Sociedade

“Vou ver-me aflita para gastar esta bolsa de 3,5 milhões de euros”

Elvira Fortunato, investigadora e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa

Virgílio Azevedo

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Redator Principal

António Pedro Ferreira

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António Pedro Ferreira

Elvira Fortunato ganhou a maior bolsa avançada (advanced grant) de sempre atribuída a Portugal pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), no valor de 3,5 milhões de euros. Vai financiar o projeto DIGISMART, que pretende revolucionar a forma como se fabricam circuitos integrados e dispositivos eletrónicos sem recurso ao silício, explorando materiais e tecnologias amigas do ambiente. A cientista, que dirige o Laboratório Associado CENIMAT/i3N na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, está preocupada com as restrições legais impostas desde janeiro aos centros de investigação públicos, que podem comprometer o uso da bolsa milionária europeia.

Em que projetos vai ser usada a bolsa do Conselho Europeu de Investigação?
Vou ver-me aflita para gastar os 3,5 milhões de euros em cinco anos, porque há um problema nacional gravíssimo desde 1 de janeiro de 2018 para todos os centros de investigação públicos, devido à revisão do Código dos Contratos Públicos (CCP) promovida pelo Ministério do Planeamento.

O que aconteceu?
O CCP alterou profundamente os limites do que podemos gastar no nosso laboratório, o CENIMAT/i3N, porque há agora um teto máximo de despesa de 75 mil euros por fornecedor, quando antes era por produto. Esta restrição condiciona muito as aquisições dos centros de investigação em todo o país, o que está a causar imensos problemas e a tirar competitividade europeia à ciência portuguesa feita a nível público. Há até instituições públicas que estão a perder cientistas para instituições privadas nacionais como a Fundação Champalimaud ou o Instituto Gulbenkian de Ciência porque estes não estão, obviamente, sujeitos às mesmas regras.

As mudanças estão ligadas ao Orçamento do Estado?
No caso do CENIMAT/i3N não estão, porque os 3,5 milhões de euros não vêm do OE, é dinheiro extra. O meu problema não é pedir dinheiro ao Estado, mas deixarem-me aplicar em projetos o dinheiro que ganhei da Comissão Europeia. E se os 3,5 milhões de euros não forem usados voltam para trás, para o Conselho Europeu de Investigação, o que é um problema medonho.

Como é que se pode evitar que isso aconteça?
Quando Mariano Gago era ministro da Ciência, em 2009, houve um regime de exceção que permitia a todas as despesas relacionadas com investigação e desenvolvimento (I&D) estarem dispensadas destes procedimentos complexos do CCP. Entretanto, o país entrou em crise e com a vinda da troika os centros de I&D públicos perderam o regime de exceção, o que foi uma dor de cabeça para todos. Já estava a decorrer a aplicação dos 2,5 milhões de euros da minha primeira bolsa avançada do Conselho Europeu de Investigação (ERC), que ganhei em 2008, e tive de pedir a Bruxelas a extensão da bolsa de cinco para seis anos para conseguir usar todo o dinheiro.

Mas a troika foi-se embora.
Só que nada mudou e a revisão de 1 de janeiro de 2018 do CCP tornou tudo pior. Agora os centros de I&D não conseguem executar verbas, mesmo quando não vêm do Orçamento do Estado mas de financiamentos competitivos europeus, de empresas e de instituições privadas. Ou seja, todo o dinheiro que entra nos centros está sujeito ao mesmo tratamento como se fosse do Estado. O Código deve ser simplificado em prol da investigação científica, ter menos burocracia, mais flexibilidade e rapidez, porque tal como está põe centros de I&D em risco de fechar. O ministro da Ciência, Manuel Heitor, é sensível a este problema e espero que o CCP mude.

Com a bolsa ERC ganha em 2008 o seu centro de investigação comprou um microscópio eletrónico de um milhão de euros. A nova bolsa vai permitir comprar novos equipamentos?
Vamos instalar um novo laboratório no CENIMAT/i3N que seja uma referência internacional, e queremos comprar um microscópio eletrónico de transmissão e varrimento mais poderoso, que custa mais de um milhão de euros e vai permitir a nanocaraterização avançada, isto é, caracterizar à nanoescala materiais e dispositivos eletrónicos. A nova bolsa não é suficiente, porque os 3,5 milhões de euros servem para pagar todo o laboratório. Por isso vamos recorrer ao financiamento de outros projetos.

