Em nome do Senhor
30.03.2019 às 23h00
Daniel Radcliffe interpreta Craig, e Steve Buscemi é Deus em “Miracle Workers”
Daniel Radcliffe, o eterno Harry Potter que cresceu entre o cinema e a televisão, transformou-se num profissional completo. Agora produz e protagoniza a série antológica “Miracle Workers”, já disponível em streaming na HBO Portugal
A Terra está um verdadeiro caos e são poucas as possibilidades de o planeta ser salvo. Há desastres por toda a parte e já nem Deus acredita na salvação. O Todo Poderoso, interpretado por Steve Buscemi, está lá desde o início dos tempos, mas os resultados não foram os melhores e acabou por desistir, anunciando que vai implodir a Terra. Está desanimado e julga ser esse o único caminho, mas há também no reino dos céus quem queira impedi-lo.
Craig (Daniel Radcliffe) e Eliza (Geraldine Viswanathan), dois funcionários da Heaven Inc. a trabalhar no Departamento de Preces Atendidas, são a única esperança neste momento negro da história da Humanidade, prestes a desaparecer. “O céu é um escritório nesta comédia de local de trabalho”, como explica a HBO Portugal, recorrendo a uma metáfora, “e o patrão está de mau humor”. Agora, “desencantado com a Terra que Ele criou, Deus tenciona acabar com ela de vez e avançar para um novo projeto, tal como todos os bons empreendedores”. Mas a verdade é que até o empreendimento de “Miracle Workers” podia nunca ter começado.
Se Daniel Radcliffe não tivesse rodado “Versos de um Crime” em 2013 era quase certo que “Miracle Workers” não existiria em 2019, e que este milagre televisivo nunca teria chegado à televisão — através do canal norte-americano TBS — ou ao streaming (em serviços como o da HBO Portugal). Mas quis o destino, ou não fosse esta uma série que mexe com o lado mais espiritual, que isso não se acontecesse e que os astros se alinhassem para tudo chegar a bom porto.
Foi durante a rodagem do drama biográfico que o ator britânico conheceu Erin Darke e foi o nascimento de uma relação amorosa entre os dois que despoletou uma série de acontecimentos que levaram ao ponto em que hoje nos encontramos. Erin era uma grande fã da escrita de Simon Rich e tentou pegar esse gosto ao namorado, com um sucesso que nem ela julgava possível. Radcliffe começou logo a explorar a obra do escritor, entre livros e outros contos, e achou-os demasiado bons para se manterem apenas entre páginas. “What in God’s Name” acabou por se revelar a melhor narrativa para trabalhar, mas esse era um passo que não podia dar sozinho. Não o deu. Só que também não conseguiu ficar parado.
Numa altura em que queria explorar outros dons além da representação, decidiu encontrar uma forma de se encontrar com o escritor e argumentista. Conseguiu e fez um pedido que Simon Rich não esperava, muito menos vindo do eterno Harry Potter. Radcliffe pediu-lhe para que, caso decidisse algum dia fazer algo a partir do livro, o contactasse. E foi exatamente isso que aconteceu. Rich amadureceu a ideia e rapidamente começaram a trabalhar em conjunto sobre as páginas de “What in God’s Name”, com a vasta experiência no meio televisivo a dar uma grande ajuda. É que poucos saberão, mas o escritor trabalhou como argumentista em projetos como os filmes de animação “Divertida-Mente” ou “A Vida Secreta dos Nossos Bichos”, assim como na série “Os Simpsons” (FOX) e no programa “Saturday Night Live” (NBC). Foi uma sucessão de bons acasos e uma soma de dois grandes talentos.
O resultado é uma comédia de episódios curtos que tem muito de “The Good Place” (NBC/Netflix), nomeada para dois Golden Globes, mas que pode ir além das parecenças e diferenciar-se, crescendo nos próximos anos com novas histórias. A ideia é que, depois de dar vida na televisão à comédia “Man Seeking Woman” (FX), Simon Rich se concentre com Daniel Radcliffe em “Miracle Workers” e juntos a transformem numa série antológica — com cada temporada a apresentar uma narrativa independente da anterior sem fugir à temática inicial. No fundo, Simon Rich e Daniel Radcliffe estão apostados em fazer da sua criação uma espécie de “American Horror Story”, na qual Ryan Murphy mantém o elenco central e o apresenta em novas situações a cada ano. Daniel Radcliffe, Geraldine Viswanathan, Karan Soni, Jon Bass, Sasha Compère e Steve Buscemi já quase adivinham o seu destino.