Diário

“Ainda falta dar importância à doação de órgãos em Portugal”

Ao longo de mais de meia década, a médica Ana França deu o rosto pela transplantação em Portugal. Ciente de que sem órgãos recolhidos não há transplantes possíveis, tentou integrar as duas áreas e reconhecer a importância da doação. Sai agora, porque quer devolver o muito que recebeu da família

Christiana Martins

Christiana Martins

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Jornalista

Ana França foi coordenadora nacional de transplantação durante seis anos

Ana França foi coordenadora nacional de transplantação durante seis anos

D.R.

Durante o ano passado, 76 pessoas morreram em Portugal à espera de serem transplantadas. Em 2018, houve menos seis dadores falecidos em relação ao ano anterior e, dos 976 órgãos colhidos, 757 foram transplantados, revelando uma perda de 219 órgãos. Ana França, 67 anos, é coordenadora nacional de transplantação há seis anos, mas cessa funções este domingo. Em entrevista, faz um balanço do que fez e, sobretudo, do que falta fazer.

Em abril, já não será ela a responsável por aumentar ao máximo possível o número de vidas salvas. Ana França diz que sai de consciência tranquila, mas reconhece fragilidades na estrutura e, sobretudo, defende um maior reconhecimento da importância da área da doação. Na transplantação, as “estrelas” são já muitas.

Médica Internista, viria depois a especializar-se em Medicina Intensiva. Os temas da verificação da morte cerebral e doação sempre a apaixonaram: “São exemplos de trabalhos de equipa por excelência”.

Alerta que o setor está a mudar. Os dadores são cada vez mais velhos. Em 1996, a idade média era de 36 anos. Em 2018, foi já de 57,3 anos. Mais quatro anos do que em 2017. Um grande desafio para quem precisa de órgãos em condições de serem atribuídos a quem deles precisa para continuar a viver.

O que encontrou quando assumiu a coordenação nacional de transplantação?
Eu já conhecia bem o meio da doação, mas apenas superficialmente o da transplantação, que é mais difícil, protege-se mais. Na doação, comunicamos mais. Encontrei uma área dividida, sem diálogo entre as duas. Com o fim da Autoridade dos Serviços de Sangue e Transplantação, perdeu-se, como a própria palavra diz, alguma autoridade. Partiu-se para a inclusão no Instituto Português do Sangue, com quase 50 anos, em que a transplantação era como um corpo estranho.

Perdeu-se autoridade?
Sim, porque a parte das autorizações de funcionamento e muitas outras competências passaram para a Direção Geral da Saúde e as competências inspetivas passaram para a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS). Portanto, a transplantação no IPST (Instituto Português do Sangue e da Transplantação) ficou com uma área de planeamento estratégico com base na monitorização do funcionamento e a ligação internacional. Há sobreposição em algumas áreas com a DGS. Temos uma parte mais funcional sem termos a autoridade que tínhamos antes.

Quando foi convidada, já sabia dessa orgânica?
Fui-me apercebendo ao longo do tempo. Os estatutos foram publicados pouco depois [de entrar] e, ainda por cima, assumi numa crise, depois de uma redução drástica do número de dadores e na sequência de uma redução de 50% do financiamento durante o período da Troika. Havia uma desmotivação generalizada de todos os profissionais. Como dizer que continuaríamos a lutar, independentemente das condições de financiamento? Tinha de juntar as pessoas e dar-lhes capacitação. Em contra-relógio, juntei todos os coordenadores hospitalares de doação e dei-lhes formação em liderança, com técnicas em trabalho de equipa.

Estabeleceu um vínculo com as pessoas?
Sim, foi o primeiro impacto, seguido sempre por informação contínua. Depois, virei-me para a transplantação, área que eu não conhecia. E sendo eu de uma área de Medicina Intensiva, encontrei desconfiança, como é natural. E as pessoas ainda estavam convencidas de que o melhor modelo era um coordenador de doação e outro de transplantação. E o problema maior da transplantação em Portugal é uma parte não falar com a outra.

Continua assim?
De certa maneira. E o meu objetivo ao longo desses seis anos foi colocar a doação a falar com a transplantação porque o tratamento do dador e a qualidade do órgão vão condicionar o que vier a ser a transplantação.

Tentou colocar a doação em pé de igualdade com a transplantação?
Exatamente.

A transplantação era mais importante do que a doação. Conseguiu resolver este problema?
Esta é uma questão que ainda estará por resolver. Porque a efetividade só é conseguida quando se transplanta.

