Sociedade

“Não sou crente, mas rezei. Todos rezámos. Não havia mais nada a fazer”. Os relatos do medo por quem o viveu

PAULO NOVAIS/LUSA

Maria de Fátima Nunes enfiou-se no carro com o marido e conseguiu escapar ao fogo, mesmo depois de ter o “lume agarrado ao cabelo e à roupa”. O casal que seguia no carro atrás não teve a mesma sorte. Adelaide Silva abriu as portas de sua casa e salvou sete turistas e uma vizinha. Gareth Roberts, inglês, escondeu-se do fogo numa casa desconhecida. Deitou-se no chão, tentando respirar, enviou uma mensagem aos pais a despedir-se e rezou – rezou sem “vergonha”, ele que diz não ser crente – para que o fogo não o levasse. Numa aldeia em que muitos dos quiseram sair acabariam por morrer na estrada, Armando Casinhas agradece ao “anjo” que se sentou ao seu lado no carro o facto de ter sobrevivido ao “tufão de fogo tocado a vento” que devastou Pedrógão Grande. Eis os relatos de alguns sobreviventes

“Um cenário de horror”, “um inferno autêntico”. É assim que Maria de Fátima Nunes, uma das sobreviventes do incêndio deste sábado em Pedrógão Grande, descreve os acontecimentos que viveu nas últimas horas, enquanto tentava escapar ao fogo. “Via-se ali o fim do mundo. Eu achava que não iria conseguir escapar dali. O lume agarrou-se ao cabelo e à roupa. Fiz de tudo para me livrar das chamas. Ninguém pode descrever o que a gente passou”.

Em entrevista à SIC Notícias, Maria de Fátima Nunes explicou que seguia de carro com o marido, no IC8, quando foi apanhada pelas chamas. “O meu marido queimou-se um bocadinho no braço. Eu queimei-me mais. O fogo apanhou-me pelo peito”. A sobrevivente descreve um cenário de horror e momentos de grande aflição enquanto seguia, com o marido, na estrada. “Haviam chamas em cima dos pinheiros e os pinheiros caíam em cima dos carros. O lume vinha de todo o lado, da frente, de trás, de todo o lado. Os carros batiam uns nos outros ao tentarem escapar”. O casal que seguia no carro atrás, conta, não conseguiu sobreviver. “Gritei à senhora para ela sair do carro, mas ela não saiu. O marido saiu, mas morreu mesmo ali”.

No momento em que foi entrevistada pela SIC Notícias, Maria de Fátima Nunes aguardava indicações para saber o que fazer com o carro em que ela e o marido seguiam e que ficou “totalmente queimado”. “Tudo o que tínhamos ficou lá dentro. Documentos, dinheiro, tudo.”

“Atirou-se a um poço, pobre senhora”

Horácio e Fátima também conseguiram escapar ao violento fogo que deglarou em Pedrógão Grande e que já fez, segundo o último balanço oficial, 62 vítimas mortais. Ao Expresso, na ponte à beira do IC8, mesmo à entrada de Avelar, Fátima contou que a rapidez dos acontecimentos – “foi uma questão de segundos e de repente havia fogo por todo o lado” – não lhe permitiu perceber o que estava exatamente a acontecer. “Saímos de casa e fomos para a rua principal”.

Fátima, que estava acompanhada pelo primo Horácio e pelas duas filhas, assim como por um casal de estrangeiros com o neto e um bebé de meses, foi transportada de ambulância e de jipe. Para trás, ficou o seu sogro de 92 anos, “que não quis sair de casa”. “Tivemos de vir embora, não podíamos ficar… Só consegui falar com o meu marido agora. Ele está bem.”

Salvou a família numa carrinha em fuga por entre as chamas

Também em Pedrógão Grande, Hugo Manuel Almeida Santos contou à Lusa que a casa em que vivia – em Figueira, mesmo junto ao IC8, na freguesia da Graça, no concelho de Pedrógão Grande – ficou totalmente ardida. “A casa ardeu toda, ficou tudo queimado, fiquei sem nada. Está tudo, mesmo tudo, desfeito em cinza e carvão”.

Hugo Santos diz que “ninguém sabe explicar” como é que conseguiu salvar-se, bem como à sua família – pai, mulher e filha, de 11 anos de idade. “As labaredas batiam muito forte na carrinha, ainda fui contra um pinheiro e andei por valetas. Temi pela vida de nós todos, pensei que ficávamos lá todos”, afirmou.

