Sociedade

Madeireiros portugueses acusados de sobre-exploração da floresta congolesa

Global Witness

Organização não governamental Global Witness aponta o dedo a uma empresa detida por três irmãos portugueses como sendo uma das responsáveis pela desflorestação “ilegal e sistemática” da floresta tropical congolesa. Portugal é um dos principais importadores europeus de madeiras exóticas

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Uma investigação conduzida ao longo de dois anos pela Global Witness revela que a empresa Norsudtimber — com sede no Liechtenstein e de que são sócios três irmãos portugueses — é responsável pela exploração ilegal de 90% das concessões de madeira que detém na floresta tropical da República Democrática do Congo (RDC). Esta empresa e as suas subsidiárias — Sodefor, Forabola e La Forrestière du Lac, de que são sócios os irmãos Trindad — explora árvores de espécies ameaçadas ao longo de 40 mil quilómetros quadrados neste país africano e controla 60% do comércio internacional de madeira.

Em causa está a destruição de habitats que deviam ser protegidos e que servem de casa para espécies ameaçadas como o chimpanzé-pigmeu, assim como a emissão de milhões de toneladas de gases de efeito de estufa como o CO2 devido à massiva desflorestação. As árvores das concessões detidas pela empresa em causa precisam de 100 a 230 anos para atingirem o seu diâmetro mínimo, mas são sujeitas a planos de corte de 25 em 25 anos. E aos habitantes locais não chegam benefícios nenhuns, garante a ONG.

“A Norsudtimber está a cortar a floresta tropical ilegalmente e a lucrar com isso, graças a uma estrutura corporativa secreta baseada em paraísos fiscais”, acusa Jules Caron, um dos ativistas desta organização não governamental que investiga a ligação entre exploração de recursos naturais, corrupção e abusos de direitos humanos a nível mundial. As empresas acusadas de desflorestação ilegal têm sede em paraísos fiscais no Lichtenstein, Dubai ou Hong Kong.

Reagindo às acusações, a empresa emitiu um comunicado negando os dados revelados no relatório da Global Witness e argumentando que cumpre a legislação congolesa. O Expresso tentou obter uma reação dos irmãos Trindade, sem sucesso.

Para Jules Caron “não é surpresa que as leis não sejam cumpridas na RDC, mas é chocante que países como a Noruega e a França queiram financiar a exploração industrial da floresta tropical em contradição direta com os seus compromissos para refrear as alterações climáticas”. Por isso a Global Witness apela a estes dois países — que vão ser anfitriões de duas conferências sobre florestas esta semana — para que “demonstrem o seu compromisso em combater as alterações climáticas e anunciem que não vão apoiar a expansão da indústria madeireira na floresta tropical da RDC”.

Em causa está um programa de cerca de 15 milhões de euros para a chamada “gestão sustentada da floresta”, apoiado por fundos noruegueses e franceses para expandir a indústria madeireira congolesa. Uma análise feita por peritos da Agência Francesa para o Desenvolvimento estima que este programa contribua para um aumento anual de 35 milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera.

França e Portugal são os principais países europeus importadores destas madeiras exóticas, sendo que 78% das exportações realizadas entre 2013 e 2017 seguiram para o Vietname e para a China.

O relatório da Global Witness revela também “uma total falha do sistema”, já que “falham os governos, os doadores e os comerciantes em prevenirem a destruição de uma das florestas tropicais mais críticas no que toca ao clima”. A aplicação das leis que previnem o comércio ilegal de madeira exótica na Europa “são fracas”, constata o relatório.

Esta ideia é confirmada ao Expresso por Domingos Patacho, da associação ambientalista Quercus que em anos anteriores denunciou situações semelhantes detetadas pela Greenpeace: “A capacidade de fiscalização das autoridades portuguesas, nomeadamente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (que tem a competência de fiscalizar as madeiras exóticas importadas) é quase nula por falta de meios”.