CEO RESET. Trabalhar lá fora é melhor trabalhar? Isso é provincianismo, diz António Ramalho
01.08.2019 às 11h00
António Ramalho é presidente do conselho de administração executivo do Novo Banco e o quinto dos dez CEO que, ao longo de 2019, revelarão as suas experiências e dicas de gestão no Expresso
José Fernandes
Em resposta a inesperadas perguntas de estudantes universitários, o CEO do Novo Banco também lamenta o facto de não ter passado mais tempo com as suas filhas devido à sua carreira profissional. Este é o quinto de dez CEO que aceitaram o repto do jornal Expresso e da consultora EY para fazerem “reset” e refletirem sobre o desafio que é gerir uma empresa ou ter de começar de novo
A primeira pergunta é de Rafaela Valente, 19 anos. Esta estudante da licenciatura em gestão administração de empresas na Católica Lisbon School of Business & Economics vê-se, no futuro, a trabalhar no departamento financeiro de uma empresa. Ela pergunta: "Considera que, no fim da licenciatura ou do mestrado, se deve tentar ficar e trabalhar em Portugal ou devemos explorar o mercado de trabalho internacional?”.
Em resposta a esta pergunta, o CEO António Ramalho explica como o local de trabalho é cada vez menos relevante hoje em dia (ver vídeo).
A segunda pergunta é de Sofia Fiolhais, 19 anos. Esta estudante da Nova School of Business & Economics gostaria de começar a sua carreira profissional numa start-up. Ela pergunta: “O que é que sabe hoje e que gostaria de ter sabido quando acabou a faculdade?”
Em resposta a esta pergunta, o CEO António Ramalho destaca a importância do equilíbrio entre a vida profissional e familiar e lamenta não ter passado mais tempo com as suas filhas:
“O que eu sei hoje é que, eventualmente, a parte emocional e intuitiva da nossa vida é mais importante para o sucesso profissional do que apenas a convicção de conhecer todos os assuntos e de encontrar solução para eles. E que há que desenvolver essas capacidades o quanto antes”.
“É preciso mais vida para além da profissão. Isso é algo que os jovens estão hoje a entender, mas que na minha geração foi muito esquecido. Nós na indústria bancária, na indústria financeira, somos talvez o melhor exemplo de nos termos separado da sociedade. A certa altura vivemos, tão fechados sobre a nossa própria realidade, que não nos apercebemos que havia uma outra sociedade lá fora, com outros anseios, com outras dificuldades, com outras questões… Portanto, um bom balanço com a vida pessoal desde a primeira hora é aquilo que eu não aprendi e devia ter aprendido”
“A ideia que nós temos agora de criar uma situação fantástica para que as pessoas possam viver nas instituições é um bocadinho contraditório com o facto de as pessoas não quererem lá viver e quererem ter a sua vida fora. O que nós temos é de encontrar um modelo organizativo que seja mais de acordo com aquilo que é o modelo da sociedade”
“Houve um tempo em que a sociedade premiou muito esforço e a quantidade. Hoje a sociedade está mais saudável do que estava há 30 anos atrás. Eu aprendi isso com a vida, mas não consigo aprender a revisitar a história”
“Quando trabalhei no grupo Champalimaud, julgo que, durante seis anos, não jantei em casa. Lembro-me perfeitamente que levava as minhas filhas todos os dias ao colégio de manhã. Esse era o meu momento para estar com as minhas filhas porque, naturalmente, quando eu chegava a casa elas já estavam a dormir. Eu tinha imenso orgulho nessa minha função paternal, até que uma das minhas filhas me disse de forma cândida e serena: “O pai é pai durante 50 minutos por semana que são os 10 minutos que todos os dias me leva à escola”. Deixe-me dizer que esse foi um dos piores dias da minha vida”.
António Ramalho é o quinto de dez gestores de empresas que aceitaram o repto do jornal Expresso e da consultora EY para fazerem “RESET” e refletirem sobre o desafio que é gerir uma empresa ou ter de começar de novo. Acompanhe no site do Expresso as suas histórias, dicas e conselhos.