Sociedade

Lourenço fez um ano e está tudo bem

Caso único na medicina, o “bebé-milagre” ultrapassou todas as expectativas e não apresenta sequelas

António Pedro Ferreira

Caso único na medicina, o “bebé-milagre” ultrapassou todas as expectativas e não apresenta sequelas

Christiana Martins

Christiana Martins

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Os caracóis são do pai, ninguém duvida. Os olhos, da mãe, diz quem sabe. O riso é dele. A saúde é de uma enorme equipa de médicos e enfermeiros. Ele é Lourenço Salvador, que há um ano surpreendeu a medicina ao nascer depois de ter sido declarada a morte cerebral da mãe. De feto inviável a bebé-milagre, precisou de 107 dias e muita persistência de uma equipa multidisciplinar para nascer. Nasceu, cresceu e esta semana voltou à sua primeira casa, o Hospital de São José, em Lisboa, no dia exato em que completou um ano. Voltou e fez a festa.

Estavam todos lá. Rui Moreno, coordenador da Unidade de Neurocríticos, Susana Afonso, especialista em Medicina Intensiva que reconheceu os batimentos cardíacos do feto e declarou morte cerebral a Sandra Pedro. Beatriz Amaral, chefe de equipa do Hospital de Vila Franca de Xira, a médica que primeiro ouviu o coração de Lourenço e que esta semana o viu pela primeira vez. Não parou de chorar. Alexandra Diogo, a enfermeira Xana, que não largou Lourenço um minuto. E os outros membros da equipa que durante quase quatro meses não desviaram os olhos dos monitores que permitiram o nascimento desta criança ímpar.

O cenário parece estranho a uma festa de anos, mas não podia ser mais adequado. Acompanhado pelo pai, Miguel Ângelo, e pelos tios-avós, Joaquim e Elisabete, Lourenço passou de colo em colo, distribuiu risinhos e não desistiu enquanto não descalçou os ténis. Tudo o que parece irrelevante para qualquer criança da mesma idade, mas que no caso deste bebé constitui conquistas enormes para quem o fez nascer e quem o faz crescer. “Há um ano, eu também estava aqui. Na altura foi impossível não chorar. Vê-lo agora é emocionante. Está lindo”, derrete-se uma enfermeira.

Entre bolo e estetoscópios

Aquela é uma tradição que a família quer preservar. A última vez que Lourenço foi visitar a unidade foi no aniversário do pai, há seis meses. “A evolução é notória”, afirma Susana Afonso. Uma evolução que pode ser quantificada. Já pesa 10,370 quilos e mede 75,5 centímetros, “acima dos percentis dos bebés da mesma idade”, explica, orgulhosa, Elisabete Candeias, tia-avó e quem mais se ocupa dele. Lourenço continua a ser visto na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), para onde foi transferido assim que nasceu. Teresa Tomé, diretora de Neonatologia da MAC, confirma que o bebé está bem, tudo foi observado e nada de anormal encontrado.

Rui Moreno observa, atento. Susana Afonso delicia-se com os 10,370 kg de Lourenço. Uma surpresa, confessam os médicos

Rui Moreno observa, atento. Susana Afonso delicia-se com os 10,370 kg de Lourenço. Uma surpresa, confessam os médicos

António Pedro Ferreira

“Foi abandonando todas as especialidades médicas e já não faz fisioterapia nem é acompanhado em cardiologia”, conta Elisabete Candeias. Os médicos estão atentos também à evolução psicossocial de Lourenço. “Esta criança não é o resultado de 12 horas de trabalho, mas de um compromisso de 24 horas por dia, todos os dias, durante vários meses, de uma grande equipa, que lhe disponibilizou cuidados de alto nível. Um descuido de 15 minutos poderia ter levado tudo a perder. Sobretudo no período inicial, em que tivemos de tomar uma decisão. Basta olhar para ele para termos a resposta, mas agora é fácil”, explica o médico Rui Moreno.

Sempre as memórias

A decisão de manter uma grávida de 37 anos em morte cerebral ligada às máquinas com o coração a bater, garantindo a circulação de sangue na placenta e no útero e alimentada por via endovenosa para que os nutrientes chegassem ao feto de 17 semanas não foi pacífica, embora, depois, tenha sido aplaudida até pelo Presidente da República.

Surpreendida com a energia da criança, Beatriz Amaral confessa que ver Lourenço “faz o trabalho valer a pena”. Recorda que integrou a equipa que “acompanhou a hora do desespero”, quando Sandra Pedro deu entrada no Hospital de Vila Franca e todos os esforços estavam concentrados em tentar salvá-la. De um jorro, conta o que viveu: “Houve quem não acreditasse que fosse possível salvar o feto. Nunca vou esquecer o momento em que ouvimos o coração. Três dias depois, soube que a mãe estava em morte cerebral e iam tentar preservar o bebé. Acreditei sempre e é fortíssimo vê-lo tão lindo”. Com quatro dentes, muito evidentes a sorrir para todos à volta dele.

Mas persistem dúvidas quanto às consequências de uma gestação tão incomum, mais cercada por máquinas e médicos do que por canções de embalar. “O Lourenço não sofreu de solidão neste hospital, o meu iPod esteve mais de mil horas sobre a barriga da mãe, tocando Vinicius de Moraes”, garante Rui Moreno.

E, de repente, não mais que de repente, Lourenço voltou a surpreender a família. Há semanas disse “mã, mã”. Elisabete Candeias não esconde que foi difícil conter as lágrimas. “Fiquei surpreendida, sem saber o que fazer, mais tarde falei com a psicóloga que é cedo para explicar o que se passou”. Assim, Lourenço ouviu apenas que “a mamã está a fazer um ó-ó grande”.

A vida daquela família tem sido uma montanha-russa de emoções. Como ter de aprender a lidar com o diferendo judicial pela guarda da criança. O tribunal decidiu que Lourenço vive com o pai e os tios-avós paternos. Uma vez por mês passa quatro horas com os pais de Sandra Pedro. Em setembro, nova aventura: vai para o colégio. Questionado sobre esta intensidade emotiva, Miguel Ângelo resume tudo num sorriso: “Passou num instante.”

“Meu poeta, eu hoje estou contente, todo o mundo de repente ficou lindo, ficou lindo de morrer. Eu hoje estou me rindo, nem eu mesmo sei de quê...” Será que um dia Lourenço vai recordar a toada que o embalou, entre os bips das máquinas? Rui Moreno e Susana Afonso não se esquecem. A médica despede-se, congratulando a família: “Estão de parabéns, vê-se que é uma criança contente.” Feliz aniversário, bebé.

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