Sociedade

Porque corre Tony Carreira?

Dois dias de ensaio e um concerto esgotado em Guimarães. O Expresso esteve na estrada, e à mesa, com o maior artista português

Ricardo Marques

Ricardo Marques

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

tiago miranda

Não é fácil ser Tony.

Tony tem tudo, até aquela sensação estranha e permanente de que falta alguma coisa. Não é que ande irritado, nada disso. A vida não lhe corre mal, antes pelo contrário. Vende discos como ninguém, enche salas como só ele consegue e soma digressões como quem coleciona pacotes de açúcar, daqueles com postais ilustrados ou frases profundas. É o maior artista português, o cantor romântico que preenche todas as linhas da pauta. Se uns o adoram como se fosse o sol, seguindo-o para todo o lado, outros acham que a música é de meter dó — e esses adoram desprezá-lo. Sentimentos tão extremos não estão ao alcance de todos. “Quando nos dão a possibilidade de fazer o melhor, temos mesmo de tentar”, diz-me. A frase tem a ver com a música, mas também é possível que ele esteja a falar de arroz.

É quase uma da manhã e interrompemos o jantar por instantes para gravar uma pequena entrevista. A conversa do arroz vem desta tarde, de um outro restaurante a quilómetros desta pequena mesa em Felgueiras, mesmo ao lado do Santuário de Santa Quitéria. A história do arroz começou em Pombal e irá ser contada dentro de momentos, mas assenta aqui como vinho tinto com cabidela (sim, é o jantar interrompido). O princípio é simples: como pode Tony Carreira ser o maior artista português e não ser o maior artista português? Como pode um arroz de tomate não ser o arroz de tomate? “É injusto, mas é assim. Não posso fazer nada”, lamenta. “A minha música enquadra-se no mesmo género de outros cantores, mas... Colocaram-me um rótulo.” Desta vez, sei, é só sobre música.

Alguém abre uma garrafa de champanhe. Depois outra. Na mesa principal, onde ainda fumega o enorme tacho de cabidela, está outra vez Tony Carreira, o rotulado, o segurança, musculado, que o acompanha, e ainda meia dúzia de amigos do artista e o diretor da Sony francesa. Há também uma travessa com vitela e outra com bacalhau, para desespero do francês que, diz, já não consegue ver comida à frente. No dia seguinte, sábado, 25 de fevereiro, o Pavilhão Multiusos de Guimarães vai estar cheio para o primeiro concerto do álbum mais recente. Chama-se “Sempre Mais” e é o resumo da carreira de TC. Mais discos, mais fãs... Sempre a somar. Voltamos ao mesmo: o homem tem tudo, mas falta alguma coisa.

É mais fácil chegar lá tomando o caminho do que não falta. Eis um exemplo: profissionalismo. Na semana que antecedeu o jantar, passei duas tardes sentado num sofá arrumado contra a parede, na Charneca da Caparica, a ver o concerto de Guimarães. À minha frente, o maior artista português está sentado num banco manhoso do Ikea, virado para a banda. Tem o microfone ali e, ao lado, uma mesa cheia de folhas com letras de músicas e um par de óculos. Os cigarros estão no bolso do casaco, o isqueiro também. “A minha vida é isto”, explica, como quem me mostra um quadro. À esquerda, o piano e o coro. À sua frente, a bateria e, seguindo para a direita, o baixo e as guitarras e, no fundo, logo a seguir aos violinos, os metais. Como se fosse o palco. Como se não fosse um ensaio.

“Malta, isto assim não vai dar”, avisa Tony Carreira a meio de uma música. Parece zangado e, dias mais tarde, na noite do concerto, Carlos Costa (ex-membro dos Corvos e responsável pelas cordas) explicar-me-á que havia razão para isso. “Levámos um raspanete. Ele tinha razão, não estávamos bem. Não há nada a dizer.” Que soe a música, então. Já me tinham avisado que o ambiente no estúdio era totalmente profissional, que os músicos eram dos melhores que há em Portugal e que o equipamento... bom, quanto ao equipamento digamos que são muitas luzes, muitos botões, muitos euros. Muitos euros. “Digamos que eu dizia a um produtor que ia gastar 400 mil euros em equipamento e fazer isto e mais aquilo num concerto. O mais provável era ele dizer-me que eu era doido. Portanto, encontrei a solução — sou o meu próprio produtor. E se o produtor tiver alguma coisa a dizer, diz-me a mim e a questão fica resolvida.” Eis uma forma de resolver as coisas.

