Sociedade

Foi vendida, espancada, violada, o Daesh matou-lhe o irmão e o pai: Farida regressou a Portugal para fazer um pedido

António Pedro Ferreira

Esteve cá há um ano e a história dela impressionou quem a ouviu. Regressou agora com uma missão e a história dela continua a impressionar. Farida tem 22 anos e diz coisas assim: “Tento ser a voz dos que ainda estão em cativeiro”. A segurança dela teve de ser reforçada, depois de recentemente ter recebido ameaças contra a sua vida

Cristina Pombo

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Jornalista

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Farida Khalaf tem um olhar triste. Sente-se o peso das palavras que escolheu para partilhar a sua história. Cada vez mais pausas na narrativa, e a voz mais embargada, sumida, por vezes. Farida é uma menina que se fez mulher pela força do horror. A 15 de agosto de 2014, viu os homens do Daesh chegarem, entrarem aldeia dentro e levarem todos os habitantes yazidis, a minoria religiosa curda que nunca teve o respeito dos iraquianos. Vivia com a sua família perto do Monte Sinjar mas suficientemente longe para conseguir escapar para as montanhas. Foi vendida, espancada, violada, perdeu o irmão mais velho e o pai, executados pelo Daesh. E assim começou um calvário de quatro longos meses que marcará toda a sua vida.

Esta quarta-feira, Farida regressou a Portugal. No ano passado foi uma das convidadas das Conferências do Estoril, onde deixou um testemunho impressionante. Nesta segunda visita ao país, traz uma missão bem maior do que a de partilhar o horror do calvário vivido às mãos do Daesh. Farida foi ouvida por duas comissões parlamentares na Assembleia da República e ali deu a conhecer o seu sonho: que todos os Governos reconheçam formalmente o genocídio contra o povo yazidi e que todos os criminosos sejam condenados por crimes contra a Humanidade no Tribunal Penal Internacional.

“Tento ser a voz dos que ainda estão em cativeiro”, dos perto de 3000 yazidis que ainda permanecem nas mãos dos seus carrascos, e dos que continuam desaparecidos, quatro anos após o ataque. Do outro lado da mesa de madeira maciça, numa das salas do segundo andar da Assembleia da República, os que a escutaram não lhe ficaram indiferentes. Os deputados presentes concordaram por unanimidade que é imperativo aprovar uma resolução conjunta nesta matéria.

“Tudo faremos para podermos consagrar ao nível da totalidade da Assembleia da República que seja aprovada uma posição para vir a reconhecer estes crimes como crimes cometidos contra a Humanidade, como um genocídio”, garantiu o deputado do PSD José Cesário, coordenador da comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas.

Maria Manuel Rola, do BE, afirmou que “tem de haver uma voz forte em relação a estes crimes” e espera que venha a existir “um reconhecimento por parte do Parlamento português dos crimes cometidos contra a Humanidade e que tenham o respetivo seguimento”.

Já Vânia Dias da Silva, deputada do CDS-PP, referiu-se à história de Farida como um relato de coragem e de liberdade. “De nós podem esperar todo o apoio. Em Portugal não fazemos política quando se trata de liberdade e de direitos humanos. Estará para muito breve uma resolução sobre o genocídio e o reconhecimento da perseguição do povo yazidi.”

antónio pedro FERREIRA

Em breve Portugal deverá juntar-se a outros países e instituições que já reconheceram formalmente o genocídio yazidi (ver AQUI). Farida faz desta a sua luta pessoal. Passou recentemente pela Bélgica e antes de viajar até França será uma das oradoras do 5º Congresso de Investigação Criminal, em Braga, onde partilhará a sua história a convite da Polícia Judiciária, esta sexta-feira. A segurança de Farida teve de ser reforçada, depois de recentemente ter recebido ameaças contra a sua vida: “Não me importa, não vou parar”, é a resposta que dá a quem tenta intimidá-la.

Descida aos infernos

Corria o verão de 2014 quando o Daesh capturou e escravizou várias dezenas de mulheres e raparigas da minoria étnica yazidi. Farida Khalaf era uma delas. Tinha 18 anos. Durante quatro meses foi repetidamente torturada e abusada sexualmente pelo carrasco que a comprou num mercado de escravatura na cidade síria de Raqqa. A humilhação e o horror do cativeiro levaram-na a atentar contra a própria vida. Conseguiu finalmente escapar e uma rede de tráfico humano carimbou-lhe o passaporte para a liberdade: a Europa. Atualmente vive na Alemanha, onde retomou os estudos e vai casar-se em breve.

Farida não é o seu nome verdadeiro. Usa-o para se proteger dos homens do Daesh que conseguiram escapar-se para a Europa quando começaram a perder território no Iraque e na Síria. Terroristas, criminosos e assassinos que transformaram a sua vida num inferno, mataram parte da sua família e de tantas outras famílias yazidi.

Farida decidiu que não queria esquecer, queria contar a sua história ao mundo e, para tal, teve a ajuda da jornalista alemã Andrea C Hoffmann. Em “A Rapariga que Derrotou o Estado Islâmico” (Edições Asa), publicado em 2016, dá um poderoso testemunho da violência sobre o seu povo. Nele relata a morte do pai e irmão mais velho e a sua viagem ao inferno.

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Séculos de perseguições

A perseguição de que os yazidi são alvo na sua terra Natal, na região do Monte Sinjar, a oeste de Mossul - a segunda maior cidade iraquiana - deve-se a uma interpretação enviesada do seu nome. Extremistas sunitas, como o Daesh, acreditam que deriva de Yazid ibn Muawiya (647-683), o muito impopular segundo califa da dinastia Umayyad. Aos olhos dos radicais islâmicos, são adoradores do diabo que merecem o extermínio ou a escravatura.

Investigações recentes clarificaram que o nome desta minoria nada tem que ver com Yazid, mas que provém do persa moderno “ized”, que significa anjo ou divindade. O nome significa apenas “adoradores de deus”, e é assim mesmo que os próprios yazidis gostam de ser reconhecidos.

Séculos de perseguições nunca levaram este povo a abandonar a sua fé, prova do seu notável sentido de identidade e força de carácter.

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