Sociedade

Vamos salvar o planeta? A solução passa por comer 90% menos porco e 75% menos vaca

Marcos Brindicci/Reuters

Só uma redução drástica, especialmente nos países desenvolvidos, poderá conter essa evolução perigosa

Luís M. Faria

Jornalista

O consumo de carne está a destruir o planeta a a solução é comer menos carne. Muito menos: 90% menos porco e 75% menos vaca. O consumo de leite e ovos também precisa de ser reduzido drasticamente, e em troca devemos aumentar o consumo de vegetais e frutos secos. São as recomendações-chave de um estudo agora publicado na revista Nature, que se segue ao grande relatório sobre a iminência de alterações climáticas irreversíveis, tornado público na segunda-feira.

Além dos efeitos da carne na saúde humana (como tem sido notado, existe uma larga coincidência entre aquilo que convém às pessoas e o que protege o planeta, e vice-versa), a produção de carne representa um enorme desgaste ecológico. O relatório sintetiza muita da informação disponível. Para acrescentar para um quilo de vaca são precisos dez quilos de ração - cujo fabrico produz dióxido de carbono.

As vacas também produzem enormes quantidades de metano, um gás altamente poluente. Além disso, a utilização de fertilizante nas pastagens constitui um risco adicional para a saúde, dado que muitos químicos acabam por escorrer para os cursos de água e por essa via entrar na alimentação humana.

Próximo dos limites

O relatório recomenda mudanças tanto na alimentação como no modo como se faz agricultura. O responsável principal do estudo, Marco Springman (investigador do programa Martin sobre o Futuro da Alimentação, em Oxford), explica: "Tudo junto, concluímos que melhorias nas práticas e tecnologias agrícolas podem levar a grandes reduções nos impactos ambientais do sistema alimentar, juntamente com mudanças alimentares para dietas mais baseadas em plantas e reduções na perda e desperdício de comida".

O estudo estima que um terço de toda a comida produzida nunca chegue a ser consumida. Em certos países desenvolvidos a percentagem é superior. Para esses países, aliás, as recomendações do estudo aplicam-se de forma especialmente intensa. Os Estados Unidos, por exemplo, deviam consumir 90% menos vaca do que a que consomem atualmente.

Infelizmente, com o advento de novas classes médias em países como a China, a tendência internacional vai em sentido contrário. É verdade que muitos países pobres ainda têm necessidade de aumentar o seu consumo de carne e leite, por motivos nutricionais, mas essas evoluções precisam de ser compensadas noutros países.

"Se as mudanças sócio-económicas no sentido de padrões ocidentais de consumo continuarem, as pressões ambientais do sistema alimentar intensificar-se-ão", conclui o estudo, "e a humanidade em breve aproximar-se-á dos limites planetários no uso global de água doce, utilização dos solos e acidificação oceânica".