Cultura

Diagnóstico: pessimismo terminal

“After Life” foi o grande projeto de Ricky Gervais nos últimos anos. O primeiro rascunho da série surgiu em 2011, mas o argumento final é bem diferente

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Ricky Gervais escreve, realiza, produz e protagoniza “After Life”, já disponível no Netflix. Longe do registo mais leve que muitos lhe conhecem, conta a história de um jornalista viúvo que vê na morte a sua única saída

O melhor é esquecer tudo o que viu de Ricky Gervais em “The Office” (onde além de escrever o guião interpretava o comerciante de papel David Brent) e deixar também de lado o seu papel no filme “Special Correspondants” ou os espetáculos de comédia ao vivo — “Humanity” é o mais recente —, que sempre foram o seu palco. “After Life” é diferente de tudo o que se viu até agora do humorista britânico. E nem com a bem sucedida “Derek”, última série que protagonizou, é possível fazer um paralelismo justo.

Tudo começou há cerca de oito anos, mesmo que o que estivesse em causa na altura fosse um guião algo diferente do que depois deu origem a “After Life”. Na sua versão inicial, de 2011 e que acabou por nunca avançar, a ideia passava por relatar a história de um ateu que vai para o céu depois de morrer, algo que acabou por ser abandonado pelo criador da comédia dramática.

Em vez disso, Gervais fez de Tony, um homem que após a morte da mulher decide dizer e fazer apenas o que quer — sem olhar ao seu bem-estar ou ao daqueles que o rodeiam —, ao mesmo tempo que tem de lidar com a boa vontade de quem o conhece e pretende ajudar. Esta é, de acordo com a Netflix, a história de “um viúvo devastado, que adota uma postura na vida de ‘nada a perder’, o que faz com que ele crie novas ligações inesperadas”.

É que a vida de Tony não é mesmo fácil, como expressou Ricky Gervais. “A minha mulher está morta. E eu mal posso esperar para me juntar a ela. O meu pai tem demência. E a enfermeira dele odeia-me”, escreveu, lembrando como a personagem que criou e interpreta trabalha “para um jornal local e gratuito”, no qual é obrigado a lidar “com idiotas o dia todo”.

O potencial cómico de uma história como esta seria elevado, mas “Louie” — com o também humorista Louis C.K. — mostrou que essa possibilidade não está em aberto sempre que é alguém ligado ao humor a tomar as rédeas da produção. O mesmo acontecerá com a comédia dramática (ou drama com momentos de alguma comédia) que agora se estreia. Fica o aviso: “After Life” não é de todo uma sitcom e são vários os momentos em que isso é vincado.

A título de exemplo, há uma sessão de terapia que começa com o psicólogo a perguntar-lhe como se encontra, com a questão a ser respondida com palavras de quem está à beira de cometer uma loucura. “Um bom dia é quando não me apetece alvejar desconhecidos na cara e depois virar a arma para mim”, diz Tony sem sequer se mostrar perturbado com as palavras que diz. A esposa falecida até pode ter deixado um guia de sobrevivência ao marido, mas resta saber se este quer mesmo prolongar o seu sofrimento terreno depois dos anos felizes que passaram juntos.

CONTROLO CRIATIVO

Ricky Gervais é o nome principal do projeto, mas isso não acontece sem uma razão. Embora tenha sido ao lado de Stephen Merchant que conheceu os maiores sucessos da sua carreira, é agora sabido que os dois criativos britânicos optaram por seguir caminhos diferentes (e que em causa está a quase obsessão de Gervais pelo controlo criativo integral das produções em que se envolve). Desta vez conseguiu.

Do elenco principal de “After Life” fazem parte Kerry Godliman (no papel de Lisa, a mulher de Tony), Tom Basden (o cunhado Matt), Tony Way (o melhor amigo Lenny), David Bradley (o pai) e Ashley Jensen (a enfermeira deste último). A eles juntam-se Penelope Wilton, David Earl, Joe Wilkinson, Mandeep Dhillon, Jo Hartley, Roisin Conaty, Tim Plester e Diane Morgan, num grupo maioritariamente formado por atores que já trabalharam com Ricky Gervais em projetos anteriores. A série original da Netflix, produzida pela Derek Productions, é composta por seis episódios e foi criada, escrita e realizada por Ricky Gervais. Com produção de Charlie Hanson e produção executiva de Duncan Hayes, já está disponível em streaming.