tiago miranda

Preparação. O ensaio é coisa séria, com a brincadeira reduzida ao mínimo. As músicas são repetidas até saírem na perfeição. Na sexta-feira, véspera do concerto, Tony Carreira segue para Guimarães

Preparação. O ensaio é coisa séria, com a brincadeira reduzida ao mínimo. As músicas são repetidas até saírem na perfeição. Na sexta-feira, véspera do concerto, Tony Carreira segue para Guimarães

tiago miranda

Mais fácil do que acertar com algumas canções. “O tempo desta é lixado, tem uma métrica tramada”, reconhece o artista sentado no banco. E a banda para e volta ao início. Uma vez, duas, as que forem precisas até a canção sair na perfeição e, sem uma palavra, todos passarem à que vem a seguir no alinhamento. Para ser um concerto só falta o palco, o que ajudaria a explicar porque está uma das cantoras do coro parada à minha frente, a cantar ao lado de Tony Carreira, com o olhar fixo na parede atrás de mim. Bastava esticar o braço e conseguia tocar-lhes, mas nenhum deles me vê sequer. Ainda é só quarta-feira, mas acho que já estão em Guimarães.

A máquina de música está tão bem oleada como o motor do Porsche estacionado lá fora, ao lado dos três camiões TIR, que dentro de dias seguirão para o Norte. O breve intervalo para água, café e cigarros é o momento certo para algumas contas a quase três décadas de carreira. Se o diâmetro de um CD é de 12 centímetros, se nos últimos 29 anos Tony Carreira vendeu 4 milhões de discos (convertendo a fita das cassetes e o tamanho dos vinis para a unidade CD, mesmo com prejuízo), então seriam precisos 480 quilómetros de estrada para os arrumar todos, lado a lado. Guimarães fica a pouco mais de 370 quilómetros. São 280 até Armadouro, a aldeia da Pampilhosa da Serra onde tudo começou — e que provavelmente caberia inteira e arrumada em caixas empilhadas dentro dos enormes TIR. E aqui recuamos do camião até à mala de cartão e uma lágrima no início do caminho.

Lágrima e superação

A história já foi contada tantas vezes que é preciso algum cuidado. Há dez anos, a propósito dos 20 anos de carreira, a Bertrand editou um livro que esgotou rapidamente. Felizmente sobrou um exemplar, perdido algures no fundo do armazém da editora, que agora serve de guia. “A Vida Que Eu Escolhi” é a biografia autorizada de Tony Carreira e é, acima de tudo, uma história de separação e superação. “Escassos dias depois de eu nascer, o meu pai emigrou para França, para trabalhar na construção civil”, leio, na página 18. O ano era 1964. A mãe e o irmão mais velho foram a seguir, quando Tony tinha seis anos. A irmã ficou com os avós maternos e ele com os avós paternos, em Armadouro. “Passei cinco anos a viver longe da minha família direta.” Os pais voltavam no verão e eram as melhores semanas do ano. “Lembro-me de que o primeiro bife que comi foi aos 10 anos, quando, numas dessas férias, fomos todos ao Fundão. Foi o melhor bife da minha vida.”

E depois a lágrima. No livro há duas ou três coisas que saltam à vista. Uma é a obsessão de Tony Carreira em guardar objetos do passado. Ainda tem a primeira guitarra e o rádio que estava em casa dos tios. A outra é a importância absoluta de pequenos instantes. Depois do bife, Amália. “Ainda hoje, cada vez que oiço a ‘Lágrima’ parece que tudo para à minha volta e emociono-me muito ao recordar aquele dia em que eu, criança, ouvi pela primeira vez uma música na rádio. Adoro esta canção, é a canção mais bonita do mundo”, escreve. Há uma fotografia de Amália em Paris (onde mais podia ser?) nessa página e também as primeiras linhas de um destino: “A partir daí nunca mais quis ser outra coisa, que não o que sou.”

A ‘Lágrima’ é a história de um amor impossível e acaba assim: “Se eu soubesse... se eu soubesse que morrendo/ Tu me havias... tu me havias de chorar/ Por uma lágrima... por uma lágrima tua/ Que alegria... me deixaria matar”.

Sábado. Guimarães. Cinco da tarde. Susana Magalhães, viola de arco, foi a primeira a chegar e está sentada na sexta fila, a ver crescer o palco. “Não há ninguém como ele em Portugal, a tocar a este nível.” À nossa frente, há gente no chão a carregar caixotes, em palco a montar colunas e gente pendurada, a uns bons sete metros do chão, a tentar ligar ecrãs led. “O problema”, explica, “é que não consegue libertar-se daquele rótulo pimba que lhe colocaram. É um erro enorme”. Lembro-me de a ter visto, nos ensaios, a acompanhar baixinho todas as músicas. Não há uma letra que não saiba. “Quando era criança, ajudava a minha mãe e ouvíamos estas músicas todas. Hoje estou no palco, ao lado dele, a tocar.”

