Sociedade

Guardem os jornais depois de lidos. Eles valem dinheiro

O início da I Guerra Mundial fez disparar o preço do papel de jornal em toda a Europa. A imprensa portuguesa viveu então uma das suas grandes crises, mas encontrou soluções criativas para seguir caminho

D.R.

Falta papel na Europa como nunca se viu e o preço desta matéria-prima sobe sem parar. Há precisamente 100 anos, um diário lisboeta anunciou com grande destaque na primeira página que ia comprar os jornais velhos que os leitores já tinham lido. Nos 45 anos do Expresso, esta é uma viagem como nunca se fez pelo mundo dos jornais. Como se forma o preço, quanto se gasta em papel, salários e outros custos

Mais do que um apelo, era uma ordem, uma interpelação aos leitores: “Guardem os jornais depois de lidos!”, que os tempos são de crise e a guerra que atravessa a Europa provoca escassez de comida, medicamentos e matérias-primas. Há falta de géneros alimentícios em Lisboa, e os que existem estão a preços que ninguém pode pagar: o pão de que os portugueses tanto gostam aumentou 200%, a farinha 400%, os ovos 130%.

O papel de jornal, que antes da I Guerra Mundial, custava oito centavos por quilo, já está nos 50. A nossa viagem transporta-nos ao mês de janeiro de 1918, quando passaram pouco mais de três anos desde o início do conflito e a participação do nosso país na beligerância tem menos de dois. Os jornais são o único meio de informação disponível para os portugueses e restantes povos europeus saberem novas sobre os avanços das tropas aliadas e inimigas.

A rádio só surgirá na década seguinte, e as comunicações por telefone são caras e inacessíveis às famílias que têm militares em combate nesta guerra, que irá fazer mais de dois milhões de mortos.

Numa operação que atualmente seria vista como uma excelente campanha de marketing, o “Diário de Notícias” apelou aos leitores para pouparem o que “dantes se desprezava”.

Cúmplice, o DN de 30 de janeiro de 1918 diz aos leitores para guardarem os jornais depois de lidos porque o papel pode ser usado para outros fins. É o próprio DN que monta um serviço de recompra, por 25% do valor da edição do dia

Cúmplice, o DN de 30 de janeiro de 1918 diz aos leitores para guardarem os jornais depois de lidos porque o papel pode ser usado para outros fins. É o próprio DN que monta um serviço de recompra, por 25% do valor da edição do dia

BIBLIOTECA NACIONAL

Oito anos antes antes de o “Diário de Notícias” anunciar o serviço de recompra de jornais usados, “cada conversação telefónica de cinco minutos” dentro da cidade de Lisboa custava “1 tostão, ou seja, dez vezes o preço de um jornal diário”, que era de 1 centavo, refere Júlia Leitão de Barros na sua tese de doutoramento, “O Jornalismo Político Republicano Radical”.

A edição matutina de “O Século” custava 1 centavo [10 réis] desde a sua fundação, tal como acontecia com o “Diário de Notícias” e outros quotidianos. Mas, em 1916, ano em que Portugal entrou na Grande Guerra, os preços subiram todos em flecha, e os jornais mais frágeis ou com menos apoios partidários acompanharam a tendência.

A 30 de janeiro de 1916, “A Capital” opta por confiar “simpatia” e atenção dos leitores para sobreviver para subir o preço

A 30 de janeiro de 1916, “A Capital” opta por confiar “simpatia” e atenção dos leitores para sobreviver para subir o preço

ARQUIVO GESCO

“A Capital” e muitos outros títulos duplicaram o preço, para 2 centavos, no dia 1 de fevereiro, depois da crise do papel ter sido manchete em todos os jornais. A edição vespertina de “O Século” acompanhou esta tendência.

A preços atuais, matutinos como “O Mundo”, “O Século” e “Diário de Notícias” − que continuaram a ser vendidos a 1 centavo em 1916 − custariam 15 cêntimos atualmente, depois de aplicado o coeficiente de desvalorização, enquanto a edição vespertina de “O Século” ou “A Capital” e outros títulos que aumentaram o preço para 2 centavos, já valeriam 30 cêntimos.

