Sociedade

Está torto ou morto o horto do Porto?

O Porto é uma marca? O Porto está a sofrer um processo de gentrificação? Espalhar autocolantes com a legenda “Morto.” é uma manifestação de ódio ao Porto?

Foto Rui Duarte Silva

O impagável Diácono Remédios anda por aí. Ressuscita a cada instante, e não há meio, nem vontade, já agora, de o arredar dos caminhos da regeneração. Ele é o salvador por natureza, como bem se recordará quem tem ainda presente a impagável personagem criada na RTP1 por Herman José para a “Herman Enciclopédia” no final dos anos de 1990. Aquela figura seráfica, zeladora dos bons costumes, sempre pronta a interromper momentos, cenas, atitudes, mais arrojadas, vivia, no entanto, atormentada pela perfídia contida nos seus mais secretos pensamentos. Com ar constrangido e tom reprovador, interrompia ousadias com uma expressão depressa assimilada e repetida até á exaustão nas ruas, nos cafés, nos cabeleireiros, até na Assembleia da República: “Não havia nexexidade-e-e”.

Pois não, estarão agora muitos portuenses a pensar, depois de terem lido um enfurecido desabafo de Rui Moreira escarrapachado na sua página do Facebook. Tudo motivado por uns pequenos autocolantes colocados em algumas paredes, caixotes do lixo e outros locais da baixa da cidade com a inscrição “Morto.” feita com o mesmo grafismo e tipo de letra de “Porto.”, o logótipo adotado pela Câmara Municipal em setembro de 2014 .

O autocolante responsável pela ira de Rui Moreira

O autocolante responsável pela ira de Rui Moreira

FOTO Lucília Monteiro

O excesso de zelo, a excessiva preocupação pelo que se imagina possa ser a violação do templo inatacável e imaculado pode descambar numa visão desfocada e com pouca aderência à realidade.

Para lá do facto de Rui Moreira se ter encarregado de dar uma enorme visibilidade pública a algo até ali praticamente desconhecido, sobressai o tom e o modo como o presidente da autarquia, ou alguém por ele, entendeu referir-se a uma ação que se contém algo de provocatório, não faz mais do que explorar a ideia de questionamento do estabelecido sempre muito presente no espírito libertário da cidade.

Os autocolantes são anónimos. Não aparecem acompanhados de qualquer espécie de manifesto e, desse ponto de vista pode, até, considerar-se que são razoavelmente inócuos ao esgotarem-se no ato da provocação em si mesma.

Salvo se, como fez Rui Moreira, ou alguém por ele, se entender embrulhá-los numa espécie de teoria da conspiração justificada pela proximidade das autárquicas. Moreira alega poder presumir, por isso, que os autores dos autocolantes são seus adversários. Ou então são "simplesmente,cobardes que nada têm a fazer ao dinheiro. Em qualquer dos casos, quem o faz odeia o Porto. E odeia uma marca que procura maltratar por puro ódio e por aversão ao sucesso”.

Isto escreve Rui Moreira na sua página do Facebook. Não se tomarão aqui as dores de ninguém. Não se explorará a argumentação dos anónimos autores sobre o seu conceito de cidade, já exposta num texto posto a circular na net, ou bem claro quando associam a “Morto.” outro colante em que glosam um famoso logótipo para escreverem “European Best Gentrification 2017”. Não se assumirá, sequer, qualquer juízo de valor sobre o grau de bom ou mau gosto contido naqueles autocolantes em tudo iguais – na vontade quase anarca de desafiar uma certa autocontemplação contentinha – a tantos outros, sempre anónimos, muito devedores de conceitos de “arte da rua” (“street art”), com mensagens do mesmo género, espalhados pelas ruas de várias cidades do mundo. Porto incluído.

A arte de rua é uma constante das grandes cidades

A arte de rua é uma constante das grandes cidades

FOTO Lucília Monteiro

Porque isso é irrelevante, no sentido em que não passa de uma legítima manifestação, seja ela política, artística, isso tudo junto, ou nada disso, em separado ou em conjunto, era nesse plano que o presidente da Câmara Municipal do Porto deveria ter colocado a questão. Não só não o fez, como recorreu a uma linguagem estranha à imagem criada de Rui Moreira como político com mundo, de grande urbanidade e um imenso cosmopolitismo, refletidos na sua atitude e pensamento.

A proximidade de umas eleições não justifica tudo. Não justifica nada. Porque, com ou sem um ato eleitoral ao virar da esquina, é insustentável esta ideia de que alguém, por eventualmente não gostar das transformações, do rumo, ou das consequências da política seguida por quem gere a cidade, possa ser catalogado como uma espécie de traidor pelo poder vigente. Possa ser visto como alguém que odeia o Porto e se move apenas “por puro ódio e aversão ao sucesso”.

O logotipo oficial criado em setembro de 2014

O logotipo oficial criado em setembro de 2014

FOTO Lucília Monteiro

Tão cioso, como é, das suas raízes, Rui Moreira conhece como poucos a apetência nortenha para o uso do humor e da linguagem como arma, tantas vezes desconcertante. Não é preciso trocar os “bês” pelos vês”. Basta trocar uma letra e todos os sentidos se subvertem. Parte-se de Porto e tropeça-se no horto que pode estar torto, sem daí resultar que algo esteja morto. Pelo menos no sentido literal do termo

Apetece, por isso, voltar à Enciclopédia do Herman para recuperar outra inesquecível expressão, saída das célebres reuniões do “Pê-Nê-Rê-Nê – Partido Nacional da Região Norte” numa esconsa cave. Terminavam em geral à pancada e com alguém a gritar “Senhor engenheiro! Este homem não é do Norte, carago!”. Mesmo se nenhum portuense diria carago e preferiria sempre a outra palavra iniciada por "c". Como muito bem sabe Rui Moreira, que não é engenheiro, mas não quererá deixar de ser um homem do Norte! C!