Política

“Há um risco grande de o PSD se tornar indiferenciado e irrelevante”

ana brigída

Miguel Morgado, deputado do PSD

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

Miguel Morgado, deputado do PSD que foi assessor político de Passos Coelho durante o governo da coligação, assume as divergências com a estratégia de Rui Rio e promete mobilizar um movimento para repensar o PSD e federar a direita. Contra a “obsessão” de Rio com uma “pureza ideológica social-democrata”, Morgado defende um partido que assuma que sempre teve várias tendências, desde conservadores a sociais-democratas. Também propõe que o líder passe a ser escolhido em primárias abertas a simpatizantes. E não põe de parte ser um dia candidato à liderança — não o é agora porque não há eleições no PSD nem deve haver até Rio ir às legislativas. Só mudando, diz, o PSD poderá liderar a alternativa ao projeto de poder de António Costa, que é “exatamente igual” ao de Sócrates.

Tem visto no PSD uma alternativa consistente ao Governo do PS?
O PSD tem de representar todo o país que não se revê nesse projeto socialista. É preciso perceber o projeto político da ‘geringonça’, que muitas vezes é acusado, e bem, de não ter uma estratégia de futuro para o país, pode ser caracterizado pelo branqueamento do passado recente de corrupção, tráfico de influências e abuso de poder, conforme eu e outras pessoas chamámos a atenção quando alertámos para a importância da decisão sobre a PGR.

Inclui nessa acusação o PCP e o BE?
Essa cumplicidade tem sido evidente. O caso mais paradigmático foi a comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD). Houve conluio da ‘geringonça’ para impedir que se soubesse o que se passou nos últimos 20 anos na CGD, que foi pivô de todo o esquema. O que vemos hoje é uma gradual reinstalação do regime anterior, com a ocupação estratégica, pelo PS, de todos os centros de poder, incluindo na economia privada. A estratégia do PS foi sempre a de um poder hegemónico de domínio sobre a sociedade. Foi o que Sócrates fez e é o que António Costa está a fazer: criar um país com uma rede de dependências em relação ao Governo.

Costa tem o mesmo projeto de poder hegemónico de Sócrates?
Exatamente o mesmo. Não digo que os métodos são os mesmos (até pelo despacho de acusação, que é público, sabemos alguns métodos usados por Sócrates e seus aliados na prossecução desse projeto) mas, excluindo essa metodologia, que tudo aponta ser criminosa, o projeto do PS para perdurar no poder é o mesmo.

Como é que o PSD deve opor-se a isso? Rio tem-no feito?
O PSD tem de retomar a liderança mobilizadora, popular, transversal, para uma plataforma reformista alternativa. Se, pelo contrário, tentarem impor uma vocação artificial ao PSD, como uma espécie de partido-sombra do PS, isso vai ao arrepio da vocação do PSD e das necessidades da democracia portuguesa. Para isso o PSD também tem de perder a obsessão, que se instalou no últimos tempos, por uma certa pureza ideológica: dizer que se é um partido social-democrata e que todos os outros, ainda que militantes há décadas, não cabem lá porque padecem de inspirações políticas, culturais e intelectuais estranhas ao corpo puro da social-democracia... Eu proponho um PSD totalmente diferente. Para fazer face ao bloco das esquerdas, o PSD precisa de federar as várias direitas, reproduzir no seu seio as direitas e os grupos não-socialistas que existem em Portugal. O PSD tem de passar a ser um partido de tendências, de sensibilidades, onde haja uma corrente social-democrata ao lado de uma corrente conservadora, mas também com uma corrente liberal e uma democrata-cristã. É assim que o PSD pode alargar a sua base eleitoral, em vez de a estreitar em busca de uma pureza ideológica que o PSD nunca teve, nunca quis ter e para a qual não se pode reivindicar o legado de Sá Carneiro, que era o contrário desse estreitamento.

Rio foi muito claro: um PSD social-democrata, aberto a entendimentos com o PS.
Mas eu continuo a contestar essa orientação e a apelar para que seja alterada. No PSD há sociais-democratas e democratas-cristãos, conservadores tradicionalistas e liberais. Existem há muito e não resultam de nenhuma deriva, isso foi propaganda da esquerda. Neste momento há um risco grande de o PSD se tornar um partido indiferenciado e irrelevante. A minha proposta é o PSD regressar a uma posição de liderança com um projeto assente na diversidade dos seus militantes. Sendo também liderante em relação a outros partidos que estão fora da órbita socialista. E proponho que o líder do PSD seja escolhido por essas direitas federadas, em primárias, não apenas pelos militantes, mas também pelos simpatizantes.

Rio tem tido uma atitude de confronto com quem diverge, e no PSD há agitação e especulação sobre um congresso extraordinário. Que consequências eleitorais isto pode ter?
O PSD tem de ter bons resultados em 2019. Não só porque ganhou as últimas duas legislativas, mas porque tem o dever de representar o país que não se revê na ‘geringonça’. Se o fizer terá bons resultados. Rio tem uma estratégia que a meu ver é errada, mas é a estratégia que venceu há nove meses, com um mandato de dois anos que era um mandato para ir a eleições. E não é com sondagens que eu alego que esta liderança já não tem legitimidade. Tenho divergências, mas a minha opinião sobre esta direção e o seu erro fundamental não se sobrepõe à legitimidade de Rio para ir até ao fim. Se Rui Rio estivesse a violar os seus deveres ou os estatutos do PSD... mas nada disso se está a passar. Tudo o resto, incluindo alarmes sobre interrupções do mandato, são precipitações.

Qual foi o “erro fundamental” de Rui Rio?
Há dois níveis diferentes. O primeiro é sobre a ação política quotidiana. Houve uma precipitação clara em ir a correr para os braços de António Costa para firmar acordos. Mas há outro patamar. O PSD precisa de protagonizar uma emancipação relativamente à esquerda. Os partidos têm o dever de dar aos portugueses um leque maior de escolhas. Se, pelo contrário, nos deixamos intimidar pela hegemonia da esquerda, reduzimos a liberdade dos portugueses, porque estreitamos o horizonte de escolhas. Esta não é uma tarefa só da liderança, e eu levarei a cabo um trabalho político mais aprofundado do que no passado para colaborar nessa tarefa. Irei iniciar um movimento na sociedade civil, com gente do PSD, do CDS e independentes, para que possamos confrontar os grandes problemas do país sem tabus, para que possa haver uma afirmação de autonomia política, intelectual e cultural relativamente à esquerda. É a tarefa prioritária para refundar, reconstruir e federar toda a família não-socialista.

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