À nossa volta há um enorme mar de cadeiras vazias arrumadas por cima de alcatifa preta, uma maré de ausência que sobe pelas bancadas. Duas funcionárias arrastam um aspirador industrial e atacam metodicamente o espaço, fila a fila. Passam por nós e desaparecem por instantes atrás de uma cortina. Quando regressam, uma delas vem ao telefone. “Sabes com quem é que estive agora?... Com o Tony Carreira. Ele é muito simpático... Bilhetes? Achas?” Riem-se as duas, a ver as fotografias no telemóvel. Carlos Costa, violoncelo, chegou entretanto e apanha a conversa a meio. “O Tony fez uma aposta a longo prazo. Poucos concertos, mas únicos. O resultado está à vista: enche qualquer espaço onde decida tocar e tem fãs que o seguem para todo o lado. Faz sentido. Olha para este palco... Isto é grandioso. As músicas são boas, os arranjos são impecáveis. É uma fórmula de sucesso”, garante-me.

OK. Vamos parar por um instante. Já se falou dos quatro milhões de discos vendidos, mas pedi mais alguns números à Regiconcerto — a empresa que gere a fabulosa carreira milionária dos Carreiras (Tony, Mickael e David) — e que tem em Fernanda, a ex-mulher de Tony, a principal responsável. Eis o resumo de 30 anos: 17 álbuns de originais; quatro CD/DVD ao vivo e dois CD Best Of; três álbuns francófonos e 60 discos de platina (entregues a álbuns que vendam mais de 15 mil exemplares). Além disto, Tony Carreira tocou nos cinco continentes, esgotou 17 vezes o Pavilhão Atlântico, a maior sala do país; 11 vezes o Multiusos de Guimarães, segunda maior sala; encheu 16 Coliseus, de Lisboa e Porto, e entrou para o “Guinness” com o recorde de maior aplauso do mundo, num concerto realizado no Parque da Bela Vista, em 2009.

Tudo o que faz, vende. Onde toca, esgota. Tony Carreira precisa do reconhecimento? Venderia mais um disco se, como diz, não lhe tivessem colocado o tal “rótulo injusto”? Provavelmente não. É apenas a tal coisa que falta quando já se tem tudo. Há uns meses, foi publicado um livro que nada tem a ver com Tony Carreira, mas que explica bem o paradoxo em que vive o maior artista português. “O povo está — e vota — onde se encontra aquilo que, na sua perspetiva, melhor consegue satisfazer as suas expectativas de vida. O povo não está, decididamente, nos concertos de Milton Nascimento, preferindo as exibições de Tony Carreira em gigantescos piqueniques (megapiqueniques) no alto do Parque Eduardo VII ou no Parque da Bela Vista, sob o patrocínio do grupo de distribuição Modelo/Continente”, escreveu António Araújo, historiador e editor do blogue “Malomil”, no livro “Da Esquerda à Direita — Cultura e Sociedade em Portugal, dos Anos 80 à Atualidade” (Saída de Emergência).

tiago miranda

Mesa. Com os amigos, com boa comida, bom vinho. São os momentos que contam, a altura de recordar histórias antigas. Cruzam-se segredos, em cima em Pombal, e partilha-se cabidela, em baixo em Felgueiras

Mesa. Com os amigos, com boa comida, bom vinho. São os momentos que contam, a altura de recordar histórias antigas. Cruzam-se segredos, em cima em Pombal, e partilha-se cabidela, em baixo em Felgueiras

tiago miranda

Será Tony Carreira a linha definitiva que separa a “cultura popular” da “cultura dita erudita”? A cultura do Portugal das aldeias, do passado, e a do Portugal urbano e moderno? António Araújo confessa que não conhece a música de Tony Carreira a ponto de se poder pronunciar sobre ela, mas avisa que “talvez as coisas sejam mais subtis do que a divisão maniqueísta passado / presente pode fazer crer”. Por um lado, “a cultura ‘dita’ erudita tem, em algumas das suas manifestações, pretensões de vanguardismo e sofisticação e possui raízes urbanas que implicam a rejeição do passado, de um certo passado, a recusa de um Portugal pretérito tido por atrasado, inculto e pobre”. Mas não se trata de uma rejeição absoluta porque, acrescenta, há uma certa visão do passado que é “recuperada e reciclada pela cultura urbana e sofisticada”.