“A Capital” de 27 janeiro de 1916 destaca a escassez de mantimentos em Lisboa

“A Capital” de 27 janeiro de 1916 destaca a escassez de mantimentos em Lisboa

ARQUIVO GESCO

Portugal entrou na verdadeira época mediática, meio século antes, com a fundação do “Diário de Notícias”, em 1865. Para o investigador Luís Costa Dias, o aparecimento de O Século, em 1881, foi outro elemento decisivo para este “processo de massificação mediática”. É a época em que surgem os jornais-empresas que se apoiam na angariação de publicidade para viverem, e garantirem informação independente e variada aos leitores.

O jornal moderno “não pode ser o órgão de um partido”, afirmava O Século no 1º dia de janeiro de 1917, época em que o jornal já tinha duas edições diárias.

No artigo sobre a missão da imprensa, O Século lembra que “o jornal moderno para conservar todo o seu valor, todo o seu prestígio não pode ser o órgão de um partido”

No artigo sobre a missão da imprensa, O Século lembra que “o jornal moderno para conservar todo o seu valor, todo o seu prestígio não pode ser o órgão de um partido”

BIBLIOTECA NACIONAL

Os jornais eram um organizador social, um diferenciador e um motivo de encontro: quem não sabia ler frequentava locais públicos ou casas de conhecidos onde se faziam leituras em voz alta. Na província, onde os jornais chegavam normalmente pela rede de assinaturas, era normal a mesma pessoa, se tivesse posses, assinar mais do que um título; como era usual as coletividades ou algumas casas particulares abrirem portas para a leitura em voz alta ao serão.

Em 1916, os jornais de Lisboa imprimiam “cerca de 300 mil exemplares por dia. Se se pensar que o país tinha, nesta altura, cerca de cinco milhões de habitantes, dos quais apenas um quarto sabia ler, que em Lisboa vivia meio milhão de pessoas, e considerando que cada exemplar de jornal era presumivelmente lido por mais de um leitor, pode concluir-se, sem exagero, que a imprensa fazia parte do quotidiano de praticamente todas as pessoas que sabiam ler”, escreveu Luís Trindade num capítulo de “A crise do Liberalismo”, editado pela Objetiva.

No final do século XIX, início do século XX, o jornal era um elemento presente na vida social, como se vê pela foto neste palco

No final do século XIX, início do século XX, o jornal era um elemento presente na vida social, como se vê pela foto neste palco

Espólio Ferreira da Cunha

Enquanto locais de trabalho, os jornais garantiam a subsistência de milhares e milhares de famílias em todo o continente. Só em Portugal, o diário republicano “O Século” − o primeiro a usar imagens na imprensa nacional − garantia o pão a 2500 famílias, que iam de jornalistas a tipógrafos, de angariadores de anúncios a ardinas, entre tantas outras funções que a cadeia de produção exigia. O Século detinha outras publicações, como a revista “Ilustração Portuguesa”, e tinha duas edições diárias, uma matutina e outra vespertina.

A crise do papel atravessava toda a Europa, e tinha um impacto dramático em termos políticos e sociais. É neste contexto de luta pela sobrevivência que o Diário de Notícias ‘maquina’ a estratégia da recompra, quando anuncia o aumento de 1 para 2 centavos.

A inflação nesses anos foi brutal, como se constata pelos coeficientes de desvalorização da moeda que todos os anos são publicados em Diário da República: 3035,6 para 1916, 2423,39 para 1917 e 1729,02 para 1918. Recorde-se ainda que o escudo − moeda legalmente instituída em maio de 1911 − se dividia em cem partes iguais, denominadas centavos. Cada centavo valia dez réis e assim 20$00 eram 20 mil réis (a transição do réis para o escudo fez permanecer referências à moeda da monarquia durante décadas); um tostão eram 10 centavos... um vintém, dois centavos.

