Sociedade

A nova vida do sabor a verão

Entraram em Portugal durante a II Guerra Mundial, na bagagem dos refugiados, e conquistaram os portugueses. O doce de frutas acabou substituído 
pelo creme de pasteleiro, mas hoje são mais de uma dezena os sabores existentes. As bolas de berlim têm lojas dedicadas e aplicações móveis

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

tiago miranda

Krof na Eslovénia, krafne na Croácia, Sérvia e Bósnia e Herzegovina, mas também kobliha na República Checa, hillomunkki na Finlândia ou farsangi Fánk na Hungria. As bolas de Berlim que todos os portugueses conhecem são mesmo originais da Alemanha (Berliner Pfannkuchen, Berliner Ballen, Krapfen, Kreppel ou Fastnachtsküchelchen consoante a região) e foi a II Guerra Mundial a trazê-las para Portugal.

De acordo com a historiadora Irene Flunser Pimentel, que conta a história no seu livro “Judeus em Portugal Durante a II Guerra Mundial” (Esfera dos Livros), foram os Davidsohn a trazer a receita para Lisboa, em 1935. A família judia alemã, composta por um casal com duas filhas, veio para a capital portuguesa em busca de uma nova oportunidade para a sua vida e fez o que pôde para se manter. O pai, que era consultor de galerias de arte, passou a dedicar-se à importação e venda de relojoaria, e a mãe, que era química, passou a tratar da casa e das crianças, mas rapidamente enfrentaram novas dificuldades. Para se sustentarem, tiveram de encontrar uma nova solução. No caso dele, passou pela venda ambulante de quinquilharias. No caso dela, pela confeção de bolas de Berlim caseiras.

A família, que acabou por sair do país, estava longe de imaginar que os universos da pastelaria e da venda ambulante continuariam a cruzar-se durante décadas, até aos dias de hoje. As bolas de Berlim sofreram algumas modificações, como a troca do doce de fruta pelo creme de pasteleiro, mas o essencial mantém-se. Uma massa fofa e arredondada, coberta de açúcar, continua a fazer as delícias dos mais gulosos.

UM SONHO DA JUVENTUDE

O negócio da venda de bolas de Berlim no areal tem (não raras vezes) uma raiz familiar e é exatamente essa a história de Alessandro Iuliano. O empresário, hoje à frente da marca Berlineta, começou a interessar-se pelas Berlim bem cedo, no final da adolescência. “Comecei com cerca de 19 anos, a vender bolas de Berlim na Praia da Costa de Caparica, e o negócio pertencia a uns familiares, que faziam este trabalho de forma tradicional”, conta ao Expresso, lembrando os tempos em que estava longe de imaginar que viria a ter duas lojas, espaços de street food e venda ambulante em vários areais. “Fiquei sempre com o negócio na cabeça”, revela, e a vontade de fazer algo relacionado com as bolas de Berlim tornou-se ainda mais forte há quatro anos. “Faço surf há muito tempo, e em 2013 tive a certeza de que queria algo relacionado com a praia, perto do mar. Como o surf era um negócio já com muita concorrência, decidi apostar nas Bolas de Berlim e na street food.”

Para o empresário, o mais importante é mesmo a diferenciação e a qualidade, que não dispensa em nenhuma das suas apostas. Aos sabores tradicionais juntou novas receitas e parte do segredo está na capacidade de produção. “Fazemos várias entregas ao longo do dia, o que garante uma maior frescura ao produto”, explica numa altura em que quer continuar a crescer em comunhão com os lugares em que apostam. Agora prepara-se também para entrar no digital, com uma aplicação própria para Android, a lançar na próxima semana, à qual se seguirá a versão para iPhone. Alessandro sabe que será o primeiro nem o único, mas a verdade é que o número de vendedores nunca impediu que as Bolas de Berlim se esgotassem ao final do dia.

À DISTÂNCIA DE UM CLIQUE

O futuro começou já a desenhar-se e a maior garantia é que vai continuar a ser doce. Numa altura em que são cada vez mais os serviços disponíveis através do smartphone, chegou a vez de também as bolas de Berlim aderirem à tecnologia. A ideia já não é nova, mas só agora se concretizou. “A ideia foi do meu irmão mais novo, há três ou quatro anos”, conta Ignácio Correia, que coordena as operações da aplicação Bolinhas (Bolas de Berlim). “Nós crescemos em Quarteira, frequentávamos muito a praia e queríamos sempre uma bola de Berlim ao final da tarde. Mas nem sempre dava, porque já não havia ou porque os vendedores tinham ido embora mais cedo.”

A Berlineta prepara-se para entrar no digital, com uma aplicação própria para Android, a lançar na próxima semana, à qual se seguirá a versão para iPhone

A Berlineta prepara-se para entrar no digital, com uma aplicação própria para Android, a lançar na próxima semana, à qual se seguirá a versão para iPhone

tiago miranda

Foi da necessidade em causa própria que nasceu a vontade de resolver o problema, mas ainda faltava muito para que a aplicação se tornasse realidade. “Nunca nos tínhamos chegado à frente, mas há dois anos comecei a usar o PhotoShop para ensaiar e acabámos por colocar um desafio aos estagiários na Algardata.” Enquanto aprendiam georreferenciação e design de aplicações, estavam a fazer algo útil. Depois de várias afinações, o projeto deu frutos e já está disponível para os utilizadores. Depois de uma primeira fase em que apenas podia ser utilizada em smartphones Android, a aplicação Bolinhas (Bolas de Berlim) chegou na semana passada ao ecossistema da Apple, o iOS.

Com cerca de duas centenas de vendedores registados (também para estes existe uma aplicação própria) e milhares de clientes a descarregarem a nova aplicação, o projeto lançado por Ignácio Correia já está disponível em praias de todo o país. Basta abrir a aplicação e fazer o pedido ao vendedor, que recebe a encomenda e tem acesso à localização do consumidor. Depois é altura de pagar, mas em dinheiro e fora da aplicação, antes de desfrutar da bola de Berlim.

A cobertura é nacional e já estão presentes noutros mercados, mas o mais difícil será escolher o recheio. Às típicas bolas com e sem creme de pasteleiro juntam-se cada vez mais sabores. Ainda que limitado ao stock de cada vendedor, há a possibilidade de escolher entre propostas tão diferentes como alfarroba, avelã, chocolate, branco, coco, kiwi e limão, às quais se juntam outras como maçã, maçã-canela, maracujá, mirtilo e morango.

Depois do sucesso das bolas, Ignácio Correia quer apostar em produtos como a bolacha americana, as frutas e as bebidas (com e sem álcool), enquanto não chegam os gelados. O principal, recorda, é que se mantenham “no campo dos vendedores ambulantes”, uma vez que não pretendem “concorrer com serviços de estafetas de comida, ou com o Uber Eats”.

Enquanto falava com o Expresso, o responsável pela aplicação descobre algo que o orgulha. “Silicon Valley ja teve dois download”, diz entusiasmado. A equacionar “um rebranding, porque no Brasil e na Argentina as bolas de Berlim chamam-se sonhos”, Ignácio já sonha com outros voos. O Dubai pode ser a próxima paragem das bolas de Berlim.