Sociedade

Carlos voltou a Portugal mas ainda não tocou no filho. Nem lhe deu o próprio nome

rui duarte silva

O pior ferido do incêndio de Pedrógão regressou a Portugal. Mas não regressou a casa. Nem carregou o filho bebé no colo. Nunca lhe tocou. Depois de ter tido 85% do corpo queimado no incêndio de 17 de junho do ano passado, Carlos foi transferido para Espanha para receber extensos transplantes de pele. Esta quarta-feira voltou para ser internado novamente. Ele que ainda não pode assumir legalmente a paternidade do filho

Quando Pedro nasceu, Carlos estava internado em Valência, Espanha. Nunca o beijou, o adormeceu ou lhe trocou uma fralda. Pior, não lhe deu o próprio apelido. E só recuperou a consciência em novembro. Patrícia, a companheira, foi pai e mãe desde que o incêndio de Pedrógão fez do pai do seu filho o ferido mais grave daquela tragédia. Esta quarta-feira, Carlos regressou a Portugal. Há dois meses que Patrícia não o via. Veio transferido do hospital espanhol La Fé para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC). O bebé ainda não pode entrar no local onde o pai está agora a recuperar.

Quando Carlos foi apanhado pelo fogo naquela tarde de 17 de junho estava acompanhado do irmão de Patrícia e por um empregado do cunhado. Apanhavam lenha. Em casa, a mulher, Patrícia, então grávida de oito meses, via crescer o fogo a par e passo com os receios. À noite vieram as más notícias, Carlos tinha sido encurralado pelas chamas e ficara gravamente ferido, entre as aldeias de Mosteiro e Troviscais.

A primeira vez em que Patrícia viu Carlos foi difícil, muito difícil. Afinal, ele ficara com 85% do corpo queimado. Era outro. Estava cercado por fios e tubos, inconsciente. Dois dias a seguir ao incêndio foi transferido para uma unidade hospitalar em Valência. Portugal não tinha capacidade para realizar um tão extenso transplante de pele. Patrícia ficou.

Um mês depois do incêndio, Patrícia sentiu outras dores, as dores do parto. Pedro chegou e Carlos continuava inconsciente em Valência. E quando, ainda no hospital, a mãe tentou registar a criança, disseram-lhe que como não era casada e o pai estava ausente, Pedro só poderia ter o apelido dela. Assim foi. Depois, explica ao Expresso, no dia a seguir ao regresso de Carlos foi chamada ao tribunal e teve de explicar as suas circunstâncias. Foi então aberto um processo de averiguação oficiosa da paternidade e a criança ficou registada apenas com o nome da mãe. Agora, com o regresso do pai, Patrícia terá de informar o Ministério Público de que Carlos está de volta, mas que ainda não pode assinar. As feridas estão cicatrizadas, mas esperam-no muitos meses de fisioterapia intensa.

Questionado pelo Expresso, o advogado especializado em Direito de Família Nuno Cerejeira Namora explica que terá de ser feita uma “perfilhação posterior”, ou seja, um ato de reconhecimento voluntário da paternidade pelo pai biológico da criança feito através de um assento de Perfilhação” a lavrar em Conservatória do Registo Civil. "Ou caso a mãe consiga, pode convencer o conservador do Registo Civil a deslocar-se ao hospital, onde o pai prestará uma declaração verbal perante testemunhas. Não precisa de assinar", explica Cerejeira Namora.

Carlos, Patrícia e Pedro ainda não estiveram reunidos como família. Patrícia já mostrou ao companheiro fotografias do bebé e a criança foi vista pelo pai através de um vidro. O casal está junto há apenas um ano. Ao "Observador", Patrícia contara que conheceram-se numa feira medieval no Montijo. Ela vendia bijuteria e brinquedos de madeira, Carlos vendia enchidos. Ela já tinha dois filhos de outra relação, ele uma filha de 18 anos. Agora têm Pedro em comum, mas ainda não tiveram tempo de partilhar experiências só deles.

Patrícia tem 29 anos, é mulher de poucas palavras. Pelo menos desde o incêndio. Tem muito em que pensar e pouco tempo para explicar as dificuldades que vive. "Mas estou animada e o Carlos está bem disposto, é um bom princípio, vai ser reavaliado." Do filho, Patrícia ainda fala menos. Mas, para já, Pedro - que é filho de Carlos e Patrícia e tem sete meses - é apenas Pedro Santos. É só filho da mãe. Não é ainda filho do pai.

  • Até que o Parlamento faça a ‘lei Pedrógão’ não há indemnizações para eventuais novas tragédias

    Os critérios utilizados para estabelecer os valores a pagar às famílias das vítimas mortais e aos feridos de Pedrógão e dos fogos de 15 de Outubro não podem voltar a ser utilizados. Se houver uma nova tragédia semelhante, não haverá direito a qualquer indemnização. Mário Mendes, um dos três juízes da comissão que estabeleceu critérios para as tragédias de 2017, diz ao Expresso que há trabalho que pode e deve ser usado como jurisprudência, inclusivamente os critérios estéticos, sexuais e psicológicos criados para os incêndios mortais do ano passado. E não tem dúvidas: “Há pessoas que ainda terão anos de tratamento pela frente”