Sociedade

Hospital de São José sem radiologistas durante a noite

Paulo Vaz Henriques

Serviço de Urgência vai perder o apoio dos especialistas em radiologia durante o período noturno já a partir de junho. Exames vão passar a ser 'lidos' por prestadores de telemedicina

"Trata-se de uma má notícia", afirma o diretor da Urgência Geral, Polivalente e Cuidados Intensivos do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) depois de ser informado de que o Hospital de São José vai deixar de ter radiologistas no apoio aos doentes emergentes admitidos durante a noite. Numa nota interna a que o Expresso teve acesso, Francisco Lucas Matos manifesta-se receoso sobre "as possíveis e prováveis dificuldades que esta medida irá provocar".

A administração hospitalar informou as equipas na última sexta-feira que "a partir do próximo mês de junho o apoio da radiologia ao Serviço de Urgência noturno do Hospital de São José passará em parte a ser efetuado com recurso à telemedicina". Isto é, os exames radiológicos realizados na Urgência durante a noite vão ser interpretados por médicos no exterior do hospital que prestam serviços de telemedicina. No São José não estará um radiologista para fazer o diagnóstico do doente a quem foi feito o exame para o posterior tratamento.

A demora no diagnóstico é uma das possíveis consequências imediatas, a que se juntam outras, como eventuais falhas na interpretação do exame e na posterior intervenção clínica. Por exemplo, não estando um radiologista em presença, a realização do próprio exame pode logo ter lacunas na imagem que é obtida. Além disto, sem um especialista ao serviço deixa de ser possível realizar ecografias. As situações que podem ser avaliadas com ecografia, sem radiação, têm de avançar para a TAC, mais complexa, que sujeita o doente a radiação e, quase sempre, com maiores encargos para o Serviço Nacional de Saúde. O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) conhece os riscos e vai reagir.

Pedida visita da Ordem dos Médicos

O secretário-geral do SIM, Jorge Roque da Cunha, afirma que "vai ser exigido que a Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos faça uma visita ao hospital, estamos já a elaborar o documento". O sindicalista diz que "é lamentável que um grande hospital, que recebe doentes do resto do país, deixe de ter um serviço de radiologia presencial e revela a incapacidade da administração em manter os recursos humanos e em atrair médicos".

Em resposta ao Expresso, o CHLC diz que "o recurso à telerradiologia é comum nos hospitais, quer no nosso País quer internacionalmente" e que se "trata de uma boa prática de recursos humanos para a tarefa de produção de relatórios de imagiologia". "Na sua prática clínica, nomeadamente no atendimento urgente, os médicos consultam os exames solicitados e, complementarmente, os relatórios produzidos por especialistas. Estes relatórios podem ser realizados por médicos do CHLC ou recorrendo a serviço exterior. Além do cumprimento rigoroso de prazos, os profissionais que executam no exterior os relatórios de exames ficam disponíveis, por contrato, a prestar todos os esclarecimentos adicionais que forem considerados necessários pelos colegas prescritores".

O CHLC garante que "não há prejuízo para os utentes nem quaisquer perdas de tempo ou qualidade face aos relatórios de exames produzidos pelos médicos residentes". "Para o CHLC, que tem responsabilidades ao nível académico, esta solução tem, no entanto, de ser limitada e transitória, o que acontece neste caso, na medida em que a telerradiologia só ocorre das 00:00 às 08:00, período em que o número de exames é reduzido. No restante horário, os exames e respetivos relatórios são assegurados pelos radiologistas do CHLC."