Política

A ascensão do “mediador” que em Portugal foi tudo menos primeiro-ministro ou Presidente. E não faltaram oportunidades

António Vitorino tomou posse esta segunda-feira como secretário-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM). É apenas a segunda vez na história que o cargo é ocupado por alguém que não um norte-americano

JOSÉ CARIA

Foi quase tudo na política. E podia ter sido tudo o que lhe faltou ser. Foi deputado, secretário de Estado, secretário do Governo de Macau, juiz do Tribunal Constitucional, eurodeputado, ministro (por duas vezes) e comissário europeu. Faltou-lhe a liderança do partido, apesar de o partido ter suspirado por ele mais do que uma vez, e a disputa nunca concretizada pelo cargo de primeiro-ministro. E faltou-lhe uma corrida a Belém, que nunca aconteceu, nem quando foi desejado por José Sócrates para medir forças com Cavaco Silva, nem quando António Costa lhe deu o estatuto de “presidenciável” nas eleições que deram a vitória a Marcelo Rebelo de Sousa.

Foi quase tudo na política. E foi quase tudo no mundo dos negócios e da advocacia. Sócio do escritório de advogados Cuatrecasas, membro da obediência maçónica Grande Oriente Lusitano, esteve nos centros de decisão de empresas como a Brisa, a Siemens Portugal, a Novabase, a Finipro, o Santander Totta, o Banco Caixa Geral Totta de Angola, a CTT ou a EDP, por exemplo. Esta segunda-feira, aos 61 anos, e já depois de ter renunciado aos cargos que ainda ocupava, António Vitorino juntou mais uma nota ao seu currículo: toma posse como secretário-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM).

É o ponto alto de um percurso político que começou ainda em 1974, ano em que se fez militante do PS. Um percurso que podia ter morrido praticamente à nascença: em pleno PREC, Mário Soares achava o jovem António Vitorino demasiado radical, demasiado à esquerda para um PS que se queria afirmar definitivamente como alternativa ao PCP. O fundador do PS pediu então a outro jovem, de nome António Guterres, para “controlar” o “agitador”. Sem sucesso: Vitorino sairia, primeiro, para Frente Socialista Popular (FSP), de Manuel Serra, e depois para o Movimento Socialista Unificado (MSU) e para a União de Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS), formações dissidentes do PS. No início dos anos 80, voltou ao PS para nunca mais sair. Sempre no centro das decisões.

De protégé de Almeida Santos à queda por causa da Sisa

alberto frias

Com pouco mais de 20 anos, António Vitorino tornou-se secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, começando aí construir o seu currículo de “negociador”. Chegou ao Executivo pela mão de António Almeida Santos, ministro dos Assuntos Parlamentares do Governo de Bloco Central, já como uma das promessas do PS. “O Dr. Almeida Santos precisava de alguém que tivesse alguma capacidade de intervenção no parlamento e que fosse capaz de fazer a ponte entre os dois partidos da coligação”, chegou a dizer à jornalista Anabela Mota Ribeiro, numa entrevista publicada em 2011 no “Jornal de Negócios”.

O Bloco Central resistiu pouco tempo, mais precisamente dois anos (1983-1985). Voou para Macau, para ser secretário-adjunto do governador Joaquim Pinto Machado. Esteve lá pouco mais de um ano. “O meu filho mais velho, quando voltou, ao fim de um ano e meio não falava português, só cantonense. Todos os pais têm problemas de comunicação com os filhos por volta dos 15 anos de idade, o meu começou aos dois anos e meio”, revelou, em jeito de brincadeira, na já citada entrevista. Em 1995, regressou definitivamente ao poder, já como ministro da Presidência e depois da Defesa. A par de Jorge Coelho, era o homem forte do guterrismo e um dos principais estrategas do PS. “O melhor da nossa geração”, como terá dito dele um dia José Sócrates.

O brilhantismo que os pares lhe reconhecem de nada lhe valeu quando rebentou o “caso Sisa”, em novembro de 1997. O então ministro da Defesa demitiu-se quando o jornal “Público” descobriu que não tinha pago a Sisa (antigo imposto obrigatório que seria substituído pelo IMT) relativa a um monte em Almodôvar. Mal recebeu as perguntas dos jornalistas, convocou uma conferência de imprensa relâmpago e anunciou a demissão. Nem sequer esperou que a notícia saísse.

