Sociedade

Mataram Jay e Lauren ao 369.º dia

Jay e Lauren fizeram o que muitos já pensaram fazer: despediram-se do emprego e foram viajar pelo mundo. Deixaram os EUA em direção a África, passaram pela Europa e seguiam agora pela Ásia. Queriam dar a volta ao mundo de bicicleta. Foram assassinados

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África, Europa, Ásia. “Neste momento no Tajiquistão.” Jay Austin e a namorada Lauren Geoghegan estavam naquele momento no Tajiquistão, no centro da Ásia, entre o Afeganistão, o Turcomenistão, Usbequistão, Quirguistão e China. Ali era difícil pedalar – e eles sabiam bem avaliar a dificuldade do terreno, há um ano que andavam de bicicleta pelo mundo -, fazia vento e frio, a altitude nas montanhas não deixava Lauren respirar. “Neste momento no Tajiquistão.” Já passaram dez dias desde que os mataram. No perfil em que partilhavam a viagem continua a mesma biografia: “Neste momento no Tajiquistão.”

Jay e Lauren, 29 anos, norte-americanos, deixaram os respetivos empregos para “viver o sonho”. Queriam viajar pelo mundo: ver elefantes no Botsuana, acampar no Malawi, fazer praia em Nungwi, no Zanzibar, ver as igrejas ortodoxas na Turquia ou subir até à vila de Sary-Tash no Quirguistão. Queriam e foram fazê-lo. Há duas semanas, quando atravessavam uma estrada a caminho de Danghara, no Tajiquistão, acompanhados de mais cinco ciclistas, um carro passou. Atropelou-os e seguiu em frente. Os corpos dos quatro ficaram estendidos no chão com as pernas entrelaçadas nas bicicletas. O condutor abrandou e inverteu a marcha, voltou a passar-lhes por cima. Assassinados.

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Era o 369.º dia de viagem de Jay e Lauren. As outras duas vítimas mortais tinham nacionalidade suíça e holandesa. Segundo o ministro do Interior do Tajiquistão, citado pela imprensa internacional, seguiam no carro cinco pessoas que, após o atropelamento, saíram do veículo e atacaram o grupo com pistolas e facas. Dias depois, através das redes sociais, o Daesh reivindicou o ataque e assegurou que se tratava de “soldados do califado”. A embaixada dos EUA no país confirmou em comunicado que pelo menos um suspeito foi abatido e três detidos pelas autoridades.

“Iremos estar atentos a avisos, tendências e vamos sempre escolher os caminhos com menor risco, mas não vamos evitá-los de todo (obviamente, será impossível). A vida é quase sempre aborrecida e pouco aventureira em quase todos os lugares do mundo e não vamos excluir países simplesmente porque algo aconteceu ou porque o Governo norte-americano e o governo de determinado país não se dão bem”, escreveu o casal no blogue “Simply Cycling”, que criaram quando começaram a viagem. Não tinham medo do caminho que iam fazer mas prometiam ser cautelosos.

O Tajiquistão aparentemente não seria dos locais que podiam causar mais problemas, aliás, 2018 foi declarado como “o ano do turismo” no país - e também por isso houve alguma cautela em usar a palavra ‘terrorismo’ para o que aconteceu. É frequente encontrar ciclistas estrangeiros pelas estradas do país.

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Chapéu, 56 gramas. Tablet, 311 gramas. Jay e Lauren pesaram cada grama que guardaram nas malas quando saíram de Washington D.C. em julho do ano passado. Tudo o que levariam de casa seria carregado às costas e quanto mais peso mais difícil a viagem. Ainda mais quando era imprescindível o material de campismo, contaram os amigos ao “New York Times”, que esta terça-feira publicou um perfil do casal.

Há outra forma de viver

Hey amigos!
Grandes notícias. Dentro de seis semanas, a Lauren e eu vamos despedir-nos dos empregos e deixar DC para pedalar pelo mundo durante os próximos anos. Estou entusiasmado, mas é terrivelmente triste despedir-me de tantas pessoas bonitas que me são próximas há tanto tempo. Gostava de vos ver a todos ou falar ao telefone antes de ir embora, por isso digam se ou quanto vão estar por aqui!”

A 16 de maio do ano passado, Jay anunciava a despedida aos amigos. No perfil de Instagram que em breve se viria a tornar uma espécie de diário de viagem, deixou os detalhes gerais dos planos com a namorada: voar até à África do Sul, seguir de bicicleta até ao norte de África, chegar à Europa e rumar à Ásia. “E se conseguirmos chegar tão longe, depois Austrália e Américas.” Além de pedalar, planeavam deslocar-se algumas vezes de avião e barco, iam carregados com tendas e todo o material de campismo. Criar um blogue, fotografar com o telemóvel e publicar “sempre que houvesse rede” era rotina planeada.

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Conheciam-se há quase 20 anos. Tinham daquelas histórias de miúdos que eram amigos durante a adolescência, cresceram juntos e um dia perceberam o que os unia. Licenciaram-se na prestigiada universidade norte-americana de Georgetown, em Washington. Jay trabalhava no departamento de habitação e desenvolvimento urbano, Lauren no gabinete de candidaturas da universidade.

Cansei-me de passar a maior parte do tempo à frente de um retângulo brilhante, de pintar os melhores anos da minha vida apenas em tons de beije e cinzento. Sinto falta dos vários pôr do sol a que virei as costas. Demasiadas tempestades ficaram por ver, demasiadas brisas ficaram por notar.” Dias antes de deixar o trabalho, Jay explicou no blogue aquilo que o fez querer mudar de vida. “Sei que há outra forma de viver. Tenho explorado isso e agora é tempo de me comprometer.”

Segundo o “New York Times”, Jay tinha a ambição de viver com o mínimo possível, livrar-se de tudo o que não era essencial. Construiu a sua casa com apenas 13 metros quadrados – o feito foi motivo de várias reportagens – e era vegetariano.

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Os dois viajaram muito, para longe, quase sempre por muito tempo. Ela já passara o verão em Beirute, no Líbano. Ele percorreu os EUA de scooter, a Europa de comboio. Ela fora uma temporada para Madrid para aprender espanhol. Ele estivera uns tempos na Namíbia e conhecera a Índia.

Agora, na sua volta ao mundo, num dia normal pedalavam 40 quilómetros por dia; num dia em que era suposto só viajarem, chegavam a fazer 60. Contavam com pouco mais de oito mil dólares para um ano, 700 por mês, 23 por dia.

Se o caminho não tivesse sido interrompido, estariam agora algures num outro país. Jay e Lauren falaram em dar a volta ao mundo, pedalar durante mais um ou dois anos. “Mas só se estivermos a gostar.”