Internacional

Nigéria. Investigação às petrolíferas avalia impacto humano e ambiental da poluição

Vestígios de petróleo no Delta do Níger

Ron Bousso / Reuters

Milhares de derramamentos de petróleo fazem do Delta do Níger uma das zonas mais poluídas do planeta. Um outro estudo de 2017 apurou que a poluição nesta região mata 16 mil bebés todos os anos

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Um sinal de ferro enferrujado espetado no chão e meio deitado para trás exibe um aviso de perigo. Meio apagada está a frase que alerta as pessoas a manterem-se afastadas da zona contaminada pela poluição de petróleo.

Esta e muitas outras zonas do Delta do Níger, onde os sinais de aviso caiem de velhos sem terem valido de muito, vão ser objeto de um novo inquérito dirigido às petrolíferas que operam na região. Lançada pelo arcebispo de York e membro do Parlamento britânico, John Sentamu, a investigação tem por objetivo avaliar “o dano ambiental e humano” causado pela atividade dos vastos campos petrolíferos da Nigéria.

“Esta comissão investigará o impacto humano e ambiental da atividade das companhias petrolíferas multinacionais e é crucial para o futuro próspero do povo e para o ambiente de Bayelsa, da Nigéria e, esperemos, para todas as nações produtoras de petróleo”, declarou Sentamu, citado pela CNN.

O Delta do Níger é a região de África com maior produção de petróleo e estima-se que a Nigéria produz 300 milhões de litros de crude ao dia, o que representa 70% dos lucros do Governo.

“Alimentou e engordou a riqueza das elites nigerianas ao mesmo tempo que as massas nem lhe tocaram”, escreve o diário digital Espresso da revista “The Economist”. Para elas sobraram as consequências dos extensos derramamentos de crude, já que todos os anos acabam espalhados no Delta perto de 40 mil litros de petróleo.

Este número é oito vezes superior às quantidades de petróleo derramadas nos Estados Unido, que é o maior produtor e consumidor do mundo. Um estudo do ano passado do Journal of Health and Pollution apurou que ocorreram mais de 12 mil derramamentos na região entre 1976 e 2014. A corrosão dos oleodutos e acidentes com os contentores de petróleo são responsáveis por 50% das perdas de petróleo ao que se juntam erros operacionais, falência mecânica, erros humanos e sabotagem.

As companhias petrolíferas culpam os ladrões que perfuram os oleodutos e os advogados culpam a cultura de impunidade.

Um relatório datado de setembro de 2017 do Grupo CESifo, um instituto de estudos económicos do Grupo Munich sobre o efeito destes incidentes na mortalidade infantil, estima que a poluição do delta seja responsável pela morte de 16 mil bebés todos os anos. O estudo cruza dados do Controlo Nigeriano dos Derramamentos com os apurados pelas sondagens à demografia e saúde e compara os recém-nascidos concebidos antes e depois dos derramamentos para concluir que a proximidade dos derramamentos duplica a taxa de mortalidade neonatal.

A investigação vai ter supervisão do governo do estado de Bayelsa e nos peritos vão avaliar a escala do prejuízo humano e ambiental provocado pelas perfurações com o objetivo de recomendar meios de tornar as companhias mais controláveis. Em última análise, trata-se de encontrar um conjunto de regras standard para as petrolíferas da região que fosse aceitável em partes mais ricas do mundo.