Sociedade

Cowork ou quando a partilha faz a força

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Muito mais do que partilhar um espaço, o ‘cowork’ permite parcerias e interações enriquecedoras entre diferentes profissionais

Quem trabalha sozinho em casa ou vai saltando de café em café com o computador sabe que há momentos em que a solidão se apodera do melhor profissional. A motivação esmorece, a disciplina também, faltam inputs e conversa para pôr o cérebro a borbulhar. Para combater isso, uma solução ganha terreno no país: o cowork. Num espaço partilhado, paga-se por um lugar que inclui internet, receção, segurança, copa, café e, sobretudo, convívio — com outros de áreas afins ou não. A relação é profícua e gera parcerias improváveis.

André Ribeirinho foi o primeiro cliente do Workhub LX, em Marvila. Já conhecia o edifício, os armazéns de vinho Abel Pereira da Fonseca, mesmo antes de serem renovados e abrirem ao público, em 2015. Como Sara De Praetere, a atual senhoria, subiu ao primeiro andar do prédio centenário, abandonado desde os anos 80, usando a entrada de emergência, e encontrou um espaço com sinais de décadas de abandono. André, criador do Adegga, uma plataforma online de divulgação de vinho, conhecia bem a história do local. Por isso, quando soube que iria ser um local de cowork, foi o primeiro a reservar lugar. “Trabalhei cinco anos em casa e o isolamento custava-me muito”, confidencia. “Obrigava-me a tomar o pequeno-almoço e a almoçar fora para, no regresso, sentir que estava a entrar no ‘escritório’.” Hoje, ele e a equipa de cinco partilham um canto soalheiro no sótão de 100 metros quadrados com freelancers italianos, ingleses, norte-americanos e portugueses de várias áreas. Ao todo, habitam o edifício 19 empresas e projetos, entre web designers, empresas de branding e de comunicação, gente das tecnologias da informação e uma vasta comunidade de arquitetos, que se renderam à recuperação histórica e ao charme do lugar.

O JavaCowork, em Matosinhos, tem capacidade para 80 microempresas

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rui duarte silva

Recuperado por uma arquiteta, a mãe de Sara, a obra venceu o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana, em 2016. Os antigos apartamentos dos gestores da sociedade de vinhos foram transformados em escritórios de até 15 metros quadrados, mantendo o ripado das paredes de tabique a que se acrescentou ardósia preta até meio, para fornecer uma ‘folha’ de pensamentos. Incluído no serviço (um espaço hub, para 1 a 5 pessoas, custa 200 a 600 euros /mês; um lugar custa 160 euros) está a internet, a copa, limpeza, correio, impressora, uma app com código de acesso à porta de entrada e segurança 24 horas por dia. A sala de reuniões é comum e que pode ser reservada, e os telefonemas devem ser feitos nas áreas partilhadas, para não perturbar os restantes coworkers. Mas talvez o maior benefício seja a partilha e o networking. Em suma, um ambiente de trabalho vibrante e interligado.

André Ribeirinho recorda uma conversa fundamental com alguém da empresa de design thinking With, outro inquilino do Workhub LX, que passou a integrar os seus Adegga Wine Guides. “Os espaços de cowork preenchem um requisito crescente. A forma como trabalhamos mudou. Não se é forçosamente mais produtivo sentado à secretária do escritório. Cumprir um horário não tem nada que ver com produtividade ou qualidade de trabalho”, defende. “Este é um meio caminho entre o cumprir horário num escritório e o teletrabalho.”

Quando o designer Fernando Mendes abriu o primeiro espaço de cowork de Lisboa, em 2010, trabalhava em casa como freelancer. Percebeu que não havia espaços deste género e juntou-se à mulher, Ana Dias, para abrir o CoWorkLisboa, no 4º piso de um prédio da LX Factory, em Alcântara. O open space, com 74 lugares fixos e capacidade para 100 coworkers tem na copa, cafetaria, sala de reuniões, internet, auditório com capacidade para 100 pessoas e partilha de contactos as principais valências. Por ali passam biólogos ou diretores financeiros, em busca de um ambiente informal, embora “a grande fatia seja da área criativa”, explicam-nos.

