que sustentam a contratação a prazo diminuem, a duração dos contratos a prazo será menor, as renovações dos contratos a prazo vão ser limitadas, é criada uma sobretaxa que penaliza as empresas que abusam da contratação a prazo e o alargamento do período experimental vai permitir às empresas que apostem em contratos sem termo, dando-lhes “naturalmente” margem para testar os seus trabalhadores. “Isto não é aumentar a precariedade”, garantiu o líder socialista, respondendo às críticas dos seus próprios deputados.

Ou seja, António Costa bem pode jurar que o grupo parlamentar tem toda a autonomia, mas a margem para propor alterações ao acordo de concertação social (vontade reiterada esta terça-feira por Carlos César) é pouco mais do que reduzida, foi avisando o líder socialista. O acordo é para valer.