Sociedade

Jornalismo: papel, drones, inteligência artificial e redes sociais

Três dias para discutir o futuro do jornalismo e descobrir que ele já chegou

Ana França

Ana França

Jornalista

Na secção dos quartos para crianças do novo catálogo do IKEA está um berço muito bonito, todo em madeira. Ao lado um imperativo inusitado: “Urine aqui”. O papel, numa maravilha da interatividade impossível a qualquer ecrã, torna-se um teste de gravidez. Se estiver grávida, a futura mamã não só ficará a saber da notícia através de um catálogo de móveis, como saberá também a promoção a que tem direito naquele berço do qual tanto gostou. O papel, afinal, tem futuro dentro.

Ulbe Jelluma, messias belga dos meios de comunicação impressos, esteve em Lisboa no 70º Congresso Mundial de Imprensa e Fórum Mundial de Editores e explica porque é que não podemos descurar a versatilidade, o prestígio e especificidade do papel. “Em 2014, as vendas da circulação e das subscrições ultrapassaram pela primeira vez o lucro que antes vinha da publicidade, porque ela não migrou para o digital como se previa. O nosso foco tem de continuar a ser no leitor porque as pessoas querem ler bons jornais, também e ainda em papel”, diz a uma audiência que pousa os iPhones para lhe bater palmas.

Nos três dias que durou a conferência fez-se alguma futurologia mas nada do que foi dito é futurismo. Algumas das mudanças mais acrobáticas no jornalismo ainda estão para acontecer, mas muitas já se desenham no horizonte. A questão é só saber quando os seus contornos se tornarão totalmente tangíveis.

Há a visão de Raphael Benoît, presidente da Flint Media, uma empresa francesa que está a explorar o alcance da inteligência artificial nas redações de amanhã. Flint é o nome de um robô que faz a curadoria da internet e nos envia todas as manhãs aquilo que mais queremos ler.

Há também o futuro de Molly Bigham, fundadora da Orb Media, uma plataforma de jornalismo de investigação que só publica seis histórias por ano, todas com potencial para chegar a “milhões e milhões de pessoas”. Doze pessoas em cinco países formam a equipa e o impacto de dar tempo ao jornalismo é este: em 2017, a Orb publicou um artigo onde ficava provado que 93% da água engarrafada que consumimos e 83% daquela que está nas torneiras contêm pedaços microscópicos de plástico. Foi uma história mundial, mudou leis e incentivou dezenas de investigações à qualidade da água em todo o mundo. “Esta história gerou 7198 menções da nossa marca em 30 dias, chegou a 37 milhões de pessoas em 111 países e foi publicada em todos os principais meios de comunicação do mundo”.

Mas também há o futuro de Yusuf Omar, fundador do Hashtag Your Stories, uma rede mundial de repórteres que operam sozinhos a partir de algumas das zonas mais desfavorecidas do mundo. Que jornalista é, afinal, o do futuro? É individualista e solitário, ou um animal social, que só consegue vingar na companhia do resto da matilha?

Yusuf Omar decidiu, quando ainda nem tinha 25 anos, que estava farto que lhe dissessem o que (não) podia fazer no jornalismo. Não podia ser correspondente, como sempre tinha sonhado, não havia dinheiro; não podia utilizar o telemóvel para fazer vídeos informativos, não havia audiência. Pegou numa mochila e foi fazer isso tudo sozinho. Hoje defende que o jornalista do futuro terá de ser totalmente autónomo, “capaz de comandar um drone com uma mão e fazer um direto para o Facebook com a outra”, como disse ao Expresso.

A democratização do acesso aos meios de produção de conteúdos jornalísticos foi a revolução onde germina o futuro da área mas, nas mesmas redes sociais onde pasmamos em direto com o ato heroico de um imigrante do Mali que salva uma criança de cair de um prédio, surgem ataques pessoais assustadores que destroem vidas em minutos. E passam milhões de imagens adulteradas, milhões de textos fabricados que não podem ser verificados fora de uma redação profissional. Stephen Rae, diretor do grupo irlandês Independent News e consultor da União Europeia na área de desinformação e proliferação de notícias falsas, diz que o mais importante é “encontrar forma de responsabilizar as redes sociais por aquilo que aceitam publicar e difundir”. E ter cuidado. “Enquanto estivermos a tentar responder à velocidade com que se publicam coisas nas redes sociais, vamos estar a publicar conteúdo menos completo, com menos níveis de edição, menos diversificado, mais condizente com visões extremadas de um determinado assunto. Não podemos passar a vender só ódio e raiva”, diz Rae.