Por outro lado, adianta Araújo, “a cultura popular não é hoje caracterizável como passadista ou saudosista”. “Pelo contrário, nota-se uma preocupação de incorporar coreografias, músicas e sobretudo letras que, apesar de terem por vezes conotações antigas, são bastantes arrojadas”, refere. É com estas palavras na cabeça que estou encostado ao palco do Multiusos de Guimarães com sete mil pessoas a bater palmas atrás de mim, a ver três violinistas a tocar no limite para uma sala mergulhada na escuridão. É impossível descrever em detalhe todo o concerto, mas há alguns momentos que convém reter e explorar. Até porque temos um problema que envolve arroz de tomate por esclarecer.

Olhos nos olhos

“Não gosto de cantar para o vazio”, tinha-me dito Tony Carreira na véspera. “Preciso de ver as pessoas, de as fixar e olhar nos olhos.” Elas olham de volta, todas, e cada uma sente quando é a sua vez. Há momentos em que Tony Carreira podia sair do palco, desaparecer e voltar duas músicas depois que não se notaria — toda a gente canta todas as músicas do princípio ao fim. Toda a gente sorri e parece genuinamente feliz, mesmo que as músicas falem de amores perdidos, de sacrifício, de saudade. É um cantor romântico a cantar canções de amor, como se as segredasse ao ouvido de cada um. “Ele fala de algo com que todas as pessoas se relacionam: amor, perda, dor”, dir-me-á, dias depois, Ester de Sousa, da Rádio Alfa, em Paris.

Fiquemos em Guimarães, para já, no preciso momento em que sobem ao palco os Calema, um duo são-tomense que assina um dos duetos (‘Já Já Mé N’Ga’) do novo álbum de Tony Carreira. Há também uma música com Ricky Martin (‘Perdóname’), outra com Lara Fabian (‘Je T’Aime’), mais uma com Chico & The Gysies (‘Quero Viver/Comme D’Habitude’) e uma quarta. “O Ricky Martin ligou-me porque queria vir aqui, a Guimarães, cantar para vocês. Mas eu disse-lhe, deixa-te estar sossegado, Ricky.” A multidão ri e aplaude, e a seguir entram os Calema.

Depois, bom, depois veio a surpresa, o nome que assina o quarto dueto. Escrevi isto no meu bloco de apontamentos logo após a música: “Não é preciso olhar para o palco, basta não deixar de olhar para uma pequenita que está na primeira fila. Onze ou doze anos. Tem uma vista privilegiada para o pequeno corredor que dá acesso ao palco, vê antes o que todos só veem depois, e naquele instante fica, abre os olhos e a boca de espanto, não sabe se deve rir e pular, ou apenas chorar. É como se alguém lhe tivesse acabado de dizer que o Pai Natal e a Fada dos Dentes existem mesmo, que se casaram e que vivem num lindo castelo com as dez filhas, todas princesas, e que passam os dias a brincar com póneis e unicórnios. O David Carreira vai cantar com o pai.” A miúda passou a música inteira a tremer.

Lá em cima passa-se algo parecido. “Ao fim destes anos todos, chego ao palco e pareço um puto. Fico tímido e a melhor maneira de disfarçar é falar com as pessoas, tentar mandar umas piadas, para camuflar a timidez. Sou um rapaz tímido”, tinha avisado Tony Carreira. Fala muito em palco, mas fala para quem o conhece. Recorda concertos antigos, pede as mãozinhas no ar, uma e outra vez. E a malta vai com ele. As mulheres na primeira fila, na segunda. Os homens também, e não são poucos e já não têm aquele ar de quem foi arrastado, de quem entrou na Zara atrás da mulher, com o saco das compras na mão. Cantam, riem. Não a vejo, mas sei que algures está uma mulher que, às quatro da tarde, devia estar no funeral de uma tia e não sentada à porta do pavilhão à espera de entrar. Também lá está o casal que veio de França, e que trouxe uma guitarra para Tony assinar. Não estão os dois miúdos de cadeira de rodas que assistiram, num pavilhão vazio, ao ensaio geral. E que deliraram à conversa com Tony.

“Ele não é só o cantor que dá voz às canções de que gostamos. Como é fácil chegar a ele, facilmente nos enamoramos do ser humano simpático, educado e humilde. É comum ouvir-se entre o público que o Tony é como um irmão, um filho, um amigo”, garante Lídia Carvalho, 50 anos, a responsável pelo clube de fãs (três mil inscritos de todos os pontos do mundo), que tem mais concertos vistos do que anos de vida. “Nem sei a quantos já assisti. Já estive em França, Suíça, Luxemburgo, Inglaterra, Ilha de Jersey, Madeira, Açores...”, recorda. Admite que já fez diretas para ouvir cantar Tony Carreira, mas garante que controla a loucura. “Um dia fui abordada por uma fã, que me pediu para dizer que tinha sido o clube a oferecer-lhe uma viagem a Paris para ver um concerto no Olympia.” A sala francesa é um cometa que aparece e desaparece na vida de Tony Carreira.

