Sociedade

Os melhores amigos das mulheres

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É o material mais duro do mundo. E é também o mais apreciado no dedo de uma mulher. Falamos de diamantes

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

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Jornalista

O ano é 1953. A imagem, intemporal. Marilyn Monroe, a encarnação da diva da era dourada de Hollywood, esplêndida num longo vestido cor de rosa, cabelo platinado, canta a música ‘Diamonds Are a Girl’s Best Friend’. No meio de dezenas de homens de smoking, lembra à plateia da altura (e às sucessivas gerações) que a melhor prenda que se pode dar a uma mulher é... um diamante. O filme “Os Homens Preferem as Loiras”, realizado por Howard Hawks, revelava aquilo que começava a ser real desde os anos 40: a valorização dos diamantes enquanto pedra preciosa e investimento.

Como tantas outras tendências de consumo do nosso mundo, o marketing teve um papel fundamental na construção da ideia de que um diamante é um bem raro, e por isso, um bom investimento. A verdade é que nos últimos 70 anos o seu valor tem crescido de forma constante — e segura. Hoje, são muitos os que continuam a preferir um diamante na hora de colocar o anel de noivado no dedo da prometida. Mas seja na forma de brincos ou de um colar, os diamantes mantêm-se como símbolo de glamour, status, exclusividade e requinte. O valor de mercado de 2016 da indústria de diamantes era de 64,8 mil milhões de euros, sendo os EUA responsáveis por quase metade da procura (47%).

infografia raquel felício

Em Portugal, quais são os artigos de diamantes que mais vendem? Rita Torres, da Torres Joalheiros, garante que “é o anel, embora nem sempre de noivado”. Todas as semanas se vendem vários exemplares. A seguir a este artigo, são os brincos e os relógios”. Há 30 anos no ramo da joalharia, Rita considera que “o interesse cresceu e o diamante acompanhou essa evolução no preço”. Acredita que os diamantes continuam ser “investimentos seguros: o preço por quilate é alto e há uma relação entre preço e qualidade”. Um anel com diamantes pode custar €1000 — embora “dificilmente” seja tão barato — e ir até centenas de milhares de euros. Na loja da joalheira na Avenida da Liberdade, em Lisboa, 40% dos que compram são estrangeiros e “muitos são chineses”, acrescenta. Mas também há muitas portuguesas a comprar. Cerca de um terço oferecem a si próprias essas prendas. Na hora da verdade, Rita não tem dúvidas: “Todas as mulheres gostam de diamantes.” Na Torres, só se trabalha com diamantes verdadeiros, e não com os cultivados em laboratório. Apesar de “não se notar a diferença a olho nu”, assegura. Rita Torres não nota uma procura específica por diamantes sintéticos, por questões éticas ou ambientais. E cada vez mais marcas integram essa preocupação: “A Chopard, por exemplo, só trabalha com diamantes que não ‘de sangue’.”

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Outro campo no mundo destas pedras preciosas tem vindo a ganhar terreno: o dos diamantes sintéticos, cultivados em laboratório. Livres de máculas éticas ou ambientais, são preferidos por uma clientela mais jovem e constituem um sério risco à indústria diamantífera tradicional

A grande questão é: como podemos ter a certeza? Nos tempos que correm, o negócio dos diamantes no mundo é solidamente lucrativo, mas não isento de polémica. A indústria mineira, em especial no continente africano, está fortemente associada a condições de trabalho ilegais, como o trabalho infantil e a exploração. Os “diamantes de sangue”, como são conhecidos, têm sido apontados, nos países em vias de desenvolvimento, como responsáveis pelo financiamento de guerras e pelo agravamento do fosso da desigualdade entre Governo e povo. Por causa disso, outro campo no mundo dos diamantes tem vindo a ganhar terreno: o dos diamantes sintéticos, cultivados em laboratório. Livres de máculas éticas ou ambientais, são preferidos por uma clientela mais jovem e constituem um sério risco à indústria diamantífera tradicional. Mas isso vai demorar a notar-se.

Por ora, as reservas de diamantes continuam a ser garante de riqueza. A soma das reservas mundiais ascende a 750 milhões de quilates/carates (um quilate corresponde a 0,2 gramas), sendo a Austrália o país detentor das maiores reservas (210 milhões de carates). A produção mundial de 2016 cifrou-se nuns apetecíveis 128 milhões de carates, sendo os principais países produtores a Austrália, a República Democrática do Congo, o Botswana, a África do Sul e a Rússia. Quatro empresas dominam 70% do mercado mundial de minas de diamantes: a Alrosa (da Rússia), a De Beers (sediada no Luxemburgo), a Rio-Tinto (aliança entre o Reino Unido e a Austrália), e a BHP Billiton (do Canadá).

