Sociedade

Editar ADN já é possível

GETTY

A edição de embriões poderá significar o fim de algumas doenças genéticas

Se lhe dissessem que poderia evitar transmitir aos seus filhos doenças genéticas, não conseguiria recusar, certo? Pois bem, cientistas do Instituto Salk, da Universidade de Oregon da Ciência e da Saúde e do Instituto da Coreia para Ciência Básica conseguiram corrigir uma mutação genética em embriões recorrendo a uma técnica de edição de genes. O estudo foi publicado na semana passada na revista “Nature” e pode representar um enorme progresso quer no sucesso de fertilizações in vitro quer em eventuais curas de milhares de doenças causadas por mutações genéticas. Juan Carlos Belmonte, professor no Laboratório Gene Expression, em Salk (EUA), um dos autores da investigação, acredita que, “graças aos avanços na tecnologia das células estaminais e na edição de genes, estamos finalmente a tratar mutações genéticas causadoras de doenças, com impacto potencial em milhões de pessoas”. Contudo, o cientista ressalva que “a edição genética está ainda na infância, sendo por isso crucial prosseguir com a maior das cautelas, prestando muita atenção às implicações éticas”. Membro do Comité de Edição de Genética Humana, na Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina, Belmonte está especialmente habilitado para falar do tema.

Um exemplo do que se poderia conseguir com a introdução desta técnica prende-se com a cardiomiopatia hipertrófica. Esta condição, responsável pela maior parte das mortes súbitas em jovens atletas saudáveis, afeta aproximadamente uma em cada 500 pessoas. É provocada por uma mutação no gene MYBPC, mas na maior parte dos casos só é tardiamente detetada. Ora, os portadores deste gene têm 50% de hipóteses de passar esse defeito aos seus descendentes — e esta técnica permitiria fazer essa correção.

Sérgio Castedo, médico geneticista, responsável pela Consulta de Cancro Familiar da Fundação Champalimaud e pela Consulta de Oncogenética do Hospital de São João, esclarece que “a tecnologia agora usada (CRISPR–Cas9) é conhecida há mais de dez anos, embora o seu enorme potencial só tenha sido descoberto em 2012. Nestes últimos cinco anos, a técnica tem sido usada em muitos laboratórios para modificar genes em células ou animais de laboratório (no IPATIMUP/I3S é usada regularmente)”. Castedo alerta, contudo, ser “improvável que esta técnica venha a ser aplicada a curto prazo na correção de alterações genéticas hereditárias após o nascimento. Quando nasce uma criança com uma doença genética, essa alteração genética está presente no ADN de todas as suas células, ou seja, em biliões de células, não sendo possível corrigir o defeito em todas elas”, explica. “A única forma de o fazer seria ao nível do embrião obtido por fertilização in vitro, corrigindo o defeito existente no ADN”. E aí esbarram contra restrições legais e éticas. No entanto, o médico acredita que, “dada a facilidade de utilização e as suas enormes potencialidades, a técnica irá ter um profundo impacto” na ciência.