Sociedade

“Vêm lá de Lisboa e não conhecem nada disto”: o fogo que faz o barulho do mar

José Silva e Nelson, sogro e genro, recusaram abandonar o café e as casas em São Bartolomeu de Messines. Prepararam-se para o combate, discutiram com a GNR e enganaram bombeiros. Esta é a história de dois homens que se cansaram de esperar e que se defenderam atacando

Hugo Tavares da Silva

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Tiago Miranda

A esplanada do Snack Bar Silva, em Vale Fuzeiros, estava composta. Bebiam-se cervejas e traçavam-se as coordenadas do fogo. O sol vestia uma cor pouco habitual, parecia ferver, e as nuvens de fumo prometiam uma pausa na calmaria. A correria ansiosa de um GNR validava a sensação: “É para sair tudo! Já! Vêm cá outro dia, o fogo está já ali”.

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As pessoas estão pouco convencidas. Dão-se mais uns goles nas garrafas, com calma. O agente volta à carga, irritado. Sairiam quase todos, menos os da casa. José Silva, o dono do estabelecimento, tem em Nelson, o genro, o fiel companheiro. Vivem ali todos, nas casas por cima e ao lado do café. Decidiram ficar e defender o que é deles.

António, um pedreiro da autarquia com um bigode impecável, também ficou e assumiu-se como uma espécie de porta-voz do grupo. É fluente no discurso, tem paciência para explicar os ventos e as vontades dos fogos. Tem ideias e acabaria por acertar em tudo o que aconteceria. A bengala que lhe ampara as certezas é a recordação de 2003, o tal incêndio que castigou 40 mil hectares de Monchique.

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As chamas esfomeadas acabariam por chegar à Serra da Venda. Fechando os olhos, parece que ouvimos o mar. Aquela lengalenga de estar tudo calmo num momento e de repente estar tudo completamente descontrolado é mesmo assim. O vento dita o fado daquela terra, que é a terra da gente. Os sobreiros, lá ao longe, alimentam a besta. Veem-se labaredas enormes que parecem querer fazer cócegas ao céu.

António, sempre, sempre com um tom pacificador, vive indignado pelas decisões e indicações chegarem de pessoas que não conhecem o terreno. “Vêm lá de Lisboa e não conhecem nada disto. Podia-se atacar o fogo quando está pequeno, em certas zonas que têm acesso. Mas eles não sabem. Os bombeiros falam em ordens, que têm de seguir ordens. Eu percebo, mas pergunto: se lhes estiverem a arder as botas também não fazem nada? Isto só vai acabar quando acabar a mata.”

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O sol está cada vez mais vermelho. Ouvem-se sirenes. Os populares temem o fogo que se esconde pela encosta do lado direito. Há duas frentes. A que está à frente dos olhos impõe respeito, galga a uma velocidade impressionante, engolindo árvores e mais árvores. Mas eles estão preocupados com o que vem de São Marcos, pela direita, ainda escondido. O vento não está favorável, o fogo poderá seguir na direção deles.

Vai-se censurando a maneira de atacar os incêndios. Se há reacendimentos, os rescaldos foram mal feitos. “Com tanta gente no terreno, não há razão para isto estar assim.”

“O Sérgio está feito”, diz um dos homens. As casas de madeira que lhe pertencem para turismo rural têm o destino traçado. Subitamente, surge outro GNR, que grita ainda mais que o primeiro.

- Mil e trezentos bombeiros não conseguem apagar isto e vocês com uma mangueira conseguem. São os maiores!
- Eu não vou a lado nenhum.
- Vem aí o fogo!
- Eu sei.
- Já sei que sabe tudo desta merda.
- ‘Tá bem. Vocês só andam aqui de carro…

O ambiente ficou tenso por largos segundos. Uns querem evitar deixar pessoas para trás, outros não aceitam o cenário de abandonar o que lhes pertence. Quando a razão parece morar nos dois lados, é quase macabro que o juiz daquela conversa seja o vento. Esse rebelde invisível vai escolher.

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Henrique, um dos mais velhos e porventura aquele com o ar mais perdido e derrotado, ia dizendo que se o vento rodasse teriam todos de fugir dali para fora. “Se chegar aqui, chega a Messines e Amorosa. Está terrível.”

Às 18h40 aquelas casas ficaram sem eletricidade. Água nunca faltariam, garantem. O fogo segue descontrolado ali à frente. O que vem da direita finalmente apareceu, mas mais adiante, ameaçando uma ou outra casa. Vão passando carros e autotanques das autoridades e bombeiros. “Tiram as pessoas e deixam queimar”, diz António, que aponta o dedo à forma como as pessoas são retiradas das localidades. Tem de haver outro trato, diz. Obrigar alguém a sair de casa, então, é impensável para este homem. Quem é da terra é que sabe se fica e defende o que é seu.

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Uma raposa surge do meio do trigo e até isso representa uma preocupação: “Se apanha fogo na cauda, queima tudo por onde passa”. Ouvem-se rebentamentos, talvez madeira, talvez um armazém engolido pelas chamas. O fumo já dificulta a visão. O ar está quente.

Por esta altura, estavam quase a chegar ali dois autotanques. Na mesma altura, a terceira patrulha da GNR visitou este lugar durante somente dois minutos. O condutor, mais novo, tinha lágrimas nos olhos e abanava a cabeça. As coisas não estão bem.

O fogo do lado direito chega finalmente à estrada. Nelson, um homem que hesita pouco, larga a mangueira que rega as imediações da casa e sobe para cima da pick-up. Vão atacar as chamas e travar o avanço para algumas casas.

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São bem-sucedidos e António sorri, orgulhoso pelo prognóstico duas horas antes. “Foi fácil. Não foi o que eu disse?”, mostra a sua veia mais gabarola. “As pessoas da terra é que sabem”, vai insistindo.

Aquela vitória enche aqueles homens de orgulho e coragem. Querem atacar o fogo que vai lá à frente, já fragmentado e menor. É improvável que as autoridades que cortam as estradas os deixem passar. É aí que entra em ação José Silva, até ali um fantasma. Com um boné com padrões tropa a dizer “Vogue”, a barba de três dias e óculos escuros, ameaçou: “Se não passa civil, visto a farda de militar”, arranca uns risos.

Mas eles tinham outro plano, a ratoeira já estava montada. Encheram os depósitos novamente e saíram pela porta de trás, numa estrada de terra. Em dois minutos já estavam no lugar que queriam. E o fumo branco falava ao mundo de outra rendição. E de outra vitória.

Tiago Miranda