Sociedade

Ministro da Saúde é a favor da canábis mas com controlo e não na forma fumada

Adalberto Campo Fernandes, ministro da Saúde

ANDRE KOSTERS / LUSA

Adalberto Campos Fernandes diz concordar com a utilização da droga para fins terapêuticos, desde que se insira num “enquadramento científico rigoroso e com sistemas de farmacovigilância muito potentes”

O ministro da Saúde manifestou-se esta sexta-feira a favor do uso da canábis para fins terapêuticos, desde que bem regulada e com enquadramento rigoroso.

Em entrevista esta sexta-feira à Antena 1, Adalberto Campos Fernandes entende que vai ser possível introduzir com rigor a canábis como opção terapêutica agora que os diplomas do Bloco de Esquerda e do PAN vão ser debatidos na comissão parlamentar de Saúde.

Um dia depois de o assunto ter sido debatido no Parlamento, o ministro diz que concorda a utilização da canábis para fins terapêuticos, mas não com a sua forma fumada, indo assim ao encontro da posição da Ordem dos Médicos.

"Concordo em termos que seja regulada pela Autoridade Nacional do Medicamento, com enquadramento científico rigoroso e com sistemas de farmacovigilância muito potentes", afirmou.

Na quinta-feira, os projetos de lei do BE e do PAN para a utilização terapêutica da canábis baixaram, sem votação, à comissão parlamentar de saúde.

A Ordem dos Médicos reconheceu já que existe forte evidência da eficácia da canábis nalguns usos terapêuticos, mas avisa que a sua prescrição deve ser exclusivamente médica, enquanto medicamento e não na forma fumada.

Um parecer do Conselho Nacional da Política do Medicamento da Ordem dos Médicos, permite considerar a potencial utilização da canábis nalguns casos, como no alívio da dor crónica em adultos, como anti-vómito no tratamento do cancro, na esclerose múltipla ou no controlo da ansiedade.

O parecer indica, contudo, que o uso de canábis ou canabinoides como medicamento de uso humano deve ser sujeita a aprovação pelas entidades regulamentares em saúde", como a Autoridade Nacional ou Europeia do Medicamento.

Além disso, a Ordem dos Médicos avisa que, pela sua potencial toxicidade, a prescrição da canábis deve ser exclusivamente médica e com regulamentação específica, como é feito com os derivados de morfina, por exemplo.

O parecer aponta para desafios concretos no uso de canábis para fins terapêuticos, sobretudo em relação ao consumo direto da planta de canábis, lembrando que "nenhum país europeu autoriza atualmente a canábis fumada para fins médicos".

Sobre a segurança do uso da canábis, o parecer aponta para uma associação entre o seu consumo e o desenvolvimento de dependência, esquizofrenia e outras psicoses, bem como agravamento de dificuldade respiratória.

Quanto à eficácia da canábis no uso clínico, a Ordem considera que existe forte evidência no tratamento da dor crónica, como anti-emético associado ao tratamento oncológico (anti-vómito), no auxílio do tratamento da esclerose múltipla e no controlo da ansiedade.

Existe ainda moderada evidência sobre o uso de canábis na melhoria do sono em pessoas com apneia obstrutiva do sono, fibromialgia, anorexia por cancro e stress pós-traumático.

O parecer recorda que não existe contudo ainda qualquer evidência que permita verificar eficácia da canábis no tratamento do cancro, sintomas de intestino irritável, epilepsia, esclerose lateral amiotrófica, doença de Parkinson ou esquizofrenia, apesar dos estudos desenvolvidos nestas áreas.