Três notas finais sobre o concerto. A fila de autógrafos no fim, duas a três horas de pé a tirar fotografias com os fãs (muitos dos quais conhece pelo nome próprio). O francês da Sony com quem me cruzo nos bastidores. “Très bon. Amazing”, diz-me, a caminho do camarim, onde há feijoada num enorme tacho que veio diretamente do restaurante de Felgueiras. Estava prometida. Depois, o tímido cantor que não dá um passo em falso. Ao longo de duas horas, não há sector do pavilhão que não tenha direito a vários minutos de Tony Carreira a cantar só para lá. Espalhados pelo palco, pequenos ecrãs passam as letras das músicas, das mais recentes e das mais antigas. E Tony caminha com calma, sem hesitar. A primeira música é, como sempre, ‘A vida que eu escolhi’ — a que apetece acrescentar: com o profissionalismo que aprendi.

E agora o Olympia

Nem sempre foi assim. Em 1988, António Antunes chegava à televisão “diretamente de Paris para si”, como anunciava a apresentadora. Era um homem a correr atrás do sonho, e como corria naquele estúdio, de um lado para o outro, a falar de uma noite “a teu lado”. “Morena linda/ cabelos ao vento/ daria tudo só por um momento/ uma noite a teu lado/ acordar abraçado”. A música tinha sido escolhida como finalista para representar Portugal na Eurovisão (acabou por ganhar a cantora Dora), mas naquele dia, em estúdio, Tony levou uma pancada forte. “Zero pontos, pode ir embora, não tem qualquer futuro”, vaticinou uma das juradas. Ele passou duas décadas a tentar provar que não e, quando se encontraram finalmente, “ela não queria acreditar que tinha sido comigo”, conta o próprio.

tiago miranda

Espera. Os fãs chegam cedo e aguardam a abertura das portas. Alguns fazem loucuras, outros faltam a funerais. Tony recolhe ao camarim horas antes de subir ao palco. Gonçalo, o segurança que o acompanha, espera à porta. São amigos há anos

Espera. Os fãs chegam cedo e aguardam a abertura das portas. Alguns fazem loucuras, outros faltam a funerais. Tony recolhe ao camarim horas antes de subir ao palco. Gonçalo, o segurança que o acompanha, espera à porta. São amigos há anos

tiago miranda

Dez anos depois, em 1998, já o irmão lhe falava do Olympia. Aconteceu em 2000, com a sala esgotada e os fãs rendidos a um dos seus maiores êxitos de sempre, ‘Depois de Ti Mais Nada’. Tomou uma das decisões mais arriscadas da carreira e preparou tudo para gravar um álbum ao vivo. “Aquilo entrou numa derrapagem enorme. Na altura, não tinha a estabilidade financeira que ganhei depois. Mas virei-me para o dono da editora e disse-lhe que para acabar o disco, se fosse preciso, vendia a casa e o carro”, lembra. Não foi preciso, e o disco tornou-se um dos maiores sucessos comerciais de sempre. Mas teve outro efeito, contado assim no livro resgatado no fundo do armazém: “Foi uma mudança brutal, subi para um nível muito acima daquele em que estava antes do Olympia. Era um cantor secundário e naquele momento passei a ser um artista de topo.”

Dezassete anos depois, é assim que é visto em França. “É como Charles Aznavour ou Johnny Hallyday, porque tem uma voz forte. Toca-nos no coração com amor, encontra a música e as palavras que tocam as pessoas”, garante-me Philippe Legrand, jornalista da “Paris-Match”, uma das mais conceituadas publicações francesas. “Tem uma história única e é um artista com um grande talento”, acrescenta. Não é por acaso que Tony Carreira anda há semanas numa autêntica ponte aérea entre Lisboa e Paris (lançou dois álbuns em simultâneo, um cá, outro lá). “Se chego ao fim disto vivo nem acredito”, desabafou comigo num dos ensaios. Mas o fim está longe. Em setembro, arranca para uma digressão de 50 concertos em França, provavelmente esgotada.

