Sociedade

Novos soldados com velhos traumas de guerra

Soldado portuense de 44 anos com stresse pós-traumático 
fotografado na sala de casa, pintada com motivos tropicais. Desde a missão em Timor-Leste que convive com os fantasmas da guerra

Rui Duarte Silva

Militares preparados para o pior, estiveram em cenários de guerra, desde a Bósnia em 1996, e voltaram com stresse pós-traumático. Ninguém sabe quantos são

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Duarte está fora de combate há mais de uma década mas tem a farda e a boina sempre por perto. Fez parte das forças especiais na Bósnia e no Kosovo, no final dos anos 90. Mas um acidente de viação em Timor-Leste, no final do ano 2000, resultado de uma troca de tiros e cujos pormenores se recusa a revelar, atirou-o para um lado negro. Hoje, sofre de lesões graves na coluna, nos joelhos e num braço e tenta ultrapassar os traumas psicológicos que, diz, o levaram a dois divórcios e a tentativas de suicídio. “Fazem-nos crer que somos super-heróis mas se cometemos um erro levamos porrada de toda a gente”, conta o cabo-adjunto de 44 anos, que fez o curso de Comandos e esteve nos paraquedistas.

Depois do acidente em Baucau foi transferido para Darwin, na Austrália, e acabou por regressar a Portugal, tendo sido internado no hospital militar de Coimbra durante um ano e meio. “Tenho muitas insónias, chego quase a estar dez dias sem dormir, e com muitas oscilações de humor. Quem me aguenta assim?”, reconhece. As imagens de soldados, vítimas de armadilhas que os deixaram sem partes do corpo, assolam-no dia e noite.

Ainda assim, dezassete anos depois, sente-se melhor, principalmente depois de tirar cursos de osteopatia e quiropraxia mas continua a ir às consultas semanais de psicologia, no Porto, onde vive. Garante que alguns ex-colegas com quem mantém contacto têm vergonha de revelar o mesmo tipo de problemas. “Entre as forças especiais há ainda mais tabus em falar sobre as fraquezas.” E nem os pais compreendem. “Quando me queixo respondem: Tu é que quiseste ir para lá.”

Duarte — o nome é fictício — era acompanhado pelo psicólogo clínico Ricardo Pinho no hospital militar do Porto, que se recorda bem do caso: “No início, ele estava desorientado, com profunda angústia e muita raiva. Agora é um osteopata reconhecido, que se ajudou e ajuda muita gente. Nem todas as pessoas que passam por experiências traumáticas conseguem fazer esta mudança de narrativa.”

Saber o total de soldados portugueses vítimas de stresse pós-traumático que participaram em cenários de guerra e missões de paz desde a Bósnia, em 1996 — a primeira missão em larga escala fora do território nacional após a guerra colonial — é uma missão impossível. Não há dados oficiais nem oficiosos. Nos meios militares, há apenas uma certeza: o número é muito inferior aos que estiveram no Ultramar (embora neste caso também não haja estatísticas) sobretudo porque os antigos combatentes iam obrigados e sem preparação para a guerra enquanto os novos soldados vão voluntariamente.

Um dos poucos estudos sobre o tema foi realizado em 2012 pela Universidade do Minho, que inquiriu 113 militares dos Comandos que tinham ido para o Afeganistão. Do total, 3% revelava todos os sintomas da doença enquanto 9% tinha sinais parciais de stress de guerra, números abaixo da média dos veteranos norte-americanos e semelhantes aos do Reino Unido que também combateram naquele país.

Uma das pessoas que melhor dominam o tema é o brigadeiro-general-médico António Tomé, diretor do Hospital das Forças Armadas (HFAR) de Lisboa e do Porto. O militar estima que haverá entre 20 a 30 casos de soldados mais novos com stresse pós-traumático. “A maior parte é acompanhado em consultas médicas”, garante. Uma ideia contrariada por Ricardo Pinho, que acredita que haverá muitos militares com esta patologia fora do sistema (ver entrevista).

Três gerações, o mesmo problema

A confirmarem-se os dados de António Tomé trata-se de um número relativamente baixo, já que nos últimos vinte anos cerca de 40 mil soldados fizeram parte de unidades portuguesas no estrangeiro. O diretor do HGAR enumera alguns fatores que podem ter levado à diminuição de casos. “As missões são sobretudo de manutenção de paz, mais curtas e menos numerosas. Os militares vão mais informados sobre o conflito, são mais bem selecionados, têm maior preparação antes de viajar e continuam a ter acompanhamento quando regressam”. Ainda assim, o diretor do HFAR reconhece que uma missão como a de Timor “deixou marcas em muitos militares”.

Um dos pacientes acompanhados no HFAR — que vai abrir uma nova unidade de internamento na área da saúde mental — é Joaquim, militar de 40 anos que esteve no Afeganistão. Ele não esquece a “noite terrível” e “imensamente gélida” em que a sua equipa, que tinha por missão garantir o apoio aéreo às atividades das forças no terreno, perdeu um dos seus camaradas. A morte inesperada tornou-o num homem “ansioso, agressivo, impaciente” e a ter o pesadelo recorrente em que é enviado à força para Cabul. Devido às consultas no HFAR, onde fez várias terapias e conseguiu falar pela primeira vez sobre o assunto, sente-se “razoavelmente melhor”.

Para António Lima Coelho, da Associação Nacional de Sargentos, o stresse pós-traumático começou a ser encarado com maior abertura, ainda assim moderada. “Muitos militares ainda consideram que ‘macho que é macho’ não se queixa.” E lembra que há casos de pais, filhos e netos com o mesmo problema. “Temos em Portugal três gerações que sofreram e sofrem dos efeitos do stresse de guerra.”

  • Hugo Franco

    Licenciado em Ciências de Comunicação no ISCSP. Jornalista da secção de Sociedade e autor do livro ‘Os Jiadistas Portugueses’. Lisboeta e sportinguista, um pouco desiludido. Prefere o Facebook ao Twitter e ainda não entrou na onda do Periscope.