“Nunca, por nunca, vi uma coisa comparável a esta”, acrescentou Hugo Santos, que falava à agência de notícias no Hospital de Avelar, no concelho de Ansião (distrito de Leiria), onde o pai, de 57 anos de idade e com “muito pouca mobilidade”, está internado, uma vez que não tem outro sítio para ir.

Paulo Cunha/Lusa

Adelaide, a mulher que salvou sete pessoas da morte

Em Nodeirinho, aldeia de 40 habitantes perto de Pedrógão Grande, Adelaide Silva abriu as portas de sua casa – uma das mais recentes e mais bem preparadas para aguentar as chamas, protegida por grades altas e sem mato à volta, e munida de vidros duplos que não deixaram entrar o fumo – e salvou sete turistas da morte e ainda uma vizinha que perdeu o marido no fogo e que apareceu à sua porta, à meia-noite, “de gatas, de joelhos, toda queimada nas costas, na cara e nos braços”.

Ali, a viúva de 60 anos, a vizinha e os turistas – dois casais e três crianças – aguardaram em segurança a passagem do fogo.

Foi também em Nodeirinho que Gina perdeu a filha, Bianca, e a mãe. Um raio caiu sobre uma árvore, que caiu em cima do carro em que seguiam. Que Cacilda Nunes Henrique, de 75 anos, perdeu o curral e os “30 ou 40 bicos de galinha” que mantinha para sobreviver, conforme contou ao jornal Observador. Esteve a noite toda a tentar combater o incêndio com os poucos meios que tinha – baldes, água e o instinto de se salvar e salvar a sua casa. E que Manuel da Costa, de 60 anos, “perdeu quase tudo” – das sete cabeças de gado, sobram três, duas ovelhas e uma cabra. A casa, essa, ficou “parcialmente destruída”. “Ardeu tudo. Ardeu tudo”, repetiu ao mesmo jornal.

Mas mais grave do que isso é a ausência do filho, de 21 anos, desaparecido desde as 16h00 de sábado. “Fugiu de carro e nunca mais o vimos”.

“Estou numa aldeia. O fogo está por todo o lado. É o fim”

Gareth Roberts, um inglês a morar em Portugal, voltava de umas férias no sul de Espanha e estava a cerca de uma hora da sua casa, na região Centro, quando foi obrigado pela polícia a abandonar o IC8, tal como outros carros que circulavam nessa estrada, e a dirigir-se para a aldeia de Mó Grande (Pedrógão Grande). “Apanhámos uma trovoada enquanto seguíamos pela estrada, mas quando as nuvens dissiparam vimos o fumo. O cenário parecia bastante mau. Mas não tínhamos ideia do quão terrível era até chegarmos mais perto”, relata à BBC Gareth Roberts, de 36 anos.

À medida que subiam a estrada municipal viam as chamas a passar de um lado ao outro da estrada. “O vento atirava ramos a arder contra o carro, mas não podíamos parar. Sentíamos o calor”. Os carros conseguiram chegar a Mó Grande, que já estava rodeada pelas chamas. O ambiente era de desespero total. “Os locais e nós chorávamos, esmagados pelo calor e pela velocidade do fogo. Estava escuro, tão escuro entre as chamas”. Gareth chegou a mandar um sms aos pais: “Estou numa aldeia. O fogo está por todo o lado. É o fim”.

Um homem gritou pelo grupo, chamando-os para um anexo à sua casa, onde estava menos calor e parecia fora da rota do fogo. Alguns foram, outros ficaram, outros ainda bateram à porta mais tarde, sabendo que ali estava mais gente. Lá dentro, conta ainda à BBC, voltou a pegar no telemóvel para comunicar com os pais. Não havia rede. “A última coisa que lhes tinha dito era que ia morrer”.

E assim pensou Gareth durante mais algum tempo. “A luz foi abaixo, as chamas aumentavam, um tornado vermelho passou pela janela. Deitámo-nos no chão durante uma boa hora, a tentar respirar. Não tenho vergonha de dizer. Não sou crente mas rezei. Todos rezámos. Não havia mais nada a fazer”.