Foi no Olympia que Tony Carreira perguntou a Aznavour, após um concerto do francês, porque não deixava de cantar. Disse-lhe também que adorava ‘La Bohème’. Aznavour, conta Carreira, quase surdo e com 89 anos, respondeu assim: “Que espetáculo chato para si, teve de esperar até ao fim para ouvir a sua canção preferida. Sabe, no dia em que parar, morro.”

Convém lembrar que Tony Carreira recebeu, em 2016, a condecoração “Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres” (Cavaleiro das Artes e das Letras), entregue pelo Ministério da Cultura e Comunicação francês, entrando para uma lista onde constam, entre outros, Amália Rodrigues, Mariza, David Bowie e o Nobel da Literatura Bob Dylan. Na altura, o caso foi notícia porque o embaixador português recusou que a insígnia fosse entregue na Embaixada de Portugal. “Não guardo mágoa nem rancor. Acho que a atitude do embaixador não foi a mais coerente, já nem digo correta, porque houve outros antecedentes com o mesmo prémio que foi entregue lá, mas não guardo rancor.”

Regresso ao livro de António Araújo (“Da Esquerda à Direita”) para uma leitura diferente sobre o mesmo assunto. “A popularidade de Tony Carreira é tal que, segundo se diz, levou o primeiro-ministro António Costa a marcar presença numa atuação do cantor em Paris como forma de corrigir um incidente ocorrido meses antes...” Conclui o autor: “A ausência do embaixador de Portugal nessa cerimónia [a condecoração de Tony Carreira] será talvez sintoma de que, à diferença entre cultura de esquerda e de direita, outra se sobrepõe com mais pujança, apartando a alta e baixa cultura (ou, numa designação mais antiga, entre cultura erudita e cultura popular).” Fim de citação.

Ester de Sousa, da Rádio Alfa, a rádio portuguesa em Paris, identifica três grupos de fãs de Tony Carreira. Um é constituído por franceses, os outros dois estão na comunidade portuguesa. “Temos, por um lado, os incondicionais, que não perdem um concerto, que ligam para cá a pedir músicas e que entopem os telefones sempre que fazemos passatempos. Mas também há uma audiência mais jovem que não gosta de ver a música portuguesa representada por Tony Carreira”, descreve, ao telefone. “Não tenho ideia se passa muito nas rádios francesas. Aqui passa. Ontem passei ‘Maria e Sara’, uma música que fala sobre a mãe e a filha. Mas ele não precisa de passar. Os concertos estão sempre cheios, seja verão ou inverno.”

Como estão longe os dias dos “Irmãos 5”, dos fins de semana a tocar para os emigrantes portugueses em França, das semanas a trabalhar na fábrica de enchidos, das dúvidas e dos medos, da incerteza. Como está longe aquele concerto, em Bragança, em 1990, quando atuou numa discoteca onde estavam três pessoas. “Se pudesse voltar atrás e falar comigo, não dizia nada. Dizer o quê? Que ia correr bem? Provavelmente mudava-lhe o destino. Sossegava-o demais e ele podia não conseguir.” Imaginemos a conversa entra o mega-astro e o miúdo de 16 anos, de cabelo comprido e namoradeiro, que teve meia dúzia de aulas de guitarra com um chinês chamado Mao, lições pagas com dinheiro ganho, às escondidas dos pais, a descarregar mercadoria dos camiões que chegavam à feira de Dourdan...”Ai destino, ai destino/ Ai destino que é o meu/ Ai destino, ai destino/ Destino que Deus me deu”.

Tony Carreira tinha 16 anos quando um psiquiatra alemão chamado Cornelius Eckert criou o termo “Ohrwürmër”, que Miguel Esteves Cardoso introduziu na língua portuguesa, anos mais tarde no então jornal “Blitz”, como otoverme: aquelas músicas irresistíveis que ficam dias a fio na cabeça. Num artigo publicado há três anos (“Anatomy of an earworm”, “The New Yorker”), Maria Kournikova conta como foi um russo, Nicolas Slonimsky, o primeiro a criar padrões musicais que viciam a mente e forçam ao mimetismo e à repetição. O seu trabalho “Thesaurus of Scales and Melodic Paterns” foi publicado em 1947 e, segundo Kournikova, inspirou compositores como John Coltrane e Frank Zappa. Slonimsky nunca disse que os seus padrões eram boa música, apenas que ficavam no ouvido.

