Cultura

Timão, o nativo digital

André e. Teodósio na pele de Timão de Atenas

No CCB, o Teatro Praga encerra a trilogia sobre Shakespeare com uma adaptação de “Timão de Atenas” ao século XXI

De uma forma muito simples, pode dizer-se que a história de Timão de Atenas é a de um homem que enriquece e se torna esbanjador, presenteando todos aqueles que o rodeiam. Um dia, descobrindo-se na penúria, procura apoio nesses “amigos”, mas só encontra desamparo. O confronto com a falsidade das relações que alimentou faz nascer nele um terrível ódio. Timão deseja a queda de Atenas, a maldição dos atenienses. A dramática queda levá-lo-á a regressar à natureza e aos seus instintos. Ruma à floresta, onde descobrirá ouro, que oferecerá a quem se comprometer em destruir a cidade: “O bicho mais cruel será melhor que a humanidade. (...) Malditas sejam as festas, a companhia dos homens, a multidão dos homens! Que a destruição se abata sobre o homem. (...) puta da humanidade. (...) Sou misantropo. Odeio a humanidade.” William Shakespeare escreveu “Timão de Atenas” depois de “Otelo”, “Rei Lear” e “Macbeth”, mas não chegou a encenar a peça. O texto apareceu no fólio de 1623 e só no século XIX subiu a palco.

Na proposta do Teatro Praga, “Timão de Atenas” serve uma reflexão sobre o processo artístico que começou com a encenação de outros dois textos de Shakespeare. É o teatro dentro do teatro. O primeiro espetáculo foi criado em 2010 e usou como fontes “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Shakespeare, e “The Fairy Queen”, semiópera de Henry Purcell. O segundo, de 2013, utilizou música do mesmo compositor inglês e texto de “A Tempestade”. “Timão de Atenas”, que encerra a trilogia, tem origem na obra que reúne a adaptação de Thomas Shadwell e a “mascarada” encomendada a Henry Purcell, em 1694, e na reescrita de José Maria Vieira Mendes. André e. Teodósio explica a lógica que está por trás de cada aproximação aos textos do ‘Bardo’: “No primeiro, é o público que comanda o olhar; no segundo, o que conta é a intenção do autor; no último, o olhar é sobre a própria obra e o modo como as realidades materiais comandam o que estamos a criar.” Com os Praga, não é Timão que sobressai, pelo menos na primeira parte do espetáculo, mas a corte que o rodeia e os mecanismos que esta cria para alcançar a atenção do rico senhor. “Pessoas horríveis que nos fazem rir mas que podemos encontrar facilmente nas redes sociais”, sublinha Vieira Mendes.

Entre a farsa e a comédia, este “Timão de Atenas” coloca o acento no cinismo dos que, numa ânsia de sobreviver, rodeiam o poder, nos trejeitos dos que querem obter favores, na superficialidade das relações humanas, nos sucessivos jogos e estratégias que se vão desenvolvendo. Uma opção que, como explica Vieira Mendes, teve a ver com o facto de os Praga terem desejado outra relação com esta personagem: “Percebemos que havia um lado perverso na personagem de Timão de Atenas. Ao longo da história, ele tem sido entendido como uma vítima do sistema capitalista... Mas não é ele um vencedor e não apenas uma vítima?” Na primeira parte, um grupo de pessoas espera: “Pode ser por Timão de Atenas, pode ser por uma pessoa ou uma festa. Seja o que for, não chega”, continua Vieira Mendes. É da expectativa que a narrativa se alimenta. Timão, que também pode ser visto como um mecenas das artes, foi pretexto para os Praga refletirem sobre “o dinheiro, o espaço em que os espetáculos são feitos, as instituições que os encomendam”. Outra ideia que sobressai nesta encenação é a do luxo e a forma como esta foi mudando ao longo dos tempos, nomeadamente de uma ideia material, nos séculos anteriores, para uma ideia experimental, neste nosso século. Na segunda parte, mais do que o misantropo raivoso, aparece um misantropo digital, um homem que não se deixa tocar mas que é visto por todos. Fechado na sua caverna de sombras, Timão, interpretado por André e. Teodósio, pode ser uma figura de Instagram ou de um reality show televisivo. Na floresta, Timão afirma-se um nativo digital.

Timão de Atenas

A partir de William Shakespeare

Centro Cultural de Belém, Lisboa, dias 6, 7 e 8 de abril