O que representa esta bolsa?
É um grande orgulho para mim, é a maior bolsa avançada de sempre do ERC atribuída a Portugal e o valor máximo que um cientista europeu pode ter. Tive oito avaliadores do painel de engenharia do ERC, onde só 15 bolsas foram aprovadas. Em todas as áreas do conhecimento, foram aprovadas 269.

Há ligação entre os projetos das bolsas de 2008 e 2018?
Os materiais usados são os mesmos — óxidos metálicos — mas processados de outra forma. Os óxidos metálicos como o zinco, o estanho, o magnésio, o crómio ou o tungsténio reagem a estímulos elétricos, magnéticos e óticos diferentes. Com o projeto que ganhou a nova bolsa queremos ter o mesmo dispositivo eletrónico a desempenhar várias funções e a receber os três estímulos. Não estamos a descobrir novas propriedades mas a explorá-las e a integrá-las, a passar do circuito integrado para a função integrada, onde os dispositivos estão ligados. E podemos usar os óxidos não apenas sozinhos mas combinados na forma de filmes ou de nanopartículas, isto é, trabalhados a várias dimensões. E ainda termos novas funções. Algumas já sabemos quais são, mas outras só iremos conhecer com o desenrolar do projeto. Por exemplo, um transístor poderá simultaneamente funcionar como uma bateria ou uma memória. E não é só fazer isto e ver se funciona, mas otimizar o seu desempenho.

Qual é a grande inovação?
É explorarmos funções integradas na conceção e fabrico de dispositivos eletrónicos, isto é, concebermos um dispositivo com várias funções. Vamos usar plataformas digitais — impressoras a jato de tinta e 3D, etc. — para processar materiais com custos muito mais reduzidos, porque são sustentáveis e existem em abundância na Natureza, como o óxido de zinco, e porque os aplicamos em quantidades muito pequenas através da nanotecnologia, somente com espessuras de dezenas de nanómetros (um nanómetro é igual a um milímetro a dividir por um milhão).

Que resultados espera alcançar quando a bolsa do ERC terminar dentro de cinco anos?
Espero ter estes dispositivos a funcionar a 100%, de modo a serem aplicados na indústria eletrónica de baixo custo onde está, por exemplo, a Internet das Coisas.

E há outras aplicações?
Há na eletrónica flexível, que se adapta ao corpo como se fosse uma pele eletrónica, coisas muito mais leves e conformáveis em que o substrato não é plano, como papel ou plástico. Nos têxteis estamos a falar de sensores na roupa para darem informações sobre um paciente; na energia, em células solares flexíveis depositadas num polímero (material plástico), em painéis solares fotovoltaicos que se enrolam e guardam num tubo; na medicina, em biosensores sem fios a comunicar em wireless que controlam a pressão arterial, o nível de glucose e outros indicadores do corpo humano, ou aplicam fármacos e vacinas.

Foi pioneira mundial na eletrónica de papel (transístores, memórias, baterias, ecrãs, antenas, células solares). Que novidades há nesta área?
O CENIMAT/i3N tem uma ligação forte com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e vamos fazer a apresentação pública a 20 de abril em Lisboa de um Laboratório Colaborativo (que junta centros de investigação, ensino superior, empresas e instituições). Chama-se Almascience, é liderado pela Imprensa Nacional e pretende desenvolver a aplicação do papel nas áreas da eletrónica, saúde, embalagens e energia. Temos também o projeto Papel Secreto, para a criação de condições de segurança em documentos importantes como passaportes ou escrituras, onde estamos a desenvolver a eletrónica de papel. E há ainda um projeto na área dos nanomarcadores (à escala do nanómetro) de segurança para selos usados nos produtos de consumo suscetíveis de falsificação.

Há uma forte ligação às empresas?
Sim, há cada vez mais solicitações da indústria na investigação e prestação de serviços. Esta ligação vai ser agora corporizada com o Almascience, que envolve a Universidade Nova de Lisboa, Câmara de Almada, The Navigator Company (Portucel), Labocentro (para testes de diagnóstico em papel) e Imprensa Nacional.