Cultura

Quadro preferido de Ricardo Salgado (e guardado religiosamente pelo banqueiro) vai ser mostrado ao público pela 1ª vez em 70 anos

Obra-prima da coleção do BES, agora Novo Banco, vai ser entregue ao museu de Évora

“Festa de Casamento”, da autoria de Pieter Bruegel, o Jovem, estava há largas décadas na família Espírito Santo. Mas quando o BES foi privatizado passou a acompanhar o presidente do banco no seu gabinete privado. Esta quinta-feira, a obra, que não é mostrada em público há 70 anos, entra no Museu de Évora, onde ficará exposto.

Trata-se da obra-prima da coleção do BES, agora Novo Banco (o acervo está a ser atualemnte distribuído pelos museus portugueses). É um quadro raríssimo, mais celebrado ainda porque é uma versão de uma “Festa de Casamento” pintada por Bruegel, o Velho, em 1567.

A obra encontrava-se na família Espírito Santo até passar para o banco e se tornar na peça preferida de Ricardo Salgado, que a guardava religiosamente no seu gabinete privado, em Lisboa, na sede do BES. A obra do artista flamengo, pintada em 1620, não é mostrada em público há 70 anos. O quadro mostra uma festa de camponeses que assinala um casamento.

A obra, que agora ocupará um lugar de destaque no Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, é proveniente de uma coleção particular inglesa. É uma quinta versão do tema e uma das mais antigas datadas, constituindo um importante contributo para o corpus da obra de Peter Bruegel, o Jovem. A assinatura P. BREVGHEL, com ortografia idêntica à das restantes versões, bem como a data, 1620, encontram-se à direita, inscritas na espessura da mesa de madeira.

Esta pintura de Pieter Bruegel, o Jovem, retoma uma composição do pai, Pieter Bruegel, o Velho, um dos primeiros pintores flamengos a interessar-se pela representação de temas rurais e a integrar nas suas composições, com um profundo sentido de observação, diversos géneros de pintura: retrato, paisagem, natureza morta, tipos e costumes e sobretudo a narrativa de algo que estava a acontecer num momento específico. Captar o ambiente do acontecimento, traduzir pictoricamente a “narrativa em movimento” e observar o comportamento humano foram inovações marcantes na pintura da época.

Apesar de não ter tido muito contacto com o pai, que morre quando o jovem Pieter Bruegel tem apenas cinco anos, cresce num meio de artistas, neto do célebre pintor Pieter Coeck d’Alost e de Mayken Verhulst Bessmers, igualmente pintora, que o terá iniciado na arte da pintura. Aos 16 anos encontra-se inscrito na Guilda dos pintores de Antuérpia como “Peter Bruegel filho de mestre pintor”. Como primogénito, herda a oficina do pai e o respetivo acervo artístico - desenhos, esboços, gravuras, pinturas.

Ao longo de mais de meio século dará continuidade à sua obra. Faz várias pinturas ao estilo do pai, algumas cópias exatas, outras baseadas em originais ou em gravuras, nas quais insere variantes, e outras de composição original que, sendo da sua invenção, estilisticamente se mantêm “à maneira de”.

A sua obra, de exímia competência técnica no desenho e na pintura, traz também novos contributos no modo de representar a narrativa, com diversas inovações na iconografia dos temas rurais e populares. As suas composições originais transmitem uma visão pragmática e realista do mundo. É uma pintura que reflete um interesse sensível pelo ser humano, pelas suas preocupações quotidianas, filosóficas e espirituais.

Esta iniciativa enquadra-se no programa NOVO BANCO CULTURA e resulta de uma parceria estabelecida em 2018 com o Ministério da Cultura no sentido de disponibilizar ao público cerca de 90 obras do património artístico e cultural daquela entidade bancária.