25 anos depois, o genocídio do Ruanda ressoa ainda
02.04.2019 às 12h52
Fuga do Ruanda para a Tanzânia em 1994
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Este pequeno país que tem um dos desenvolvimentos mais significativos de África é governado com punho de ferro. Entre 800 mil e um milhão de mortos na memória recente teimam em fazer da reconciliação um objetivo a alcançar. Por enquanto, as relações nas comunidades são pacíficas, mas inquietas
Tem um Parlamento paritário com 50% de mulheres parlamentares, baniu a utilização de sacos de plásticos há mais de dez anos, acaba de proibir a utilização de produtos de branqueamento da pele e tem um dos crescimentos económicos mais altos e estáveis do continente. Que pequeno país é este situado no coração da África dos Grandes Lagos que re-elegeu com 99% dos votos o Presidente que tomou o poder há um quarto de século?
No Ruanda passam 25 anos sobre o início da matança que, entre 7 de abril e final de julho de 1994 dizimou entre 500 mil e um milhão de vidas. O ponto assente é que houve um genocídio. E foi o mais concentrado no tempo da história de África: 100 dias. A manipulação exercida sobre uma população dividida entre 84% de hutus e os restantes tutsis foi das mais eficazes que se conhecem.
As “baratas” a abater eram a minoria tutsi mais todos os hutus moderados que ousassem defendê-los. Como escreveu o jornalista Philip Gourevitch, “Toda a população hutu foi chamada a matar toda a população tutsi”, cita-o a revista “The Economist”. Acima de tudo, a ameaça era real: quem não matasse seria morto.
A intricada malha social do país fez da violência um assunto doméstico extremando-a a níveis revoltantes. Maridos hutus mataram as mulheres tutsies, não escaparam bebés, crianças nem mulheres grávidas.
O país equivale em área a pouco mais de meia Holanda. Tem hoje 12 milhões de habitantes, mais sete do que há 25 anos. A disputa por terra arável é óbvia e essa sempre foi uma das causas do conflito. Hutus e tutsis não são duas etnias, mas duas componentes de uma divisão social unida por uma mesma língua nacional (kinyarwanda) que está há séculos ligada à posse de gado (tutsis) e trabalho da terra (hutus). A acumulação de riqueza é relativa, mas sensível, e as posições são intermutáveis, apesar do clássico domínio da minoria tutsi ao longo do tempo.
Kagame herói
O Presidente Paul Kagame, um tutsi refugiado desde jovem no vizinho Uganda onde liderou no exército nacional do Presidente Yoweri Museveni, foi o líder rebelde cujas tropas (Frente Patriótica do Ruanda, RPF na sigla inlgesa, nascido do Movimento de Resistência Nacional de Museveni, NRM, também na sigla inglesa) acabaram com o genocídio. De seguida, perseguiu os “genocidários” pelo leste da República Democrática do Congo dentro, na qual gerações de banidos crescem desde então.
Desde que foi eleito, Kagame gere o país com punho de ferro, apostando num desenvolvimento ímpar que tem aproximado Kigali das capitais africanas orientais mais desenvolvidas, como Nairobi (Quénia), Abuja (Tanzânia) e Kampala (Uganda). Em dois anos, impôs também por isso a língua inglesa como primeira língua estrangeira, cortando com o passado colonial belga e francês e pondo fim à supremacia da francofonia a partir de 2010.
A sua abertura à oposição política é praticamente inexistente e considera que as diferenças políticas criam instabilidade. A proteção dos tutsis é parte da agenda do Presidente, que não se esforça da mesma maneira por defender os direitos humanos. Mantém os media controlados em memória do papel facilitador e multiplicador que tiveram no genocídio.
Vai também havendo notícia de assassínios à distância, antigos líderes militares das suas fileiras que aparecem mortos, por exemplo, na África do Sul. Recentemente, amargaram as relações com Museveni, o chefe de Estado ugandês que foi um aliado de sempre e a quem ajudou a conquistar o poder em 1986. Kagame acusa-o agora de albergar no país “traidores” do Ruanda.
Líder da União Africana em 2018, Paul Kagame seduz a opinião pública dentro e fora do continente com a ordem que impôs no país, uma reconciliação à medida da proximidade com os acusados de genocídio.
Modernizou o país, conseguiu reduzir a mortalidade infantil para metade desde 2000 e promove o país em fóruns internacionais que fazem esquecer a pequena dimensão do país, rodeado por nações de peso. A verdade é que as relações entre os chamados doadores ocidentais e o Ruanda não são abaladas pela perceção de falta de democracia.
O país prospera. Paul Kagame “fez um trabalho incrível em termos de desenvolvimento e de liderança”, diz Patrick Hajayandi, investigador do Instituto para a Paz e Reconciliação da África do Sul. Haverá porém uma verdadeira reconciliação? As questões continuam a ser discutidas, estão em aberto. Não estão suficientemente bem resolvidas para que Paul Kagame alivie o tom autoritário da sua presidência. Ainda não.