Sociedade

Três marroquinos denunciaram alegado jiadista de Aveiro

A carta enviada ao Expresso por Abdessalam Tazi, da cadeia de Monsanto

Foto João Carlos Santos

Suspeito de recrutar jovens para a Síria, Abdessalam Tazi escreveu ao Expresso a contar a sua versão. O marroquino, de 63 anos, está em prisão preventiva na cadeia de alta segurança de Monsanto, desde março

Uma carta de três páginas escrita à mão pelo marroquino Abdessalam Tazi veio revelar novos dados num processo de terrorismo de cariz jiadista que passa por pelo menos seis países e envolve uma tentativa de atentado em França.

Num português esforçado, o marroquino de 63 anos, que está desde março em prisão preventiva na cadeia de alta segurança de Monsanto (Lisboa) por suspeitas de ligações a organizações terroristas, queixa-se na missiva ao Expresso que foi denunciado às autoridades portuguesas por três cidadãos marroquinos, um deles irmão mais velho de Hicham El Hanafi, com quem dividia um apartamento em Aveiro há alguns meses e que foi preso em França em novembro do ano passado por preparar um ataque jiadista em Marselha.

A autoria da denúncia contra Tazi foi confirmada por fontes próximas da investigação. O marroquino tornou-se de facto alvo da atenção por parte das autoridades portuguesas (PJ, SIS e SEF) depois de um alerta feito por estes três compatriotas no início de 2015. O ex-polícia marroquino tornou-se suspeito de recrutar compatriotas em Portugal para o Daesh, numa célula que terá operado entre 2014 e 2016 em Aveiro e no Martim Moniz (Lisboa), tendo ligações à Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França e à Síria.

Lucília Monteiro

O relato de Tazi, recluso 93, é diferente. O marroquino diz ter sido alvo de uma cilada por parte dos três marroquinos (cuja a identidade o Expresso optou por não revelar): “Queriam que guardasse droga em minha casa em Aveiro.” Alega que como não obedeceu às ordens do grupo, que continua a viver em Portugal, foi denunciado como sendo um terrorista. “Não sei como se chama isto em português: ajuste de contas, chantagem, vingança ou represálias. Estou aqui só por culpa de três mentirosos marroquinos”, escreve. Esta versão é, porém, desmentida por fontes ligadas à investigação.

Contactada pelo Expresso, Alzira Coutinho, a advogada oficiosa de Abdessalam Tazi, critica o facto de o Ministério Público se basear apenas nos depoimentos dos três marroquinos, que são testemunhas acusatórias. E também em “papéis escritos em árabe” encontrados no apartamento do 3º andar de Aveiro dividido por Tazi e El Hanafi. “Documentos que podem nem pertencer ao meu cliente”, argumenta. De resto, prefere não se alongar no processo.

Prisão na Alemanha por burla

Abdessalam Tazi chegou a Portugal em outubro de 2013, com identificação falsa, fugido (justificou ele à chegada ao aeroporto de Lisboa) dos que o perseguiam no país natal, onde era polícia e opositor do regime. Detetado durante o controlo documental, pediu asilo evitando o retorno imediato. No mesmo voo TAP, rota Casablanca-Bissau-Lisboa, viajava Hicham El Hanafi, também com passaporte falso, também a requerer, à chegada, asilo por questões ideológicas, enquanto elemento do revolucionário Movimento 20 de Fevereiro.

Se não se conheciam até aí (não foi possível provar o contrário) passaram a ser amigos no centro de acolhimento para refugiados, em Lisboa, para onde foram transferidos enquanto decorria o processo de asilo (os requerentes de proteção internacional são autorizados a permanecer em território nacional até à decisão).

De acordo com várias fontes da investigação, Abdessalam Tazi terá começado aqui a sua função de recrutador do Daesh, entre os magrebinos do centro. E também, fora, no coração de Lisboa. Aveiro torna-se um polo da célula terrorista com a transferência dos dois, decidida pela Segurança Social, para a Fundação CESDA (Centro Social do Distrito de Aveiro) e, mais tarde, para um apartamento no centro da cidade. Aí o recrutamento continua, tanto por Abdessalam Tazi, como pelo discípulo Hanafi. No terreno e no Facebook.

No final do verão de 2015, o SEF concluía que Abdessalam Tazi era “um radicalizador” e Hicham El Hanafi “um futuro operacional” e passou a investigação para a Unidade Nacional contra Terrorismo da PJ, que abriu oficialmente um inquérito. O SIS também ficou de olho neles. Hanafi não foi, porém, o único recrutado.

Nem o primeiro. As autoridades sabem de casos de “vários jovens, todos de nacionalidade marroquina” radicalizados pelo ex-polícia e que já não se encontram em Portugal. Em Aveiro ainda vivem alguns dos rapazes que frequentavam o apartamento do 3º andar mas, dizem os investigadores, “esses que ficaram são os espertos, os que rejeitaram a lavagem” do islamita.
Tazi, que costumava viajar para fora de Portugal, acabou por ser preso em Dusseldorf, na Alemanha, no verão do ano passado, acusado de fraude informática na utilização de cartões de crédito.

“Nunca foram recolhidas provas suficientes para o deter em território português”, diz uma fonte oficial. Cumprida a pena na Alemanha foi extraditado para Portugal em março e ouvido pelo Ministério Público, por suspeitas de ligações a organizações terroristas. Está em prisão preventiva em Monsanto desde essa altura.

Suspeita de atentado em Marselha

O jovem companheiro no apartamento de Aveiro, Hicham El Hanafi, foi detido em novembro do ano passado, em Marselha, França, suspeito de integrar um grupo de sete radicais, fiéis ao autoproclamado Estado Islâmico, que se preparava para realizar vários atentados naquele país no dia 1 de dezembro. Seria responsável por angariar o dinheiro necessário para a compra das armas a usar em vários alvos como a Disneylândia de Paris, o mercado de Natal dos Campos Elísios, o Palácio da Justiça na capital, a sede dos serviços secretos, a estação de metro de Charonne, uma igreja, esplanadas, entre outros locais.

O Expresso sabe que Hanafi continua detido em França.