Depois, há polos especializados na comercialização destas pedras: Antuérpia, Dubai, Nova Iorque, Hong Kong, Mumbai (Índia) e Telavive (Israel). Não existe um preço de tabela para os diamantes. O preço aumenta consideravelmente consoante o polimento da pedra mais dura do planeta: em média, do diamante em bruto ao diamante lapidado, passamos de valores como dos 15 mil milhões para 25 mil milhões. No ano passado, abriu a primeira fábrica de lapidação de diamantes nos arredores de Luanda, a Angola Polishing Diamonds, com capacidade para lapidar 5000 quilates de diamantes por mês. É aqui que se concentra uma parte fulcral do lucro. O preço médio do quilate de diamante lapidado em Angola atingiu em junho de 2017 quase 700 dólares (620 euros), multiplicando por mais de seis o valor daquela pedra preciosa em bruto, segundo dados do Ministério da Geologia e Minas angolano.

Os 4 fatores

Para quem nunca comprou diamantes existem quatro fatores fundamentais para avaliar o valor da pedra preciosa: cor, pureza, lapidação (ou corte) e peso (os quilates).

No capítulo da cor, em regra, quanto mais incolor for um diamante mais caro será. As tonalidades podem variar entre o amarelo e o cor de palha, passando pelos tons de rosa ou azul. Existe até uma classificação oficial, sendo as cores ordenadas da letra D (o mais valioso) à letra Z. A pureza (clarity) é indicada por uma escala muito rigorosa — da pureza absoluta IF (internally flawless, sem defeitos) ao P3 (com impurezas visíveis a olho nu). O corte (cut), a única característica que depende do homem, é essencial pois define o brilho do diamante. É a talha (ou lapidação) que faz com que seja praticamente impossível obter dois diamantes iguais. Existem vários formatos possíveis de corte para a pedra preciosa, sendo uns mais comuns do que outros. O mais frequente é o brilhante, quando o diamante é lapidado em formato redondo. Mas pode também ser talhado em forma de pera, coração, princesa, triangular, esmeralda...

Finalmente, o último critério: o carate (ou quilate) é a medida de peso do diamante — e, por conseguinte, o seu tamanho. Um quilate corresponde a 0,20 gramas. Quanto mais pesado for um diamante mais caro será. A maior pedra de que há memória, a “Cullinan”, descoberta na África do Sul em 1905, pesava 3106 quilates (cerca de 620 gramas). Num primeiro momento, foi dividido em dois: um com perto de 2500 quilates e outro com 500. Depois foi dividido em mais 9 partes.

Preço não é o mesmo do que valor

Composto por carbono, elaborado pela natureza há milhões de anos em camadas profundas da Terra, há muito que o diamante chamou a atenção. Em 1955, os laboratórios da General Electric americana produziram o primeiro diamante sintético, recorrendo à alta pressão e à temperatura. A dureza desta pedra preciosa, em particular, tornou-a apetecível em vários sectores industriais, como o automóvel. Cada veículo tem na sua produção 1 quilate de diamante, nomeadamente no polimento de discos dos travões ou nos cilindros dos motores. O policristalino de diamante (PCD) também é muito usado na indústria aeronáutica, nomeadamente com novos materiais leves e resistentes como o kevlar e a fibra de carbono. Nestes ramos, quase 90% dos diamantes são sintéticos. Mas estes também estão a dar cartas na joalharia. De modo crescente, uma nova geração de consumidores prefere comprar diamantes ‘limpos’, promotores de maior sustentabilidade. O ator e ativista ambiental Leonardo DiCaprio — que protagonizou em 2006 o filme “Diamante de Sangue”, passado na Serra Leoa —, é um dos investidores de uma empresa que cria diamantes em laboratório, quais pérolas. Na página na Internet da Diamond Foundry, sediada em São Francisco, pode ler-se a frase de DiCaprio: “Tenho orgulho em investir nesta empresa, cultivando diamantes verdadeiros na América sem os custos humanos ou ambientais da atividade mineira.”

Só que, claro, a semântica não é irrelevante — e lá regressa, de novo, o marketing. Dizer que um diamante criado em laboratório é ‘verdadeiro’ é uma afirmação relativamente difícil de vender. Por enquanto, a ideia de um diamante verdadeiro, na mente das pessoas, ainda é aquele que é lapidado depois de ser extraído de uma mina. E é essa noção de ‘valor’ a única que faz com que (ainda) se continuem a comprar mais diamante naturais do que sintéticos, mais baratos. Para a maioria, só estes diamantes são eternos.