A crise do papel foi um tema permanente nas primeiras páginas de todos os jornais portugueses em janeiro de 1918. Nesta primeira página de “A Manhã”, as contas ao preço do quilo de papel

A crise do papel foi um tema permanente nas primeiras páginas de todos os jornais portugueses em janeiro de 1918. Nesta primeira página de “A Manhã”, as contas ao preço do quilo de papel

BIBLIOTECA NACIONAL

Era imperativo manter leitores ou perder o menor número possível de compradores: “Os leitores do Diário de Notícias, que sejam poupados e que desejem minorar o prejuízo causado pelo aumento desta folha guardem, portanto, os jornais depois de lidos, e não os deteriorarem nem percam, porque, depois descontado o preço por que os venderem, fica-lhes afinal cada exemplar de 4 páginas a 15 réis, pouco mais ou menos”.

De fevereiro de 1918 em diante, é a própria empresa do Diário de Notícias quem pagará “aos leitores habituais desta folha os exemplares publicados à razão de 800 réis [80 centavos] cada 5 kilos (quantidade mínima)” ou 2$500 cada arroba [15 quilos]. O jornal estabeleceu assim um ‘contrato’ implícito com os seus compradores de forma a tornar mais suave o aumento para 2 centavos da edição diário deste matutino.

Última edição da manhã de “O Século” a 1 centavo. No dia seguinte, 1 de fevereiro de 1918, os leitores iriam pagar o dobro pela edição da manhã do diário lisboeta: 2 centavos, ou seja 1 vintém

Última edição da manhã de “O Século” a 1 centavo. No dia seguinte, 1 de fevereiro de 1918, os leitores iriam pagar o dobro pela edição da manhã do diário lisboeta: 2 centavos, ou seja 1 vintém

BIBLIOTECA NACIONAL

Cinco horas para fazer um jornal, 40 minutos para o ler

“Eis a traços largos como o leitor compra, por dez réis, um jornal que apresenta 40 minutos de leitura interessante, elaborada em cinco horas, impresso em três segundos, que custa à administração só em duas verbas, mais de metade do seu valor, isto é três réis para o vendedor, quase três para o papel, ficando por acudir quase todas as outras despesas forçadas: pessoal da redação, administrativo, tipográfico e impressor, máquina, renda de casa e outras verbas obrigatórias, menos de cinco réis por cada exemplar. Hão-de convir que não é caro”, escreveu o jornalista Eduardo de Noronha no livro “Vinte e cinco anos nos bastidores da Política”, publicado em 1913.

Certo é que o peso do papel no custo final da edição era muito maior nessa época do que atualmente. A Associação Portuguesa de Imprensa disse ao Expresso que estima em 20% do custo total as verbas destinadas a papel e impressão.

Impressa em papel de melhor qualidade, a revista Illustração Portugueza debatia-se ainda com o aumento do custo do zinco que a Grande Guerra fez subir

Impressa em papel de melhor qualidade, a revista Illustração Portugueza debatia-se ainda com o aumento do custo do zinco que a Grande Guerra fez subir

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

Os dois grandes diários da capital eram os preferidos dos leitores; a publicidade não era alheia a esta preferência e os pequenos anúncios que publicavam funcionavam como uma espécie de serviço ao leitor, já que tudo o que era necessário saber estava anunciado no jornal. Tanto o Diário de Notícias como O Século “eram estruturas empresariais que se distinguiam por fazer um jornalismo diverso dos seus parceiros, um jornalismo informativo em vez de um jornalismo de opinião”, refere Júlia Leitão de Barros na sua tese de doutoramento.

Só que opinião e informação não tinham exatamente o mesmo significado mediático que lhe damos hoje, e isso explica “a razão que levava a classe média e alta a comprar ou assinar mais do que um jornal”, diz Barros ao Expresso: era preciso ler vários periódicos, de várias correntes, para saber o que se passava.

A “vertente financeira é uma das facetas mais obscuras da vida dos jornais” nas últimas décadas do século XIX, primeiras do século XX, como refere Júlia Leitão de Barros na sua tese de doutoramento. Mas, “ao contrário de outros aspetos da atividade do jornal, dispomos de informações sobre publicidade”, nos primeiros anos do século XX; e o “pequeno anúncio barato (20 réis a linha) ajudaria ao constante crescimento de anunciantes de uma média diária de 48, em 1865, para 707 em 1913”, acrescenta Barros.