A experiência foi traumática. Nunca mais aceitou um cargo ministerial, nem mesmo quando José Sócrates o convidou para fazer parte do seu primeiro governo, em 2005. “Não gostei de ser ministro. Ninguém acredita, mas é a verdade. Foi uma experiência enriquecedora, mas não gostei”, chegou a assumir publicamente.

A demissão de António Vitorino precipitou uma outra série de acontecimentos. Desde logo, complicou a sua (possível) ascensão a líder do PS e acelerou ascensão de outra figura: António Costa, até então seu secretário de Estado. Também contribuiu para o adensar da crise do guterrismo, agravada anos mais tarde pela tragédia de Entre-os-Rios (e consequente saída de Jorge Coelho) e pela hecatombe eleitoral nas autárquicas de 2001, que culminou com a demissão de António Guterres.

Nesse momento, e já depois de o “caso Sisa” ter sido arquivado pela Procuradoria-Geral da República, Vitorino teve oportunidade para regressar à política nacional e logo pela porta grande. Mas resistiu.

As duas vezes em que a liderança do PS bateu à porta

alberto frias

Com a queda de António Guterres, Vitorino era o desejado pelo aparelho socialista para ascender ao cargo. Até Guterres, que tinha feito dele o seu número dois nos tempos de Governo, o via como sucessor. Vitorino terá sido sondado para avançar, mas recusou comprar o bilhete de regresso. O brilho internacional que começava a consolidar como comissário Europeu da Justiça e Assuntos Internos era demasiado apetecível. Se ponderou ou não avançar, nunca o assumiu publicamente. O resto da história é conhecido: Jaime Gama anunciou disponibilidade para avançar, mas recuaria por “razões pessoais”. Foi preciso escolher um plano C e esse plano foi Eduardo Ferro Rodrigues, que sucedia assim a António Guterres.

Mas os desenvolvimentos da política nacional encarregar-se-iam de dar uma nova oportunidade a António Vitorino. Em 2004, Durão Barroso ruma à presidência da Comissão Europeia, Jorge Sampaio deu posse a Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro e Eduardo Ferro Rodrigues deixou, em protesto, a liderança do PS. Vitorino foi novamente sondado, desta vez diretamente por Mário Soares. E recusou. O duelo seria entre José Sócrates, João Soares e Manuel Alegre. Os socialistas deram a vitória ao primeiro, que derrotaria facilmente Pedro Santana Lopes nas eleições seguintes.

António Vitorino ainda foi eleito deputado nessas eleições, mas deixaria o Parlamento pouco tempo depois, por causa da controversa relação entre a Galp e o escritório de advogados de que era sócio. Acabava assim o percurso político nacional de um dos mais promissores quadros do PS.

A questão da liderança do PS nunca mais se colocou. Nem António Vitorino voltou a abrir esse capítulo. “Nunca criei em ninguém sinais nem expectativas de que queria qualquer lugar. A pergunta certa não é essa, a pergunta certa é: onde é que surgiu da minha parte um ato, uma declaração, um indício, de que era isso que eu pretendia? Nunca dei sinais de andar a correr atrás [da liderança do PS]", disse a Anabela Mota Ribeiro. Assunto encerrado.

As migrações: o novo desafio

José Caria

Longe da política ativa, mas presença importante nos bastidores e no espaço mediático, nunca deixou de influenciar decisões e decisores. Quase omnipresente, o seu nome foi mais do que uma vez apontado para uma eventual corrida a Belém. Mas nunca cedeu à tentação. No mundo empresarial, esteve em quase todos os centros de poder que contam ou contaram em Portugal.

Agora, volta à linha da frente, naquele que será o maior desafio político da sua carreira e num contexto internacional particularmente difícil.

Assume um cargo que, em 57 anos de história, só por uma vez não foi ocupado por um americano. Mas fá-lo "sem ilusões”, como afirmou recentemente em entrevista à SIC, e com vontade de provar “que a migração pode ser um processo que tem vantagens para todas as sociedades, de origem, de trânsito e de destino, mas sobretudo para os próprios migrantes”.

Na sua primeira mensagem como novo diretor-geral da OIM, António Vitorino reconheceu a excecionalidade do desafio que vai enfrentar. "Acredito que nunca houve um tempo tão interessante e ao mesmo tempo tão desafiador para trabalhar no campo das migrações”, disse, numa curta mensagem vídeo aos trabalhadores da OIM.