O fogo acabou por ir embora. Quando as pessoas que se abrigaram no anexo se levantaram só se via destruição à volta. “Por milagre, a nossa casa e a casa ao lado não tinha ardido”.

Paulo Cunha/LUSA

“Nossa Senhora de Fátima ajudou-nos”

Na aldeia de Vila Facaia, em Pedrógão Grande, uma família contou ao jornal Público como conseguiu escapar ao fogo, separando-se e seguindo direções diferentes, e encontrando-se no final. Lídia, de 54 anos, foi para um lado, a filha, Dulce, de 24 anos, seguiu para o outro, acompanhada por dois sobrinhos.

Lídia descreve o cenário tenebroso que encontrou na estrada, assim que se pôs em fuga: “Era cada vez mais lume. Não se via nada. Seguíamos a linha branca da estrada. Bati com o carro, mas ele voltou a andar. Nossa Senhora de Fátima ajudou-nos. Encontrei um casal, com o carro a arder, que me pedia ‘Socorro, Lídia, salva-nos’, e a porta do meu carro não abria. Mas, depois, lá abriu, eles entraram e seguimos não sei como. Não se via nada, meu Deus. Mas lá fomos ter a Castanheira [de Pera], sem saber nada da minha família.”

Já a filha, Dulce, que tinha seguido para o interior da aldeia, foi obrigada, a dada altura, a inverter a marcha, por causa do avanço das chamas. Foi isso que a salvou. Ela e os sobrinhos acabariam por passar grande parte da noite junto a um tanque. “Voltei para trás e foi a minha sorte”, contou ao jornal Público.

Nas Várzeas, ali perto, o desfecho foi outro, bem mais trágico. Um homem que morava nos arredores de Lisboa, e que fora passar o fim de semana à terra natal, perdeu a mulher e as duas filhas que seguiam numa viatura diferente daquela em que ele tentou fugir com os pais idosos. Cisaltina Silva, de 76 anos, arrisca uma explicação para o sucedido. “Ele deve ter pensado que a mulher vinha atrás dele, mas não se via nada e quando cá chegou de volta, elas não apareceram mais”, disse ao Público.

Foi também nas Várzeas que uma mulher de 73 anos conseguiu sobreviver à passagem do fogo graças ao portão da garagem, que encravou, impedindo-a de abandonar a casa em que vivia. O filho tinha ido chamá-la - “Ó, mãe, vamos embora. Anda, mãe, anda” - mas a mulher, de nome Maria Emília Matias, não conseguiu sair. Foi isso que a salvou. O filho acabaria por morrer na estrada, juntamente com a sua mulher, filho e nora.

Um anjo sentou-se ao meu lado no carro

Em Pobrais, em Pedrogão Grande, aldeia em que muitos dos quiseram sair acabariam por morrer na estrada, Armando Casinhas agradece a Deus e ao “anjo” que se sentou ao seu lado no carro o facto de estar vivo. “Foi um momento tão rápido que só deu para pensar que íamos morrer todos assados. Só me vinha à cabeça a ideia de fugir, mas todos os que fugiram ficaram. Eu fui um dos que fugi, mas tinha um anjo ao meu lado. Naquele inferno de carros a arder tive a sorte de não me pegar fogo no carro. Consegui sair daquele cinema, daquele filme”, contou o homem de 67 anos à Renascença.

Armando não tem dúvidas de que só por “milagre” sobreviveu. “Pensei na morte, que ia ficar ali, que já não saía dali”. Descreve tudo aquilo que aconteceu recorrendo a uma metáfora eficaz mas sobejamente negra: “Isto foi um tufão de fogo tocado a vento.”

Ricardo não teve a mesma sorte. Quando o fogo começou a aproximar-se, o homem de cerca de 30 anos agarrou na sua mãe e fizeram-se à estrada. Poucos metros à frente, foram apanhados pelas chamas, que devoraram o carro em que seguiam.

É Célia, uma vizinha de 45 anos, quem conta o episódio, também à Renascença. Célia pedira-lhe para não partir, para ficar em casa e esperar que o fogo abrandasse. “Ricardo, não vás. Não vás. Deixa aí o carro”, dissera-lhe. Mas Ricardo não lhe deu ouvidos. Disse que não conseguia ficar, que não aguentava aquilo. Então decidiu partir, para ser apanhado pelo fogo uns metros à frente.