Sociedade

“Não vale a pena banir os tablets das salas de aulas”. É preciso é impor regras

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O que acontece quando 18 professores e 64 alunos recebem um tablet para fazerem o que bem entenderem durante dois anos? Foi precisamente isto que aconteceu numa escola de Lisboa. Agora, vamos saber os resultados

O que acontece quando 18 professores e 64 alunos recebem um tablet para fazerem o que bem entenderem durante dois anos? Foi precisamente isto que aconteceu entre 2014 e 2016, nas turmas do 7º e do 8º ano da Escola Secundária Eça de Queirós, nos Olivais Sul, em Lisboa. José Moura Carvalho, coordenador do estudo “Tablets no Ensino e na Aprendizagem”, cujo resultados acabam de ser apresentados, na Fundação Calouste Gulbenkian (a instituição também financiou a investigação), diz que não é possível “estabelecer uma correlação positiva linear” devido à pequena dimensão do estudo mas garante que “essa pequenez é a sua grande limitação mas também a sua grande vantagem”, pelas portas que pode abrir no futuro. Considerando que “os professores ainda não se deram conta das potencialidades dos dispositivos digitais”, considera que a utilização da tecnologia como prática comum na sala de aula é ainda “um caminho que demora tempo e que precisa de apoios” para ser concretizado.

O que motivou a realização de um estudo como este?
Em primeiro lugar, porque Portugal faz parte da European Schoolnet, que é uma organização europeia que promove a utilização de tecnologias digitais. O Professor Eduardo Grilo fazia parte de um grupo de alto nível num desses projetos do organismo e pensou que seria útil e interessante ter um estudo similar em Portugal. Foi ele que me pediu para apresentar a proposta à Gulbenkian. É importante referir que esta é uma coisa muito pequena, uma vez que a investigação durou dois anos, em duas turmas, uma de 7º ano e outra de 10º ano [no primeiro ano do projeto]. Essa pequenez é a sua grande limitação, mas também a sua grande vantagem: temos dados inacreditáveis que davam perfeitamente para fazer muitos mais estudos. Temos muito material, mas também não é possível pedir que se extrapolem os resultados.

Quais as conclusões a que chegaram com este estudo?
Bom, as conclusões que muitos jornalistas querem saber é se os alunos tiveram melhores notas (risos). É verdade que dos alunos do segundo ano, apenas um não transitou. No 7º ano, muitos alunos não tiveram sucesso, houve alguns chumbos, mas a turma era complexa e difícil. Um ano depois do início do projeto, já no 8º ano, os alunos acabaram por passar. Não nos é possível estabelecer uma correlação positiva linear neste estudo: não podemos dizer com segurança que foi por causa dos tablets que houve sucesso. Outra conclusão que constatámos é que cada caso é um caso, tanto nos professores como alunos. Houve alunos que utilizaram mais os tablets para jogar, outros que os aproveitaram para aprender mais. Também no caso dos professores houve os que utilizaram as metodologias que lhes aconselhamos, mas também houve outros que se limitaram a continuar com as aulas expositivas. Acho que é possível dizer que o mais interessante deste estudo é a enorme heterogeneidade das pessoas que nele participaram.

E que aspetos negativos se observaram?
O estudo, em si, não tem aspetos negativos. Mas destaco a utilização menos segura dos dispositivos por parte dis alunos e também a escolha de alguns professores de manterem as metodologias a que estavam habituados, limitando-se a "debitar" matéria em aulas expositivas, o que acaba por desmotivar os alunos. Relativamente à utilização menos segura dos dispositivos, destaco o facto de os alunos terem podido levar o tablet para casa. Como pode imaginar, com alunos do 7º ano, às vezes corre mal: houve alguns tablets partidos, instalação de software que não tinha nada a ver com aprendizagem... No segundo ano da investigação já não permitimos isso, fizemos afinações face ao primeiro ano e, assim, o próprio projeto foi fazendo um caminho de melhoria.

Acha que é possível afirmar, na sua opinião, que existe uma certa "fobia" à tecnologia por parte dos professores em Portugal?
Considero que os professores, não só os portugueses mas de todo o mundo, ainda não se deram conta das potencialidades dos dispositivos digitais. Entre optar por um ensino ativo baseado em projetos ou optar apenas pela exposição, muitos optam pela segunda via. Enquanto não se encontrar um equilíbrio entre estas duas opções, temos aqui um imbróglio, como se costuma dizer. As tecnologias na educação são coisas tremendamente poderosas, desde que estejam dirigidas para o aprofundamento de competências. Este é um caminho que demora tempo e que precisa de apoios para se concretizar. Os governos pensam que fornecer as escolas com milhões de equipamentos chega, mas não se pode ficar por aí, é preciso apoio pedagógico, recursos educativos, apoio técnico…

Estará Portugal cada vez mais perto de um futuro onde a utilização de aparelhos na sala de aulas seja uma prática comum?
Não, nem coisa que se pareça. Estamos bastante longe disso. Atualmente, muitas escolas, através dos seus regulamentos internos, continuam a proibir a utilização de qualquer dispositivo tecnológico. Podiam-se fazer contratos com os alunos, nos quais se definiriam as regras de utilização destes dispositivos; por exemplo, não permitir o acesso a redes sociais mas sim para fomentar a aprendizagem. É preciso é fazer regras. Não vale a pena banir, mas sim definir as fronteiras da utilização, essa é a minha opinião. Acho que é esse o próximo passo.