Anúncio publicado num jornal de Lisboa em janeiro de 1916

Anúncio publicado num jornal de Lisboa em janeiro de 1916

BIBLIOTECA NACIONAL

O Século foi o primeiro jornal português a abrir uma delegação no estrangeiro. Em 1913, Paris era quase o centro do mundo, e a Rue des Capoucines foi o local escolhido para esta aventura na internacionalização de um órgão de comunicação português.

A “agência”, dirigida pelo jornalista Paulo Osório, “terá minuciosa e escrupulosamente organisado um serviço completo de informações para ser útil não apenas aos portuguezes que vizitam a França, mas a todos os nossos comerciantes e industriaes que procurem divulgar no estrangeiro os seus produtos e a todos os comerciantes e industriaes francezes a quem a propaganda no nosso paiz possa convir”.

Na delegação de O Século, os “portuguezes de passagem em Paris encontrarão o meio mais económico e mais comodo de se instalar em hoteis confortaveis pelos preços mais módicos, em frequentar os teatros, em fazer excursões, em comprar nos melhores estabelecimentos em condições excecionalmente vantajosas, dadas as reduções de preços que conseguimos obter-lhes”, lia-se numa das edições de novembro da revista Ilustração Portuguesa, um magazine com dez anos de publicação.

O Século abriu uma delegação em Paris no verão de 1913. Em novembro, a Illustração Portugueza, revista da mesma empresa, fez uma reportagem sobre a internacionalização do diário

O Século abriu uma delegação em Paris no verão de 1913. Em novembro, a Illustração Portugueza, revista da mesma empresa, fez uma reportagem sobre a internacionalização do diário

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

Aquilo que hoje chamaríamos o grupo editorial O Século editou a revista Ilustração Portugueza entre o final de 1903 e 1924. Em 1913, quando o grande diário lisboeta abriu a sua delegação em Paris, a revista vivia uma boa fase. “O império d’ O Século no seu conjunto (muito particularmente a Illustração Portugueza, que aqui importa destacar), contribuiu como nenhum outro jornal ou grupo jornalístico para o crescimento e a afirmação da profissão de jornalista e da autonomia do género jornalístico”, escreve Luís Costa Dias no artigo “Personagens inventadas: jornalismo e ficção na I Grande Guerra mediática (1914-1918)”, a publicar na revista Mediapolis.

O início da I Guerra Mundial teve consequências na vida dos jornais: se, por um lado, fez com que a informação fosse um bem muito mais necessário, por outro, determinou o aumento e escassez das matérias primas necessárias à vida dos jornais como o papel e o zinco, usado para a fotogravura.

Antes da guerra, era não era difícil criar um jornal diário; bastavam “recursos humanos e financeiros, relativamente escassos. Difícil era mantê-lo”, escreve Júlia Leitão de Barros na sua tese: “As conjunturas políticas mais conflituosas podiam ajudar a reunir o capital inicial e redações voluntariosas. Alguns jornais contavam, na sua fase de arranque, com custo zero para o trabalho redatorial”.

O início da I Guerra ditaria uma escalada de preços em toda a Europa. A censura também se faria sentir neste período, deixando inúmeros espaços em branco nas páginas dos jornais e títulos suspensos por tempo indeterminado. Mas, mesmo depois de lidos, os jornais continuaram a ter valor incorporado. De outra forma, não teria sido possível recordarmos a crise do papel em tempos de guerra, nem recuperarmos estas páginas.

  • O que a história dos jornais portugueses nos ensina sobre políticos que assustaram o mundo

    Há quem diga que é obviamente exagerado e há quem defenda que é particularmente adequado estabelecer comparações entre algum do pensamento de Trump e o raciocínio de ditadores do passado. Num tempo de fraturas na sociedade, de fake news, de propagação aceleradíssima dos factos noticiosos e de grande preocupação com o que vem dos EUA, viajamos no tempo e mostramos como é que no passado os jornais portugueses acompanharam a ascensão política de personalidades que acabaram por se tornar protagonistas de ditaduras. São lições da História para percebermos as inúmeras diferenças e algumas semelhanças entre o que se passa agora e o que ocorreu no início do século XX

  • Foi o primeiro jornal português. E ajudou D. João IV a consolidar o poder em 1640

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