Na área da doação não há estrelas como acontece na transplantação? Falta reconhecimento de lideranças?
Sim, talvez seja isso. Este é um capítulo ainda muito novo na Medicina Intensiva, que surgiu de uma necessidade real e ainda não há uma capacitação técnica individual e coletiva de o assumir como um motivo de mais poder.

Ao fim de seis anos, o que vai deixar?
Uma área mais articulada. Para ser integrada, será preciso mais. Este trabalho demora pelo menos dez anos.

Sai a meio do caminho?
Saio com a sensação de que o caminho está traçado. Mas não está completo, até porque, todos os dias há novidades nesta área. E não podemos atuar como se estivéssemos numa fábrica.

Do que mais se orgulha?
Do estabelecimento da comunicação entre transplantação e a doação.

E o que correu menos bem?
Não consegui que os aspetos legislativos ficassem tão claros quanto deveria ser. A Rede Nacional de Transplantação não existe legalmente. As unidades de transplantação não estão formalmente na rede.

Continua a faltar autoridade?
Talvez seja isso. O IPST é uma administração indireta do Ministério da Saúde, tal e qual como os hospitais. Estamos ao mesmo nível. Era preciso ter outra capacidade de intervenção para que as decisões pudessem ser mais vinculativas. A área da transplantação perdeu essa capacidade.

Falta também dinheiro?
É do conhecimento público que o financiamento da transplantação sofreu em 2011 um corte de 50%. Perante a grande dificuldade de doação e para estimular as unidades hospitalares, foram feitas propostas para que o financiamento fosse atualizado anualmente. A primeira atualização aconteceu em 2014, quando se conseguiu separar uma margem para a doação. Em 2015 voltamos a dar mais um fomento. A proposta a fazer agora era, de um modo faseado, ver quais as áreas mais deficitárias e onde deveríamos financiar melhor o que se gastava, que é a área renal. Ainda não aconteceu porque, mudou a equipa ministerial e teve de recomeçar tudo.

Qual era exatamente a vossa proposta, que se desse um incentivo financeiro às equipas de colheita e transplantação de rins?
Não era um incentivo, estamos a falar de financiamento. Não só para a área cirúrgica, que está tabelada, mas para os tratamentos dos dadores. O mais adequado seria a criação de um programa vertical, tal e qual foi feito para a obesidade mórbida, por exemplo, que consignasse um preço compreensivo que permitisse ter condições de trabalho adequadas e tudo mais normalizado.

Há transparência nesses processos em Portugal?
Só não há, se as pessoas não quiserem. Os incentivos são iguais para todos, a distribuição é que é decidida pelas administrações dos hospitais.

Se o IPST fosse uma autoridade na área da transplantação...
Poderia ter uma palavra a dizer e nesse caso não tem porque está em pé de igualdade com os hospitais.

E deveria ter?
Só posso falar por mim. Na minha opinião deveria ser proposta às várias entidades que trabalhassem com economistas especializados na área da Saúde para avaliar os custos e equilibrassem e determinassem o tipo de financiamento.

Um pacto nacional para a transplantação?
Exatamente. Com regras iguais para todo o país. Uma conciliação de todos os pares. Sinto que demos o primeiro passo com o Registo Português para a Transplantação, que permite avaliar todos os custos.

Porque não promoveu este tipo de estudo económico?
A coordenação nacional deve propor medidas, mas há dificuldades em ultrapassar barreiras. Os circuitos são lentos e demasiados burocráticos. Como intensivista, estou habituada a ver os resultados logo; uma ressuscitação é para se ver logo. É um defeito: não temos maleabilidade para esperar.

Porque vai embora? Perdeu a paciência?
Não, vou começar uma nova etapa da minha vida. Tenho 67 anos e tenho paixões para além da Medicina. A vida de um médico é muito limitada, sobretudo, quando a outra parte da família não é da mesma área. O meu marido suportou-me, só consegui ocupar os cargos que ocupei porque tive o suporte incondicional dele. Agora, está na altura de aproveitarmos a vida lado a lado. Está na altura de mudar de vida.

É possível ter ainda mais dadores?
Sim, porque muitas vezes as equipas não estão bem dimensionadas. É uma questão de gestão. Há que fazer algumas modificações. Temos de dar capacitação ao coordenador hospitalar de doação e os grandes hospitais tinham de ter uma equipa. É preciso uma mudança de mentalidade.