Nas décadas seguintes sucederam-se os estudos e, há poucos meses, cientistas britânicos da Universidade de St. Andrews elaboraram uma fórmula matemática para decifrar se uma música é ou não viciante. As variáveis incluem a previsibilidade, a potência melódica e a repetição rítmica e no topo da lista está ‘We Will Rock You’, dos Queen. Mas há um risco quando se cruza ciência com arte, e esse risco ouvi-o na rádio, uns dias antes do Natal, quando conduzia para casa. Talvez ouvir seja exagerado. Uma música de Natal criada por um computador a partir das músicas de Natal mais famosas [Karaoke Neural, Departamento de Ciências Informáticas da Universidade de Toronto]. Não era bem música, talvez um otoverme ao contrário. Fica um desafio: quem conseguir assistir a um concerto de Tony Carreira inteiro sem começar a bater o pé, a acompanhar as letras ou a trautear o ritmo, merece uma garrafa de champanhe.

Problemas, problemas

Os mais cínicos poderão dizer que é perfeitamente normal em algumas canções, porque já alguém as cantou antes. O caso mais polémico ocorreu em 2008, com acusações de plágio das músicas ‘Depois de Ti (Mais Nada)’ e ‘Eras Tu, a Metade de Mim’. No ano seguinte, em entrevista ao Expresso, Tony Carreira falou sobre o assunto. Admitiu “pequenos erros” cometidos anos antes, queixou-se de ter sido “crucificado” e remeteu explicações para uma entrevista que dera a um telejornal. Garantiu que não voltaria a falar do assunto. Insisti mais um pouco ao jantar, em Felgueiras. Nada. “As notícias sobre mim vendem, falsas ou verdadeiras. E eu deixei de responder, não alimento novelas. Se houver matéria para processar, processo, como já fiz, e o assunto resolve-se em tribunal. Caso contrário, fico sossegado e deixo andar.” Dir-me-á também nessa noite que tem um “grave problema”. “Nunca me arrependo de nada. Pode ser mal interpretado, mas é verdade. Não me arrependo de nada do que fiz, coisas boas e coisas más. Voltaria a fazer tudo igual, com todos os erros...”

Apagamos os cigarros e andamos em direção ao tacho de cabidela, depois de ele me ter dito que nunca está sozinho. “Nunca tinha pensado nisso, mas é verdade. Sozinho estou à noite, depois do jantar, quando estou em casa. Sou o género de tipo que adormece no sofá.”

tiago miranda

Público. Novos e velhos, homens e mulheres. Gente feliz. Cantam as músicas todas, do princípio ao fim. Tony é o filho, o irmão, o amigo que lhes canta canções de amor. E eles adoram

Público. Novos e velhos, homens e mulheres. Gente feliz. Cantam as músicas todas, do princípio ao fim. Tony é o filho, o irmão, o amigo que lhes canta canções de amor. E eles adoram

tiago miranda

À mesa, por alguma razão estranha, a conversa foi dar às árvores. Falavam de azeite, acabaram em oliveiras, depois na idade delas e na largura dos troncos. Tony Carreira gosta de árvores (lembra-se de uma acácia que havia na escola, em Armadouro) e gosta de contar histórias, mas precisa da ajuda de Henrique Pinheiro, o vice-presidente do Famalicão, uma espécie de enciclopédia andante da carreira de Tony (o homem recorda datas, horas e locais com a precisão de um satélite). Apanharam um susto num avião em Timor há dois anos (a primeira-dama timorense, Isabel da Costa Ferreira, convidou o cantor para a cerimónia que assinalou os 500 anos da chegada dos portugueses, em Oecusse), e uma vez ficaram especados a olhar para uma palmeira no Alentejo. “Começámos a discutir quantos anos tinha e, nisto, passa um velhote e perguntámos. Não sei, respondeu ele, quando nasci já era assim”, conta Tony. “Espantoso, espantoso”, repete o outro.

Voltam às oliveiras e, num ápice, Tony Carreira quer ficar com duas das três que vão ser abatidas no terreno do amigo sentado ao seu lado. A outra vai para Gonçalo Salgado, o segurança que o acompanha para todo o lado. “Somos amigos”, diz Tony sobre o grandalhão à sua frente, “já passámos muita coisa juntos” (inclusive umas fotografias ao som de tiros na Venezuela). Se a importância de um homem se mede pelo tamanho do guarda-costas, Tony está ao nível de Cristiano Ronaldo e Kelly Slater, o campeão de surf — ambos clientes assíduos de Gonçalo.É provável que nenhum dos quatro tenha lido uma notícia que saiu no jornal “Público”, no dia seguinte, sobre a oliveira mais antiga de Portugal. Está em Mouriscas, no concelho de Abrantes, e tem 3350 anos. “A sua sombra, certamente, acolheu celtas, iberos, lusitanos, celtiberos, cónios, romanos, visigodos, alanos ou árabes que se alimentaram das azeitonas que produziu. É contemporânea do faraó Ramsés II e de Moisés (1250 anos a.C.)”, escreveu o jornalista Carlos Dias.

