Sociedade

“Atirou-se a um poço, pobre senhora”: reportagem no lado oposto ao inferno

PAULO CUNHA

Avelar, no concelho de Ansião, tornou-se na última noite um centro de acolhimento para quem foge do fogo. O Atlético Clube Avelarense encheu-se de colchões. E os moradores suspeitam que há muito mais pessoas a chegar

Avelar, no concelho de Ansião, está na linha de fronteira. O céu limpo e as árvores verdes indicam o sul. No sentido oposto fica o inferno, em tons de cinzento, laranja e negro. Como se o céu fossem dois, daqui, da ponte onde estão Horácio e Fátima, mesmo à beira do IC8, não se veem chamas, não se ouvem sirenes, nem gritos. De um lado é domingo, para o outro fica um dos dias mais negros da história recente de Portugal: até àquela hora, 43 mortos num violento incêndio que deflagrou este sábado e, de forma inesperada, destruiu tudo à sua frente nas zonas de Pedrógão, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.

Fátima mal teve tempo de perceber o que lhe aconteceu. Num instante estava a molhar o quintal e a casa, no momento seguinte estava a deixar tudo para trás. “Foi uma questão de segundos e de repente havia fogo por todo o lado. Saímos de casa e fomos para a rua principal”, conta ao Expresso, na ponte à beira do IC8, mesmo à entrada de Avelar. Horácio, o primo, olha para a estrada. Quer sair daqui, mas não sabe como. Chegou às oito da noite de ontem. “Não sei…Estou demasiado cansado, não preguei olho, fale com ela…”

Fátima faz 45 anos amanhã e hoje respira de alívio. Na última noite, “para fugir ao fogo”, andou de ambulância, de jipe, esteve para ser evacuada de helicóptero, mas acabou “por não dar”, correu, gritou. Trouxe as duas filhas com ela, mais um casal de estrangeiros com o neto e um bebé de meses. Fizeram todos o mesmo caminho, durante toda a noite. Até chegarem aqui, onde a estrada está cortada. “O meu sogro tem 92 anos e não quis sair de casa. Tivemos de vir embora, não podíamos ficar… Só consegui falar com o meu marido agora. Ele está bem.”

Por uma noite, Avelar tornou-se um centro de acolhimento. O Atlético Clube Avelarense encheu-se de colchões, de garrafas de água, de sumo, de peças de fruta. “Havia muita gente aqui e tivemos de fazer alguma coisa”, explica ao Expresso Fernando Inácio Medeiros, o presidente do Avelarense. O hospital da terra e a Escola Tecnológica e Profissional de Sicó ficaram para os casos mais graves. “É uma tragédia”, diz Medeiros, que recorda algumas conversas que foi tendo com quem chegava. “Numa altura em que só havia 19 mortos, muitas pessoas diziam que o número ia aumentar. Agora vai em 43...”

Fátima continua na ponte. “Onde eu moro, nos Troviscais, há muitas casas isoladas, muitos estrangeiros a viver longe das aldeias. Espero que não, mas acho que ainda vão encontrar mais pessoas mortas…” Horácio passou mesmo à porta do Avelarense, onde homens e mulheres roubados à rotina do fim de semana carregam paletas de água e sacos com alimentos. Caem faúlhas por toda a parte. “Atirou-se para um poço, pobre senhora”, diz uma mulher. “É o desespero”, lamenta o vizinho. De repente, tudo mudou. Uma mulher diz que o fogo não anda longe, ainda há pouco passou um helicóptero. E há carros por todo o lado e gente na ponte. A noite já passou, o céu azul está a ficar castanho, e ninguém acredita que as más notícias tenham acabado. Para muitos, o pior está para vir.