Sociedade

Estaremos condenados a ver as tragédias repetirem-se?

Marcos Borga

A comparação entre a tragédia de Águeda (1986) e a da madrugada passada. Estamos melhores tecnicamente mas a política floresta regrediu

A 14 de junho de 1986 uma coluna de viaturas onde havia civis e bombeiros foi apanhada pelo fogo numa estrada da serra do Caramulo. Poucos sobreviveram e houve 16 mortos. Esse grande incêndio, cuja reportagem fiz para o “Diário Popular” com os meus camaradas de trabalho Ferreira Fernandes e Eurico Vasconcelos (grande profissional prematuramente desaparecido), tem pontos de contacto com o da última madrugada e a comparação entre as duas tragédias dá-nos um retrato de como o país evoluiu em 30 anos.

Hoje o equipamento de protecção individual (fatos ignífugos, máscaras, etc) dos bombeiros é outro, como o são também o treino e a disciplina táctica. Seria quase impensável uma coluna de viaturas deixar-se apanhar numa armadilha daquelas (uma zona sinuosa, entre barreiras com mata fechada dos dois lados) mas, se por força das circunstâncias isso tivesse sucedido, a taxa de sobrevivência teria sido outra.

O progresso tecnológico foi gigantesco mas não deixa de ter fragilidades: este fim-de-semana boa parte da rede de comunicações de emergência falhou no momento mais crítico porque o SIRESP (parceria público-privada que gere a Rede Nacional de Emergência e Segurança) depende em parte de antenas e estas (tal como as dos telemóveis) podem arder e arderam de facto.

Graças a Deus e ao vinho

Naquela reportagem sobre Águeda o Ferreira Fernandes descobriu numa aldeia perdida na serra, de que agora me escapa o nome, um casal de idosos que tinha estado cercado pelas chamas e conseguira sobreviver. A senhora explicava que o marido – um homem magrinho, já entrado nos anos mas ainda decidido – tinha tido a ideia providencial de ir à adega e atacar os pipos de vinho à machadada. Talvez por o teor de água do vinho ser alto, a torrente de “tinto” pela calçada abaixo funcionou como um pequeno tsunami que afogou as chamas nas redondezas. “Olhe senhor” – dizia ela ao Ferreira Fernandes – “foi graças a Deus e graças ao vinho…”.

Quase 30 anos depois a população rural está muito mais envelhecida e dispersa. Em contrapartida, a taxa de motorização disparou. Os acontecimentos da noite passada provam que, muitas vezes, a fuga à pressa não é a melhor estratégia de sobrevivência. Uma aldeia ou uma praia fluvial (donde algumas pessoas fugiram e acabaram por morrer na estrada) podem dar mais hipóteses de sobrevivência do que tentar conduzir às cegas no meio do fumo, rodeado pelas chamas.

Há sempre hortas, manchas de carvalhal e soutos, linhas de água, poços, etc, que criam descontinuidades à progressão do fogo (que não avança como uma muralha contínua mas por saltos quase quânticos). Nessas zonas as hipóteses de sobrevivência são mais razoáveis desde que se consigam improvisar máscaras respiratórias (na pior das hipóteses toalhas ou panos molhados sobre o rosto e a cabeça). E se mantenha a calma e o sangue frio, coisa que um oficial táctico foi treinado para fazer mas simples civis, não.

Saber estar preparados para o pior

Mesmo na hipótese de fuga em viaturas, a sobreposição entre o mapa da zona e o do incêndio sugere que as hipóteses de sobrevivência teriam sido maiores se, em vez de terem seguido na direcção do incêndio mas também da melhor estrada, o IC8 (para sul), tivessem rolado para norte, a caminho de Castanheira de Pera ou da Lousã. Mas quem estava lá para os comandar?

Ou seja, se estamos condenados historicamente a coexistir com o fogo, então que nos preparemos para isso da mesma forma que os japoneses se preparam diariamente para os sismos. Claramente falta uma pedagogia que ensine as pessoas das zonas potencialmente de risco a reagir em situações de emergência e a saber claramente o que fazer. E meter-se no carro, como ficou provado, pode não ser a melhor solução.

Trabalhar à escala local

Na sequência do fogo de Águeda e de outros grandes incêndios do começo da década de 80 foram lançados alguns programas inovadores que acompanhei, então no semanário “Independente”. Como todas as ideias boas eram simples, exequíveis à escala local e baratas. Por exemplo em Castanheira de Pera foi criado um sistema de rondas 24 horas por dia em parelhas de motos equipadas com rádio que detectavam precocemente qualquer foco de incêndio. A topografia do concelho ajudava: havia um estradão que dava a volta ao concelho – que era relativamente pequeno – pela curva de nível, facilitando a ronda e os avistamentos.

Noutros locais eram programas de abertura de caminhos florestais e sua sinalização, instalação de tanque, de água para as viaturas e helicópteros, etc. Todas estas acções, parte das quais financiada pela Fundação Luso-Americana, tinham a vantagem de não ser “elefantes brancos” mas programas locais nos quais era fácil envolver os residentes, os autarcas, os bombeiros, etc.

Resta o derradeiro ponto, aquele onde menos se progrediu: a política florestal. Tudo o que se conseguiu fazer em matéria de equipamento de bombeiros, serviço de protecção civil, etc, não teve correspondência na gestão da floresta.

Não há política florestal

Na floresta pública, extintos os Serviços Florestais que tinham uma crónica negra (leia-se Aquilino sobre a apropriação dos baldios pelo Estado) mas uma escola e uma notável experiência de décadas, nada foi feito para os substituir. Nos Parques Naturais, fruto de uma política de anos de desmantelamento, nem há verba para o gasóleo, quanto mais para rondas e vigilância (veja-se o que tem sucedido nos últimos anos no Parque Nacional da Peneda-Gerês onde a única directiva aplicada foi deixar degradar completamente a rede de acessos com medo que os “motards” fossem para lá fazer corridas).

A floresta privada (tirando a das celuloses que é ordenada e gerida) não é floresta nenhuma: é um chavascal que arde de 10 em 10 anos quando o mato e as árvores pequenas voltam a brotar e acumulam combustível suficiente.

As excepções merecem ser referidas. A seguir aos fogos de 2003 a Câmara de Mação abriu e sinalizou uma rede de estradões que faz a quadrícula total do concelho e onde só um aselha se perderá. Na Lousã, com uma mata notável do ponto de vista ecológico, a vigilância tem sido exemplar e até hoje (o diabo seja surdo) nada de grave voltou a suceder.

Tal como a política externa de um país é fundamentalmente uma questão de política interna, evitar fogos é fundamentalmente uma questão de política florestal. Foi isso que Ribeiro Telles, Abílio Araújo, Gomes Guerreiro, Azevedo Gomes e tantos outros nos tentaram, quase sempre em vão, ensinar.