“Sabes o que é que me assusta no mundo hoje? Eu cresci a pensar que era impossível ficar pior. Mas ficou. O mundo está completamente perdido da cabeça.” Falamos de Trump, “um Presidente que usa o Twitter”, do mundo árabe e da Coreia do Norte, da poluição que “ameaça destruir o planeta, um problema para o qual não há solução”. E, claro, de Marine Le Pen: “A política é uma desilusão. Os dirigentes têm que aprender com o que, provavelmente, vai acontecer em França. Se o mundo continuar assim, tenho a certeza de que ela vai ganhar. E se não for desta, vai ser na próxima. Ou na seguinte. As pessoas estão cansadas. É inevitável”. E Tony Carreira à frente de uma câmara municipal? “Não tenho jeito. Não.” Eis algo que um aspirante a político diria. “Não, não. Não posso dizer desta água não beberei, mas eu quero é cantar.”

Nunca dá bom resultado misturar água com azeite, mas é preciso fazê-lo para chegar ao tal restaurante em Pombal e ao problema do arroz de tomate que se arrasta desde o primeiro parágrafo. É um dos dois grandes problemas de Tony Carreira. Talvez o maior.

Anda há meses à volta com uma receita e, por mais que tente, por mais que invente, nunca sai bem. Tem o azeite, o tomate, o arroz e os pimentos, e já perdeu a conta às experiências no fogão. Mas o arroz de tomate nunca sai igual àquele que comeu ali perto e que a filha Sara adorou. “Já tentei de tudo, nunca fica igual”, diz ele ao amigo, dono do restaurante. “Ela ia ficar tão feliz.” Sara é a menina dos olhos do pai. Os irmãos mais velhos estão “orientados” e com carreira na música. Ela ainda não. “Ela gosta mesmo daquilo”, diz Tony, o pai que só quer agradar à miúda. O amigo coloca-lhe o braço à volta do pescoço e aproxima-se como quem diz um segredo. Baixa a voz e garante que o segredo está no refogado, que deve ficar quase queimado. No azeite, que tem de ser bom. No arroz, que não deve lavar. Nos pimentos, cortados pequeninos...

O problema pequenino de Tony é a sua música não passar nas rádios nacionais. Ou passar pouco. Ele aparece na televisão, os filhos aparecem na televisão, eles passam na rádio, ele não. Nem por isso. “Não compreendo”, lamenta a presidente do clube de fãs, Lídia Carvalho. “Colocaram-me um rótulo”, repete ele. “A minha editora, com a qual estou a trabalhar, acredita que vai conseguir pôr-me a tocar na rádio. Se conseguir, fico feliz... Mas não vai conseguir, não acredito nisso”, confessa.

Contactei três rádios nacionais. A TSF não chegou a responder. Da RDP, Ricardo Soares, diretor, garantiu-me que estava enganado e que havia músicas de Tony Carreira na playlist da Antena 1 e da RDP Internacional. Na Rádio Renascença, Pedro Leal explicou que, apesar de Tony Carreira constar em todos os estudos de música feitos com a audiência da estação, as suas músicas nunca entram na playlist. “Isso não implica que editorialmente, na área da programação, a carreira de Tony Carreira não seja abordada. Em dezembro de 2016, Tony Carreira foi o convidado do principal programa da estação, ‘Manhãs da Renascença’, liderado por Carla Rocha”, adiantou.

Fiz ainda mais um contacto, para o diretor das rádios Pampilhosa 97.8 e São Miguel 93.5, as duas que se ouvem em Armadouro. “Passamos muita música dele, principalmente discos pedidos. As pessoas gostam e isso é muito importante para nós”, contou Fernando Correia Bernardo, o diretor. “Mas sabe que nunca nos ofereceram um disco dele? Tudo o que passamos temos de comprar.” Tony?

Tony está à mesa do restaurante de Pombal, e prestes a confirmar o que julga saber: por vezes não chega ter todos os ingredientes para tornar um prato perfeito. Tem os músicos, tem as máquinas e o palco, tem o público e as salas esgotadas e os milhões de discos vendidos. Tem uma história de superação e faz para o ano 30 anos de carreira. É o maior artista português, mas o maior artista português não toca na rádio.

Nessa noite, em Felgueiras, com a cabidela à frente, Tony Carreira disse-me, a propósito das canções e das playlists: “A única maneira de a minha música passar na rádio é eu comprar uma rádio.” Se ao menos com o arroz fosse tão fácil.