Sociedade

Bob e Juliette, o casal inglês que fugiu do fogo numa caravana sem travões

TIAGO MIRANDA

Bob, Juliette e o filho Herby tiveram de sair de Amorosa, que estava ameaçada pelo fogo de Monchique na quarta-feira, e ficaram ali junto à água a pensar no melhor plano

O retrovisor deixava para trás Vale Fuzeiros, uma terra ameaçada por dois fogos. A população, que ficara duas horas a explicar o que devia ser feito, deixou o fogo fragmentar-se e apagou duas pequenas frentes e ganhou o dia.

Aquela estrada levou-nos a outro lugar com um cenário belíssimo, com vegetação, uma barragem e um céu indeciso. Lá em baixo, junto à água, estavam pessoas, com uma autocaravana gigante, um jipe, cavalos e cães. Um deles ladrava como quem fala a sério. “Ele não morde”, diz Herby, o filho de 20 anos, sossegando os que acabam de chegar.

“Não vivemos aqui, fomos retirados de Amorosa. Tivemos de trazer tudo, não temos mais nenhum sitio”, conta. O rapaz nasceu nesta terra, mas os pais, Bob e Juliette, são ingleses. Mudaram-se para cá na década de 80.

TIAGO MIRANDA

“O plano é esperar até nos deixarem voltar”, vai contando Herby, enquanto o som de periquitos sai daquela autocaravana, que, com um aparente cansaço atroz, surpreende ainda estar viva. A mãe vai dando gargalhadas junto à água. A imagem é quase cinematográfica.

- Não queríamos ficar encurralados pelo fogo.
- … Mas talvez fiquemos aqui, já que vem por aí abaixo outra vez.

Mãe e filho percebem que têm de seguir e arranjar abrigo para os cavalos. Bob surge pouco depois, com uma postura ainda mais relaxada, meio amassado e roupa que não conhece o ferro de engomar há muito. Faz bastante vento.

“Eu ficava aqui um mês”, atira Bob. Juliette gargalha, não lhe faz caso. “A autocaravana não andava há 10 anos. Não tem travões, por isso ligamos uma corda ao jipe para ir atrás a travar nas descidas. Usamos isto como um anexo de nossa casa. Se a casa arder, pelo menos temos alguma coisa”, explica este mecânico de profissão.

A mulher, Juliette, trabalha na vila na área da hotelaria. Recebe pessoas e faz limpezas.

TIAGO MIRANDA

Bob veio ao Algarve em 1983, de férias, num carro desportivo e gostou do que viu. Voltou pouco depois, comprou ali uma terra com o dinheiro de família que herdou e o rio servia de destino para relaxar. “Mudámo-nos para cá porque é simpático. E porque as pessoas são simpáticas. E normalmente porque o tempo é simpático”, revela, com um sorriso terno. Bob nasceu em Inglaterra mas foi muito pequeno para a Austrália. O regresso só aconteceu aos 16 anos. Essa vida de estar cá e lá, de aventura, levou-o automaticamente a desabafar sobre o Brexit. Está desiludido.

Herby, que se aproximou entretanto dos cavalos mais velhos do que ele, estuda na Universidade de Aveiro e vai obter brevemente o passaporte inglês. “Está em biomecânica, nem sei ao certo. Sou mecânico. Pelo menos não vai para mecânico, é uma vida terrível. Ele está na Ciência, se calhar um dia vai ser médico ou trazer pessoas de Marte. Está a ficar frio…”

Quando descobre que está a falar com jornalistas, junta as peças do porquê de tanta curiosidade, e magica um título para o artigo: “Como os ingleses escaparam do fogo”. E ri-se.

Este homem ainda está encantado por Portugal. “É um país maravilhoso. O resto do mundo devia ter Portugal como exemplo, deviam ver como as pessoas vivem ‘tranquilo’ [aventura-se no português]. Devemos fazer como as pessoas.” Viver devagar? “Sim. Desde que não magoes ninguém, és livre. Deixam-te ser. Há 30 anos tinha outro cabelo, outras cores, os mais velhos olharam um bocadinho de lado. Depois viram que não éramos um problema, mas nunca tinham visto ninguém como eu”, explica, desculpando-os.

TIAGO MIRANDA

Herby já está junto dos cavalos, ali perto da água. O nome dele intriga. “Herby, como o carro”, já dissera. Pedimos ajuda a Bob. “Sabes o Volkswagen? Eu sou mecânico, sabes… Vá, não é verdade. O meu bisavó chamava-se Herby, foi morto na guerra, quando os alemães… Mas achei que tinha mais piada dizer que lhe meti o nome por causa do Volskwagen.”

Nem tudo tem sido ‘tranquilo’. Bob tem diabetes e teve um problema com álcool. O medronho foi uma perdição. Virou o carro ao contrário, partiu a casa. Não se lembrava de nada na manhã seguinte.

“Fui dos 108 quilos para os 61, agora tenho 83. Sinto-me muito melhor, não bebo uma cerveja há dois anos e meio. Tive de aprender a viver outra vez. Já não tinha 20 anos. Com 54 queria viver como se tivesse 20. O meu corpo disse para ter cuidado, ‘se queres ver o miúdo a crescer. Bebi o suficiente por todos nós”, lamenta. Juliette está mais feliz assim, garante.

Voltam às coisas deles, arrumam tudo. Herby, que vai a pé com os cavalos, sorri quando perguntamos sobre a vida venturosa dos pais. Encolhe os ombros. “Já fizeram coisas piores. Sabem o Mini Moke [veículo também conhecido por buggy]? Fizeram uma volta a África num. Durou meses.”

TIAGO MIRANDA