Ao lado, ao fundo da estação de Santo Amaro, ‘esconde-se’ o Village Underground. O espaço para trabalhar são autocarros da Carris (a proprietária do terreno) e contentores. Desde maio de 2014 que uma forte comunidade criativa trabalha com a Ponte 25 de Abril como pano de fundo. A ideia saiu da cabeça de Mariana Duarte Silva, gestora e produtora de eventos, que trabalhou dois anos e meio no Village Underground de Londres. Este é “um sítio onde as coisas nascem”, explica. “Mais do que um espaço de cowork, é um local de networking.” As ligações fazem-se pela partilha do espaço, de encontros quinzenais e de um almoço mensal para todos os coworkers. São essas sinergias, que nascem à volta de um café informal, que mais inspiram Mariana. É ela que junta programadores informáticos a fazer realidade virtual para o Google. São 14 contentores, de cerca de 15 metros quadrados, doze para coworkers. Num autocarro está instalada a cafetaria, noutro a sala de reuniões. Há ainda eventos de teatro, cinema ou exposições.

O District — Offices & Lifestyle, no Porto, nasceu há um ano e inclui sala de jogos, zona chill e um cabeleireiro

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FOTO RUI DUARTE SILVA

Na Rua do Poço dos Negros, perto de São Bento, Filipe Carvalho e a mulher têm a sua Oficina Coletiva. O casal de arquitetos abriu as portas do seu cowork em 2012. Procuravam um espaço para trabalhar em Lisboa e tropeçaram nesta antiga padaria fechada há 30 anos. O forno serve de decoração à sala de serigrafia, e os arcos antigos albergam cinco designers e os projetos que nasceram entre todos, como uma marca de estacionário própria, a Namban. O custo (170 euros/ mês) inclui internet, telefone fixo, copa, acesso à sala de reuniões e um local para trabalhar 24 horas por dia. “A partilha, mais do que a parte financeira, acaba por ser o melhor do cowork”, defende Filipe.

Porto de partilha

O cowork também conquistou freelancers e pequenas empresas da Invicta. Perto do Teatro Nacional São João, na Rua Augusto Rosa, nasceu há um ano o District — Offices & Lifestyle, um centro empresarial instalado num palacete do séc. XVIII, antigo edifício do Governo Civil. As áreas de tecnologia, indústrias criativas, de publicidade, comunicação e design convivem neste ‘distrito’ composto por 58 escritórios para aluguer, quatro salas de reuniões, um auditório e uma sala capacitada para acolher seis coworkers — com um custo mensal de 150 euros. Há cafetaria, lojas, sala de jogos, uma “zona chill” e cabeleireiro. Palestras, concertos, workshops e exposições complementam o espaço onde a inovação casa com o classicismo arquitetónico.

Um armazém remodelado no número 643 da Rua de D. João IV acolhe a criatividade de arquitetos, designers, programadores e engenheiros que partilham oficina, exponenciando a criação de sinergias, na procura coletiva de soluções alternativas. O OPO-Lab é um open space com capacidade para 40 coworkers, onde se aplica o conceito de laboratório de fabricação digital. O ateliê funciona como tubo de ensaio para testar novos modelos de negócio. Nesta fábrica de ideias há uma loja, um auditório, sala de reuniões e, em breve, um café e uma horta urbana. Reciclagem e reaproveitamento de recursos são palavras-chave.

No Workhub LX, em Marvila (Lisboa), há 55 lugares para freelancers e empresas

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FOTO YELLOW SAVAGES

Na Rua de Cedofeita, no número 27 está o ateliê Tincal Lab. Uma mesa de trabalho comunitária domina o espaço que Ana Pina idealizou quando, em 2012, trocou a arquitetura pela joalharia. Começou por criar as peças em casa, até encontrar um sítio que lhe permitisse um contacto mais direto com os clientes. Ana divide com Olga Marques a oficina artesanal — usada também para exposições e workshops —, e tem bancas disponíveis para acolher mais duas pessoas (custo mensal: 150 euros). A odisseia pelos espaços partilhados continua até Matosinhos, ao JavaCowork, no 603 da Rua Brito e Cunha. O projeto, servido aos coworkers desde 2016, é do empresário Luís Silva, que ao longo da carreira trabalhou em países como Espanha, Itália, Brasil ou México, de onde importou o modelo de negócio. O espaço é partilhado por colaboradores de 11 microempresas, mas tem capacidade para 80 pessoas. Há três salas de reuniões, uma cantina, balneários e um ginásio. Os preços mensais oscilam entre os 100 e os 200 euros. Se pretende muscular o negócio sem muita ginástica financeira, o cowork pode ser uma solução.