Sociedade

O dia em que o tribunal de Loures teve segurança à moda da América Latina

Rodolfo “El Ruso” Lohrman, um dos líderes do grupo

DR

Medidas de segurança apertadas no primeiro dia de julgamento a grupo suspeito de assaltos violentos a bancos e carrinha de valores. Início da sessão adiada para 7 de maio por uma questão processual. Um dos dos arguidos foi notificado tardiamente

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

‘Tia’ ou ‘avó’ eram os códigos usados quando falavam sobre carrinhas de transporte de valores. ‘Rapariga’ era a designação de uma caixa ATM (multibanco). ‘Vacina’, o levantamento de dinheiro, e ‘virgindade’, a moradia na Ericeira de um dos líderes do grupo Rodolfo “El Ruso” Lohrman.

Este guatemalteco de 53 anos, juntamente com o argentino Horacio “Gugu” Maidana, eram, até serem presos em Aveiro em novembro de 2016, os dois homens mais procurados da Argentina sendo oferecidos 100 mil dólares pela sua captura. Sobre o primeiro, o jornal argentino ‘Clarin’ escrevia em 2012 vários cenários para o seu paradeiro: El Ruso estaria morto; viciado em cocaína; alvo de uma cirurgia estética para alterar o rosto; e, pasme-se, de ter participado num vídeo musical em Liverpool: “Tudo é confuso, misterioso e contraditório quando se fala em Rodolfo José “El Ruso” Lohrman, sequestrador, pirata de asfalto, ladrão de bancos.”

Esta segunda-feira, “El Ruso”, “Gugu” e os três cúmplices entraram no tribunal de Loures, debaixo de inusitado aparato policial, fora e no interior da sala de audiência, esperando-se que a Justiça portuguesa desfaça alguma da penumbra em torno deste grupo criminoso especializado ao assalto de bancos e carrinhas de transporte de valores que deixou um rasto de crimes na Argentina, Bulgária e Espanha.

O Ministério Público português acusa-o de quatro assaltos a agências bancárias em entre 2014 e 2016 que renderam ao grupo mais de 200 mil euros. E de crimes como roubo qualificado, associação criminosa, branqueamento de capitais e furto simples.

Mas o início da sessão foi adiada para maio por questões processuais. A advogada de um dos arguidos, Christian Gomez, quer apresentar a contestação e a juíza concedeu esse direito uma vez que o suspeito foi notificado tardiamente do julgamento. "A notificação foi para o estabelecimento prisional errado, que depois a reenviou para outro estabelecimento prisional", explicou a magistrada no final da abreviada (e um pouco tensa) primeira sessão. Assim, o início do julgamento foi adiado para o início da tarde de 7 de maio.

No interior da sala 15 eram mais os agentes da PSP e dos serviços prisionais do que os advogados dos cinco arguidos. Jornalistas e advogados foram revistados por duas vezes. Por perto estavam dois pastores-belga da brigada canina bem como vários agentes com armas à vista. Todo o aparato de segurança dentro e em redor do tribunal foi rapidamente desmobilizado. E os cinco suspeitos voltaram para as cadeias onde se encontram desde o final de 2016.

Horacio “Gugu” Maidana

Horacio “Gugu” Maidana

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Justiça argentina quer “El Ruso”

De acordo com a acusação, a que o Expresso teve acesso, “os arguidos formaram um grupo estável, com hierarquia de funções, destinado à prática de roubos a instituições bancárias e à ocultação dos seus proventos, dividindo entre si as tarefas bem como o produto dos atos ilícitos que cometiam”. Para os assaltos aos bancos em Odivelas e Cascais, “muniram-se de armas de fogo, marretas, telemóveis e outros dispositivos eletrónicos e objetos destinados a disfarçar as suas feições”. Capacetes e perucas com cabelo comprido eram dois dos truques mais usados para esconder a identidade.

Na manhã em que foram travados pelos operacionais da Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo (UNCT) da Judiciária – numa altura em que vigiavam os movimentos de uma carrinha de valores em Aveiro – ninguém suspeitava que os dois cabecilhas eram procurados em toda a América do Sul pelo sequestro e homicídio de jovens estudantes de famílias abastadas. O caso mais mediático passou-se em 2003 com o desaparecimento de Christian Schaerer, 21 anos, estudante de Direito e filho de um empresário. Os raptores receberam o dinheiro do resgate (225 mil euros) para a sua libertação. Mas o jovem nunca apareceu. Atuavam nessa altura entre a fronteira da Argentina e do Paraguai para confundir a atuação das autoridades dos dois países.

No primeiro interrogatório policial, tentaram também baralhar a polícia portuguesa, fornecendo identidades e documentos falsos. Rodolfo “El Ruso” Lohrman disse chamar-se Luís Guevara Martinez enquanto Maidana mostrou um passaporte búlgaro com o nome de Nikola Petkov. Só meses depois é que a PJ descobriu as suas verdadeiras identidades. Com a ajuda da Interpol aperceberam-se de que tinham apanhado dois dos criminosos mais procurados pelas autoridades argentinas.

Desde então os têm estado em prisão preventiva na cadeia de alta segurança do Monsanto. Isto porque a violência está no seu ADN, como lembra o MP: “Maidana arrombava a porta de entrada na dependência bancária, fazendo, por norma, uso de uma marreta, permitindo o acesso dos demais arguidos ao seu interior. Trazendo armas de fogo (pistolas e caçadeiras) e recorrendo ao uso da força física, intimidavam, privavam da sua liberdade os funcionários e constrangiam-nos a entregar o dinheiro.”

No final de fevereiro, dois magistrados argentinos deslocaram-se de propósito a Lisboa para falarem com os dois suspeitos. E ofereceram-lhes o estatuto de arrependido previsto no sistema judicial de Buenos Aires. Se revelarem onde se encontrava o corpo de Christian Schaerer, o juiz federal Carlos Vicente Soto Dávila e o promotor federal Flavio Ferrini, prometem uma redução da pena na Argentina.

Primeiro têm de ser julgados em Portugal e cumprir uma parte da pena, caso venham a ser condenados. Só depois poderá ser realizada a extradição. “El Ruso” terá ainda de enfrentar a Justiça da Bulgária, de onde fugiu da prisão preventiva quando aguardava pelo julgamento de um assalto violento a uma carrinha de transporte de valores. Em Lisboa, o Supremo Tribunal de Justiça já autorizou a extradição de Maidana, mas ainda não decidiu sobre um recurso interposto pelo advogado de “El Ruso”, depois da Relação de Lisboa ter também autorizado a extradição do suspeito guatemalteco para a Argentina.

Artigo atualizado às 16h14

  • Dois dos criminosos mais procurados na Argentina vão ser julgados em Portugal

    Começa esta segunda-feira, em Lisboa, o julgamento de dois dos criminosos mais procurados na Argentina. São suspeitos de vários sequestros e assassinatos na América do Sul, sobretudo de jovens de famílias ricas a quem eram pedidos resgates milionários. Os dois homens foram detidos em Aveiro, há um ano e meio, por assalto à mão armada.